As avaliações nacionais e estaduais de língua portuguesa e matemática no ensino médio têm baixo poder de mensurar o avanço dos estudantes com desempenho mais fraco. É o que aponta um estudo apresentado pelo gerente de educação do Instituto Unibanco e professor da FEA-USP, Ricardo Madeira, gerente de Desenvolvimento da Gestão em Educação do Instituto Unibanco, durante o 6º Seminário Internacional de Gestão Educacional, em São Paulo.
A pesquisa analisou dados de avaliações nacionais e estaduais de cinco estados parceiros do programa Jovem de Futuro e os cruzou com as habilidades previstas nas matrizes de referência do Saeb. O resultado revelou um padrão consistente: há um descompasso entre o ponto em que os alunos se encontram na escala de proficiência e o nível de dificuldade dos itens das provas.
Na prática, a maioria dos estudantes do ensino médio está concentrada nos níveis mais baixos — abaixo do básico. Os itens das provas, no entanto, estão calibrados para níveis mais altos. O efeito aparece nas duas disciplinas, com maior intensidade em matemática. A avaliação consegue diferenciar com precisão os alunos que estão bem, mas pouco enxerga a realidade de quem está atrás.
"A gente sabe que eles sabem pouco, mas exatamente o que eles não estão sabendo nas diferentes faixas de proficiência, a gente sabe muito pouco", disse Madeira ao Correio.
Por que isso importa
O achado tem consequências diretas para as políticas de recomposição das aprendizagens — a principal agenda da educação básica brasileira após a pandemia. Se a avaliação não captura o progresso dos alunos mais frágeis, as redes não conseguem saber se as estratégias adotadas estão funcionando para quem mais precisa.
"As avaliações somativas são pouco sensíveis às estratégias pedagógicas que focam nos alunos que estão em nível mais baixo de proficiência", afirmou Madeira. "Quais são exatamente as estratégias de recomposição de aprendizagem."
Em língua portuguesa, o descompasso é menor. Segundo a pesquisa, as provas dessa disciplina apresentam maior alinhamento entre a distribuição dos alunos e a dificuldade dos itens.
Madeira ressalvou que a solução não consiste em simplesmente incluir itens mais fáceis nas provas. "Primeiro, é preciso pactuar e explicitar a teoria de aprendizagem que orienta o marco conceitual da avaliação", disse. A teoria pedagógica por trás das estratégias de recomposição precisa estar conectada ao que a avaliação mede — e ser revisada continuamente à medida que novos dados são coletados.
O Correio acompanhou o evento a convite do Instituto Unibanco.
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá
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