ELEIÇÕES 2026

Intolerância transforma divergência política em violência, dizem especialistas

Diversos casos de violência foram publicados nas redes nos últimos dias; especialistas apontam como a intolerância enfraquece o debate democrático

Intolerância enfraquece o debate democrático -  (crédito:  Ed Alves CB/DA Press)
Intolerância enfraquece o debate democrático - (crédito: Ed Alves CB/DA Press)

O último fim de semana foi marcado por casos de violência política no Brasil. Um deles aconteceu no domingo (18/10), quando Mariana estava na saída da estação do Butantã, em São Paulo, esperando um motorista de aplicativo. Ela escutou um casal fazendo comentários sobre aparência e apontando para ela. Mariana, uma mulher de um metro e sessenta, dreadlocks e vestindo uma camisa vermelha, foi entender o que eles estavam dizendo. O homem subiu o tom e começou a ofendê-la verbalmente. Mesmo sem nunca ter visto aquele casal na vida, os dois gritavam com ela. O homem começou a peitá-la. Mariana o empurrou e depois foi atacada com três socos no rosto e cabeça.

Outras mulheres que passavam pela estação viram o ocorrido e acolheram Mariana. Uma delas gravou uma parte da agressão. Segundo Mariana, ela estava apenas indo para casa. Não estava indo ou voltando de manifestação. Apenas usava uma camiseta vermelha.  

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Márcio Ferreira também estava voltando para casa pelo metrô de São Paulo quando viu uma mulher, acompanhada pela filha, discutindo com outras três pessoas. Ao ver que a discussão estava escalonando, ele tentou acalmar a senhora. "Ffalei que não fazia sentido ela ficar brigando ali, independente dela ser bolsonarista e eles lulistas”, contou Márcio, em um vídeo publicado nas redes.

Segundo ele, no momento em que disse “bolsonarista” a mulher começou a xingá-lo com ofensas homofóbicas e racistas. Márcio conta que foi se afastando da mulher, mas ela foi atrás dele. Os ataques foram gravados por Márcio e divulgadas nas redes sociais. Mesmo com a presença de um policial, a mulher seguiu ofendendo Márcio. O caso também aconteceu no domingo. A vítima prestou um boletim de ocorrência contra a mulher.

Houve mais diversos casos de violência motivados por questões políticas no último final de semana antes das eleições. Um homem teve o vidro traseiro do carro quebrado por ter um adesivo de um candidato político, em Curitiba. Um grupo de opositores invadiu um ato e entrou em conflito com os manifestantes, em Belém, no Pará. Também aconteceu outro caso de agressão à uma mulher no metrô de São Paulo. 

Aumento dos casos

Levantamento realizado pelas ONGs Terra de Direitos e Justiça Global mostra que entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, 354 episódios de violência política foram registrados no Brasil. Desses, 134 (aproximadamente 37,85%) foram em 50 dias, entre 15 de agosto e 4 de outubro (dia do primeiro turno). O estudo mostra apenas casos registrados contra candidatos ou agentes políticos, mas denuncia um aumento de 18% na violência entre o mesmo período de 2022, quando foram registrados 121 casos.

Mesmo com menos espaço na política, as mulheres são as principais vítimas dos casos de violência com 52,2% durante o primeiro turno e 50,6% no recorte total do levantamento. Pessoas negras, pretas e pardas representam 44,8% dos casos, no primeiro turno. Embora representem 18,2% das candidaturas, as mulheres negras sofrem 24,6% das violências cometidas contra mulheres, quase uma a cada quatro. 

Origem da violência política

Para o professor de psicologia política da UnB, Fauston Negreiros, esses casos de violência antes das eleições, não são apenas uma sobrecarga emocional, mas são comportamentos socialmente construídos e influenciados pelas relações de poder, discursos políticos e a naturalização da violência.    

Ele explica que a raiva não produz violência por si só. Negreiros afirma que o problema está também nas condições sociais e políticas que estimulam determinadas pessoas a acreditar que agredir o outro é uma atitude justificável.

“Quando alguém passa a enxergar quem pensa diferente como um inimigo, e não como um sujeito de direitos, a divergência política pode se transformar em agressão”, comenta o professor.

De acordo com ele, existem três formas de discordância política. A divergência política, que é a existência de diferentes interesses, valores e visões de projetos políticos, o que é importante para a democracia. Por exemplo, uma visão que acredita que garantir a saúde dos cidadãos é um papel do estado, e outra que acredita que a saúde é responsabilidade de cada cidadão.

A intolerância aparece quando essas diferenças deixam de ser reconhecidas como legítimas e o diferente é visto como uma ameaça, e o debate político é substituído por hostilidade, constrangimento e exclusão. 

A violência política envolve práticas de ameaça, intimidação, de perseguição, agressão ou silênciamento à participação e ao posicionamento político de certos grupos. 

“Eu não diria que são estágios diferentes. Elas têm constituições diferentes. A divergência política faz parte do debate democrático. A intolerância vai aparecer quando essas diferenças deixam de ser reconhecidas como legítimas e a violência ela vai ter essa roupagem, de quando você quer defender a retirada de direitos e te desdobra pra discriminação determinados grupos sociais específicos”, explica o professor.

Segundo ele, o processo da divergência política se tornar uma violência é intensificado em contextos de polarização, ou quando lideranças políticas e grupos sociais legitimam o ódio, a intolerância e a desumanização dos adversários.

“As lideranças políticas não representam apenas posições ideológicas, elas também participam na construção de referenciais coletivos sobre aquilo que é considerado aceitável na sociedade. Quando uma figura política ridiculariza diferenças, transforma grupos em inimigos ou até justifica práticas autoritárias, ela pode favorecer demais a desumanização, a violência e legítima a hostilidade”, explica o especialista em psicologia política.

Já o professor de ciências políticas da UnB, pesquisador em temas voltados a protestos, movimentos sociais e violência política, Eduardo Georjão, explica que a radicalização política no Brasil vem aumentando. Segundo ele, a postura dos candidatos com discursos agressivos, gera para o eleitor uma sensação de permissividade do ódio. 

“A radicalização tem a ver também com a postura de agentes políticos. No caso do Brasil, nos últimos 10 anos a gente tem visto agentes políticos se colocando nessa posição de identificar o campo adversário como um campo que deve sucumbir ou se submeter ao campo vitorioso, e principalmente com discursos que têm alta permissividade a violência, que incentivam a violência”, diz Georjão.

“Não necessariamente vão dizer com todas as palavras pras pessoas serem violentas, mas vão ter um discurso que vai disseminar o ódio, que vai disseminar essa ideia de que o campo adversário precisa ser exterminado. Obviamente esse discurso acaba tendo uma aderência e uma sensação de permissividade, uma sensação de que não vai dar nada se agir daquela forma violenta”, conta o professor.

Outro elemento que segundo o Georjão contribui para o comportamento violento na política é a falta de responsabilização. “A ausência, falta ou a escassez da responsabilização acaba também incentivando esse tipo de comportamento.” Nos dois casos citados no começo da matéria, houveram a presença de policiais, e mesmo com a violência sendo cometida em flagrante, os dois agressores saíram do metrô normalmente, como se não tivessem cometido nenhum crime.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) afirmou que os casos seguem em apuração. Mas não obtivemos uma declaração sobre a conduta dos policiais envolvidos até o fechamento da reportagem. 

Bolhas sociais

O professor Georjão explica que é fundamental analisar o papel das redes sociais na política brasileira e mundial. Segundo ele, a falta de convivência com opiniões contrárias, acaba gerando mais extremidades.

“A falta de convivência com opiniões contrárias com o outro, que pode inclusive me fazer repensar aquilo que eu identifico, as ideias que tenho do mundo, vai construir grupos que são muito fechados em si mesmos”, explica o professor.

A falta de ideias contrárias, de acordo com Georjão, cria uma ideia deturpada sobre o que é o outro e quando acumulamos a visão extremista criada pela rede social, o encontro entre os diferentes pode ser violento.

“Exatamente pela falta de convivência com ideias opostas a gente vai criando cada vez mais um fantasma do que seria o outro. A gente vai projetando no outro todos os males do mundo e a gente nunca encontra de uma forma real, o que faz com que quando a gente encontre essas pessoas na rua, a gente já parte do pressuposto de que o encontro vai ser violento”, completa o professor.

Mas por que alguns políticos usam do discurso violento? 

De acordo com o professor Negreiros, essa identificação não pode ser explicada apenas por características sociais ou por uma “falta” de consciência política.

“A gente precisa considerar que isso perpassa e é produzido graças a condições históricas e sociais que favorecem essa identificação. Por exemplo, em contextos de desigualdade, de insegurança e descrença nas instituições (seja na política ou no sistema eleitoral), os discursos autoritários podem apresentar respostas aparentemente simples para problemas complexos. E a construção de inimigos políticos pode funcionar como estratégia de mobilização de ressentimentos, de medos, de frustrações socialmente produzidas”, explica o professor de psicologia política. 

“Isso não significa que todos os eleitores dessas candidaturas concordem com manifestações violentas. Mas significa reconhecer determinadas estratégias políticas que podem transformar o sofrimento e a insegurança social em produzir inimigos e mobilizar pessoas a adesão ao projeto autoritário”, complementa Fauston Negreiros.

Quem perde somos todos nós

Georjão frisa que quando a capacidade de diálogo com o outro é perdida, perde-se também a possibilidade de construir um projeto de país. 

“É uma erosão das nossas capacidades de convivência, que no final das contas é uma perda da nossa capacidade de agir de uma forma solidária e de construir, mesmo com todas as diferenças, um projeto de país em que a gente compartilhe pelo menos alguns valores fundamentais, como o respeito, a não violência, o uso de medidas pacíficas para ação política”, completa o professor.

*Estagiário sob supervisão de Aline Gouveia

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postado em 23/10/2026 16:00 / atualizado em 23/10/2026 16:39
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