
Após uma série de reviravoltas e informações falsas sobre o seu paradeiro — divulgadas por aliados —, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato derrotado à Presidência, chegou nessa quarta-feira aos Estados Unidos. Horas depois, na Flórida, divulgou uma carta de teor golpista se declarando "presidente eleito do Brasil". Em seguida, apagou o texto e se proclamou "líder do Brasil".
Na primeira versão da carta golpista, Flávio escreveu: "Sou o presidente eleito, e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação".
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Ele disse que, nos próximos dias, vai se dirigir regularmente ao povo brasileiro e apresentar uma estratégia para mobilizar a oposição e o apelo popular "por todos os meios pacíficos e legítimos para impedir que Lula se consolide um regime ditatorial no Brasil". Também se dirigiu às instituições brasileiras e fez um apelo para que "essa sandice" acabe. Segundo o candidato derrotado, o Brasil vive em um cenário de "caos jurídico", corrupção e perseguição política. O documento estava grafado com o brasão da República Velha, com nome de Estados Unidos do Brasil, que deixou de ser usado em 1967.
Pouco depois, o candidato vencido nas urnas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou a autodeclaração, de "presidente eleito do Brasil" para "líder do Brasil". No entanto, no novo texto, continua alegando fraude nas eleições, sem apresentar provas.
Flávio chegou aos EUA a bordo de um jato Gulfstream G400, da Baires Fly, empresa de táxi aéreo, que partiu da Argentina, fez escala no Equador e pousou em Miami. O parlamentar viajou acompanhado da família, mesmo após uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) que o proibia de deixar o país.
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Ao contrário do que divulgaram aliados brasileiros do candidato derrotado, ele não deixou a Argentina na tarde de terça-feira, mas, sim, no fim da noite do mesmo dia, com transmissão ao vivo por veículos de imprensa do país vizinho.
Enquanto a imprensa brasileira, autoridades do país e aliados do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, divulgaram, ao longo do dia, que Flávio já estava em solo americano, a jornalistas argentinos insistiam que o senador não tinha partido do país. De fato, ele chegou ao Aeroporto Internacional de Iguazu próximo das 23h, quando decolou rumo ao Equador.
A Polícia Federal apura como ele se deslocou de Brasília até a fronteira com o território argentino. A avaliação é de que de carro não haveria tempo suficiente para realizar o trajeto. Uma das hipóteses é de que ele tenha usado um avião do advogado Willer Tomaz que se deslocou da capital federal para a divisa com o país vizinho.
Flávio é alvo de duas investigações que correm no Supremo. Uma delas apura a suspeita de lavagem de dinheiro com Willer Tomaz envolvendo apostas esportivas on-line, as chamadas bets.
O outro inquérito investiga o financiamento do filme Dark Horse, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes. Em áudio, Flávio aparece pedindo R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para, supostamente, bancar a cinebiografia.
Defesa das urnas
Depois que Flávio investiu contra a lisura do pleito, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, divulgou nota na qual enfatizou que o processo ocorreu com segurança e dentro da normalidade. O magistrado, no entanto, deu uma alfinetada no ministro Cristiano Zanin, do STF, que estendeu o horário de votação em todo o país, no domingo — a decisão atendeu a pedidos de partidos, em razão da falta de ônibus em Salvador e das chuvas em alguns estados.
"No último domingo, foram realizadas as eleições mais inclusivas da história da República brasileira. Mesmo diante da instabilidade na reta final de votação, graças às medidas adotadas e à competência dos técnicos do Tribunal, foi possível avançar com a apuração e entregar um pleito com segurança", frisou.
Nunes Marques ressaltou que o pleito foi realizado com normalidade e segurança e que eventuais recursos serão analisados. Informou que todos os questionamentos feitos dentro do devido processo legal serão avaliados e respondidos.
"Com empenho de servidores públicos de todo o país, dos mesários, das forças de segurança e dos demais atores envolvidos, as Eleições 2026 transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais", acrescentou o ministro, nomeado à Corte pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
O coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN), disse não haver provas de fraude nas eleições. "O PL não pode fazer essa afirmação, nem eu posso fazer essa afirmação, porque não há prova nesse sentido", destacou a jornalistas. Na segunda-feira, o partido já tinha reconhecido a vitória de Lula.
Outras legendas se manifestaram após a carta golpista de Flávio. Em nota, à noite, MDB e PSDB reprovaram a atitude do senador. "É incompreensível o comportamento do candidato derrotado à Presidência da República. O exercício da oposição numa democracia é tão relevante quanto o exercício dos próprios governos. E ele deve se dar em território nacional, fiscalizando os atos do governo e cobrando os compromissos por ele assumidos com a população. (...) Tudo isso tem que ser feito dentro das regras da democracia, com respeito às instituições e ao processo eleitoral", declarou o PSDB.
Saiba Mais
Renato Souza
RepórterRepórter de política, setorista do Supremo Tribunal Federal (STF). Vencedor do Prêmio CNT de Jornalismo, possuí passagens pelo SBT, Record/R7 e está entre os jornalistas mais influentes do Twitter no Brasil.
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