
A chegada de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos na quarta-feira (28/10), virou munição para a oposição democrata a Donald Trump às vésperas das eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro. Parlamentares do partido questionam a decisão do governo norte-americano de autorizar a entrada do senador brasileiro e acusam o presidente de oferecer tratamento privilegiado a aliados políticos. Apesar da repercussão, o episódio dificilmente terá peso decisivo nas urnas, avalia Vitor dos Santos Bueno, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (IREL/UnB).
Para o especialista, o caso funciona como instrumento de disputa política, mas não deve ocupar o centro da campanha. Democratas tentam associar a acolhida de Flávio às contradições do discurso anti-imigração de Trump. Do outro lado, setores republicanos podem explorar o episódio para reforçar narrativas sobre a situação política brasileira e questionar a legitimidade de seus resultados eleitorais.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Leia mais
-
Flávio Bolsonaro chega em Brasília após viagem aos EUA para encontro com Trump
-
Distritais da oposição criticam possível fuga de Flávio e celebram vitória de Lula
-
Como os EUA devem reagir à carta de Flávio se autoproclamando líder do Brasil
“Embora o caso de Flávio Bolsonaro seja instrumentalizado por ambos os lados, é improvável que assuma um papel central ou tenha peso decisivo nas eleições de meio de mandato americanas”, afirma Bueno ao Correio.
A oposição também relaciona o caso a outros temas que pesam sobre o governo, como o custo de vida e a política migratória. Na avaliação do pesquisador, a controvérsia pode funcionar como um catalisador para críticas que já circulam no debate americano, sobretudo em distritos eleitorais competitivos.
Democratas questionam tratamento dado a Flávio
As críticas ganharam força nas redes sociais. O deputado Joaquin Castro, democrata do Texas, cobrou explicações do governo Trump sobre sua participação na saída de Flávio do Brasil. Em publicação no Instagram, ele argumentou que perder uma eleição não justifica a concessão de asilo e mencionou investigações contra o senador brasileiro por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
“O governo Trump deve explicações ao Congresso sobre seu papel em ajudar Bolsonaro a fugir do Brasil em violação à legislação brasileira”, escreveu Castro.
O deputado Jim McGovern, de Massachusetts, também acusou o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, de atuar em conjunto com Flávio para evitar que ele responda a questionamentos judiciais no Brasil. Em publicação no X, McGovern classificou a situação como “repugnante”.
Morgan McGarvey, deputado pelo Kentucky, ironizou o contraste entre o discurso republicano contra a entrada de criminosos nos Estados Unidos e a recepção ao brasileiro. “O governo Trump diz que não quer criminosos entrando no nosso país. A menos que sejam tão corruptos quanto ele”, escreveu.
A deputada Sydney Kamlager-Dove, da Califórnia, afirmou que o episódio evidencia diferenças no tratamento dado a imigrantes. Segundo ela, enquanto aliados com recursos e conexões políticas recebem acolhimento, pessoas que fogem de guerras e da fome enfrentam restrições.
Os democratas da Comissão de Relações Exteriores da Câmara também questionaram os critérios adotados pelo governo norte-americano. Em publicação no X, o grupo comparou o tratamento dado a Flávio às dificuldades enfrentadas por pessoas que fogem da guerra no Sudão e do conflito no Haiti.
A crítica foi reforçada por Malcolm Kenyatta, deputado estadual da Pensilvânia e vice-presidente do Comitê Nacional Democrata. Ele questionou a diferença de tratamento entre um político estrangeiro sob investigação e famílias que deixam seus países para escapar da violência.
O senador Andy Kim, democrata de Nova Jersey, fez uma comparação semelhante. Ele afirmou que Trump estaria concedendo a Flávio um tratamento equivalente ao Status de Proteção Temporária, benefício migratório que o governo restringiu para grupos de outras nacionalidades. Kim classificou o episódio como mais um exemplo do que considera favorecimento político na administração republicana.
Já Shri Thanedar, deputado por Michigan, criticou a possibilidade de o senador brasileiro permanecer nos Estados Unidos em vez de enfrentar as acusações que, segundo ele, pesam contra Flávio. O parlamentar também questionou a atuação de Rubio no caso.
Uso de dinheiro público entra na disputa
Além da política migratória, os críticos de Trump tentam associar a presença de Flávio nos Estados Unidos ao uso de recursos públicos. Isaiah Martin, candidato democrata ao Congresso pelo Texas, afirmou que o governo não pode alegar falta de dinheiro para atender à população enquanto, na avaliação dele, oferece recursos e estrutura para receber o brasileiro.
Martin defendeu que Flávio seja deportado e afirmou que o caso deveria se tornar um símbolo do que considera o favorecimento de aliados políticos pela direita norte-americana.
Para Bueno, a crítica ao uso de impostos é uma das formas de ampliar o alcance da controvérsia. Ao relacionar o episódio ao custo de vida e às despesas do governo, os democratas tentam aproximar uma questão de política externa das preocupações cotidianas dos eleitores.
“Assim, a imagem de Flávio Bolsonaro é instrumentalizada não apenas como evidência da seletividade do discurso de Trump, mas também como demonstração de força política”, analisa o pesquisador.
O especialista pondera, porém, que a repercussão entre parlamentares não significa necessariamente que o assunto terá alcance amplo entre os eleitores. Para medir sua relevância eleitoral, será necessário observar se o caso aparece de forma recorrente nas campanhas, se ganha espaço na imprensa americana e se passa a integrar as discussões em disputas mais competitivas.
Congresso pode ampliar pressão sobre Trump
A eleição de 3 de novembro também definirá a composição da Câmara dos Representantes e de parte do Senado. Uma eventual vitória democrata em uma das Casas ampliaria a capacidade de fiscalização da oposição sobre o governo, inclusive por meio de pedidos de esclarecimento, audiências e investigações parlamentares, conforme as competências e os procedimentos de cada órgão.
Bueno ressalta que uma mudança na maioria não garantiria, por si só, a reversão das decisões de Trump. O presidente ainda teria instrumentos para barrar propostas aprovadas pelo Congresso, o que poderia gerar impasses entre a Casa Branca e os parlamentares.
Ainda assim, uma maioria democrata daria à oposição mais visibilidade e instrumentos para expor decisões do governo. A investigação do caso Flávio poderia integrar esse esforço, caso os parlamentares decidam avançar sobre a atuação da administração norte-americana.
O pesquisador avalia ainda que, no curto prazo, a controvérsia tende a ser explorada principalmente por candidatos democratas. Depois das eleições, no entanto, o episódio ainda poderá ser utilizado pelo governo Trump e pelo secretário Marco Rubio em articulações políticas e diplomáticas na América Latina.
Relação entre Brasil e EUA pode sentir os efeitos
A repercussão também se insere em um histórico de aproximação entre integrantes da família Bolsonaro e setores do governo Trump. Bueno lembra que, durante o primeiro mandato do republicano, Jair Bolsonaro adotou uma postura de forte alinhamento pessoal com o presidente americano. Posteriormente, Eduardo Bolsonaro passou a atuar nos Estados Unidos em defesa de medidas de pressão contra o Brasil.
Para o pesquisador, a presença de Flávio pode prolongar essa dinâmica e criar novos pontos de tensão entre os dois países. Ele considera possível que o caso seja utilizado em futuras iniciativas de pressão econômica e comercial contra o governo brasileiro, embora não veja elementos suficientes para afirmar que esse será o próximo passo da Casa Branca.
Bueno destaca que ainda não há um papel definido para Flávio na estratégia dos EUA. Por isso, os efeitos diplomáticos dependerão dos próximos movimentos do senador, do governo Trump e de seus interlocutores.
Política
Política
Política