Especial

A vida em Istambul: onde a história encontra o luxo moderno

A única cidade do mundo dividida entre a Europa e a Ásia é um convite à dualidade entre o antigo e o moderno

A mesquita Azul é ponto de apelo turístico -  (crédito: Roberto Fonseca/CB/D.A Press)
A mesquita Azul é ponto de apelo turístico - (crédito: Roberto Fonseca/CB/D.A Press)

Istambul se organiza a partir de uma tensão constante: de um lado, a herança bizantina e otomana; de outro, a metrópole que cresce sobre duas margens separadas pelo Bósforo. A cidade é a maior da Turquia e a única do mundo distribuída entre a Europa e a Ásia, divisão marcada tanto pelo estreito quanto pelo Chifre de Ouro. Embora Ancara seja a capital política, é em Istambul que o passado imperial encontra o cotidiano de ruas estreitas, barcos lotados e mercados que funcionam como microcosmos sociais.

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Caminhar pelas ruas da metrópole turca é conviver o tempo inteiro entre o antigo e o novo. Lembranças de tempos distantes estão por todos os lados, assim como as novidades tecnológicas. A proximidade entre as principais atrações facilita a jornada de um fim de semana. Sultanahmet, o núcleo histórico no lado europeu, condensa disputas de poder, símbolos religiosos e decisões arquitetônicas que influenciaram outros territórios. A cada esquina, é possível perceber como os impérios deixaram marcas que não foram apagadas, mas sobrepostas.

Logo no início da viagem, a visita à Hagia Sophia funciona como ponto de partida para compreender essa sobreposição. Construída em 532 d.C., a antiga catedral bizantina abriga mosaicos cristãos expostos após restaurações recentes. Eles convivem com elementos islâmicos introduzidos quando o edifício se tornou mesquita, em 1453. As colunas altas, o espaço central amplo e a luz filtrada moldam uma atmosfera que revela a trajetória de usos sucessivos. A poucos metros dali, a Mesquita Azul apresenta outra leitura arquitetônica: a cúpula interna recebe cerca de 20 mil azulejos azuis, responsáveis pelo tom que a caracteriza. A estrutura, erguida entre 1609 e 1616, é organizada a partir de seis minaretes, algo raro para a época.

Seguindo a pé, a rota leva à Mesquita de Solimão, posicionada no topo da cidade antiga. A subida é constante, mas a vista compensa: dali, o Chifre de Ouro se abre em direção ao Bósforo, e a malha urbana se revela em diferentes alturas. Dentro do complexo religioso, a sensação é de equilíbrio entre proporção e iluminação, reforçando o papel monumental das mesquitas na vida social da cidade. Em todas elas, as mesmas regras se repetem: sapatos retirados na entrada; mulheres com cabeça, ombros e joelhos cobertos; horários de oração respeitados.

O Palácio Topkapi, construído em 1460, introduz outro tipo de poder. Os quatro pátios interligados mostram como o império otomano administrava suas funções políticas e domésticas. No Tesouro Imperial, objetos de valor extremo, como o Punhal de Topkapi e o diamante de 86 quilates, expõem a escala do luxo cultivado pela corte. O Harém, por sua vez, revela uma organização mais íntima do cotidiano palaciano, com salas sucessivas e decoração que se torna mais detalhada à medida que se avança.

No fim da tarde, o Bósforo funciona como eixo de leitura da cidade. Em um passeio de barco, as margens mostram estruturas administrativas, palácios erguidos junto à água e fortalezas posicionadas em pontos estratégicos. À distância, as pontes conectando os continentes formam uma linha contínua, reforçando a sensação de que o estreito não divide, mas costura o território. O trajeto é especialmente interessante no entardecer, quando a luz destaca gradualmente as camadas da paisagem. "É a lembrança que todos levam de Istambul. Fica marcado para sempre na memória", garante o guia Ahmet Gulmez, quem mantém um perfil no Instagram com dicas de viagem: @theturkishguide. 

Barganha como tradição

O segundo dia conduz ao lado mais comercial e social da cidade. Levent é o coração financeiro. Mesmo aos domingos, é grande a quantidade de pessoas que circulam pelas ruas charmosas, lotadas de pequenos comércios, ou avenidas, com shoppings como o Kanyon e o OzdilekPark.

No centro histórico, o Grand Bazaar, considerado o maior mercado coberto do mundo, funciona como uma cidade interna com mais de 5 mil lojas distribuídas em cerca de 60 ruas. Ali, o visitante encontra couro, cerâmicas, joias e tapetes. A negociação faz parte da dinâmica: é comum que se comece com a metade do valor pedido, e os vendedores esperam a barganha. Muitos dos comerciantes não falam inglês, mas entendem como ninguém quando perguntamos se é o "best price".

Próximo à Ponte de Gálata está o Bazar das Especiarias, dominado pelo cheiro de açafrão, chás e sobremesas preparadas com pistaches (prepare-se para se esbaldar) e mel. Do lado externo, as barracas de peixes, frutas e queijos completam o ambiente, lembrando que o mercado não é apenas turístico, mas cotidiano.

Outras paradas importantes incluem a Torre de Gálata, que oferece vista de 360 graus, e a Ponte de Gálata, que liga partes do lado europeu e acumula circulação de pedestres, pescadores e restaurantes na parte inferior. A Cisterna da Basílica, com suas 336 colunas de mármore sustentando o teto subterrâneo, expõe ainda outra camada da cidade: a infraestrutura criada para abastecer o Grande Palácio, incluindo as esculturas de Medusa posicionadas na base de duas colunas.

A logística de um fim de semana exige planejamento. Use e abuse das inteligências artificiais LLM, como o Chat GPT e o Gemini. São fundamentais para encurtar rotas e achar estações de trem e metrô — muitas linhas não são interligadas e entrar errado em uma delas é bem comum. Lembre-se de comprar um Istanbulkart e colocar crédito neles. Cada viagem custa menos de R$ 3, pelo câmbio atual (0,12 lira turca equivalente a R$ 1).

No centro histórico, caminhar é a forma mais eficiente de se deslocar, mas o VLT conecta pontos estratégicos. Em horários de pico, o trânsito trava, e táxis podem gerar desconfortos ligados a preços irregulares; combinar previamente o valor reduz riscos. A conexão digital também merece preparo: o wi-fi público pede cadastro vinculado ao número do chip, o que dificulta para quem chega com linha brasileira. A compra de um pacote de dados local ou a habilitação de um plano de roaming internacional facilita a navegação e a comunicação.

Em dois dias, Istambul apresenta apenas uma parte de sua complexidade. É uma cidade indicada a viajantes interessados em compreender como diferentes impérios moldaram a vida urbana e religiosa. Quem busca silêncio talvez estranhe o ritmo intenso; quem gosta de cidades multicamadas encontrará no Bósforo, nos bazares e nas mesquitas uma leitura clara de como o passado se mantém presente.

Istambul. Turquia. Revista do Correio
Vista do centro do Istambul, a partir do Seven Hills Restaurant, um dos melhores rooftops da cidade (foto: Fotos: Roberto Fonseca/CB/D.A Press)

Visitas obrigatórias

Com uma logística bem definida, é possível visitar muitos lugares de Istambul. As distâncias não são longas. Confira o que dá para conhecer em 48 horas: 

• Santa Sofia (Hagia Sophia)

• Mesquita Azul

• Mesquita de Solimão

• Palácio Topkapi

• Palácio Dolmabahçe

• Cisterna da Basílica

• Torre de Gálata

• Passeio de barco pelo Bósforo

• Grand Bazaar

• Bazar das Especiarias

• Hammam

A reconstrução turca após os terremotos

A parte mais asiática da Turquia é hoje um grande canteiro de obras. Está em andamento um amplo plano de reconstrução das áreas atingidas pelo terremoto de 2023, classificado pelo governo como a "catástrofe do século". O desastre, de magnitude 7,8 na escala Richter, matou mais de 55 mil pessoas, afetou 11 províncias em uma área de 108 mil quilômetros quadrados — equivalente à extensão de mais de 100 países — e gerou prejuízos diretos estimados em US$ 104 bilhões, chegando a US$ 150 bilhões quando considerados os impactos indiretos.

Em Gaziantep, por exemplo, o amanhecer já não é silencioso. Antes mesmo de a luz se firmar no horizonte, o barulho das máquinas toma o ar com a cadência de uma metrópole em reconstrução permanente. A cidade, tradicional polo industrial e logístico, transformou-se em um grande organismo mecânico, movido por escavadeiras que rasgam o solo, caminhões que circulam em fileiras disciplinadas e guindastes que redesenham seus contornos. O cheiro de diesel se mistura ao do cimento fresco, criando um aroma áspero que acompanha o ritmo frenético das obras.

Gaziantep é o símbolo do que ocorre hoje em diversas paisagens turcas. Com 3.481 canteiros ativos e cerca de 200 mil trabalhadores em operação simultânea, as cidades estão dominadas por estruturas brancas recém-erguidas pela Administração de Desenvolvimento Habitacional (TOK).

A velocidade das obras impressiona e segue como o motor desse processo: 23 novas unidades habitacionais são concluídas por hora, totalizando 550 por dia. Para muitos moradores, a reconstrução avança tão rápido que parece comprimir o tempo, criando um cenário em que futuro e passado coexistem em choque permanente.

Se Gaziantep exemplifica a escala industrial da reconstrução, Kahramanmara expõe o simbolismo. Um enorme letreiro iluminado, em frente à sede da prefeitura da cidade de 700 mil habitantes no sul-sudeste da Turquia, marca pontualmente 4h17, o exato momento em que ocorreu o terremoto. A poeira fina paira no ar, formando uma névoa dourada que cobre maquinários e estruturas em ascensão. "A reconstrução não se resume a levantar paredes: o nosso desafio é reescrever a relação da cidade com o próprio terreno. Deixar tudo mais seguro para as próximas gerações, com técnicas modernas para resistir aos desafios da natureza", diz o engenheiro Polat Yerlikaya.

  • Polat Yerlikaya. Engenheiro. Turquia
    Polat Yerlikaya. Engenheiro. Turquia Roberto Fonseca/CB/D.A.Press
  • Reconstrução ocorre no ritmo 24/7
    Reconstrução ocorre no ritmo 24/7 Fotos: Roberto Fonseca/CB/D.A.Press
  •  Kahramanmaras: obras a todo vapor
    Kahramanmaras: obras a todo vapor Roberto Fonseca/CB/D.A.Press
  • Gaziantep é um canteiro de obras a céu aberto
    Gaziantep é um canteiro de obras a céu aberto Roberto Fonseca/CB/D.A.Press

Desafio da habitação

Estudos detalhados de solo orientam cada fundação, e novas normas estruturais exigem maior resistência, isolamento térmico e eficiência energética. Em uma região que concentra parte significativa da força de trabalho e das exportações turcas, reconstruir é também garantir a retomada econômica. O investimento total de US$ 75 bilhões busca restaurar essa vitalidade, redefinindo o desenho urbano. Os novos blocos habitacionais refletem a luz com intensidade quase simbólica, como se afirmassem que a cidade tenta erguer algo mais sólido do que antes.

A poucos quilômetros dali, Hatay revela outra face da reconstrução. O terremoto destruiu aproximadamente 70% das casas e comprometeu grande parte de seu patrimônio histórico. Trechos já foram reconstruídos com cuidado arqueológico, enquanto lojas temporárias convivem com fachadas escoradas e estruturas provisórias.

A cada esquina, o contraste se impõe: mesquitas, igrejas e sinagogas restauradas em ritmo calculado dividem o entorno com novos conjuntos habitacionais da TOK, erguidos em velocidade recorde. O choque entre passado e futuro se materializa na própria paisagem.

A mobilização pós-terremoto, no entanto, é apenas uma das frentes de transformação. Paralelamente, o país conduz o Projeto Habitacional do Século, um megaprograma de 500 mil casas sociais distribuídas pelas 81 províncias turcas. Trata-se de uma resposta estrutural à crise imobiliária agravada após o desastre, com unidades destinadas a famílias de baixa renda, jovens, veteranos, aposentados e famílias numerosas.

Segundo o ministro do Meio Ambiente, Urbanização e Mudanças Climáticas, Murat Kurum, responsável pelo plano, o país respondeu com rapidez inédita. "Apenas 15 dias após o terremoto, já estávamos lançando as fundações das novas moradias", afirmou.

O ministro destaca que o foco não está apenas na reconstrução física, mas na criação de cidades mais seguras e modernas. "Estamos construindo as cidades resilientes do século, com qualidade, eficiência energética e adaptação às mudanças climáticas", disse. As novas moradias são projetadas como edifícios de "energia quase zero", com isolamento térmico e capacidade de gerar parte da própria energia.

O jornalista viajou a convite do governo da Turquia

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postado em 07/12/2025 06:00
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