BBB 26

Se autointitular 'desempregado' no BBB pega mal? Especialistas analisam

Rótulo usado na apresentação de uma participante reacende debate sobre estigma, imagem profissional e os limites entre entretenimento e mercado de trabalho

Mal começou o Big Brother Brasil 2026 e o programa já é ponto central de algumas discussões sobre jogo, alianças e conflitos pessoais. Desta vez, o debate ganhou contornos sociais e profissionais: é ético — ou estratégico — apresentar alguém como “desempregado” em um reality show de alta exposição? A questão veio à tona após a participante da Casa de Vidro Chaiany Andrade, de 25 anos, moradora de Ceilândia, ser identificada dessa forma na chamada oficial do programa, despertando reações imediatas nas redes sociais.

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Mãe de Lara, de 10 anos, Chaiany entrou no reality com um objetivo claro: buscar estabilidade financeira e uma vida melhor para a filha. Ao longo de sua apresentação, ela própria brincou com a trajetória profissional diversa, definindo-se como “CLT — chamou, lá trabalho”. Segundo relatou, já atuou como chapeira, garçonete, camareira e trabalhadora rural. “Trabalho com as oportunidades que a vida me oferece. O importante é dar o melhor de si que um dia a vida retribui”, afirmou.

Apesar do tom leve adotado pela sister, o uso do termo “desempregada” reacendeu um debate antigo: o peso simbólico dessa palavra em uma sociedade que ainda associa valor pessoal à produtividade contínua. Para a psicóloga corporativa Denise Milk, a questão vai além de semântica. Em um ambiente como o BBB, onde cada detalhe da apresentação vira parte da narrativa pública, o rótulo pode reduzir trajetórias complexas a uma condição momentânea. 

No mundo corporativo, esse estigma ainda persiste. Mesmo com discursos mais modernos sobre carreiras não lineares, o desemprego segue sendo interpretado, muitas vezes, como fracasso individual. Denise observa que, no BBB, essa lógica se intensifica: o público tende a fazer julgamentos rápidos, enquanto o mercado, mesmo de forma silenciosa, ainda associa valor profissional à ocupação atual. “O resultado é uma leitura enviesada, que ignora contexto, competências e maturidade emocional”, resume.

A superexposição do reality também amplia os riscos psicológicos desse tipo de rotulagem. Para a psicóloga, assumir publicamente essa condição em um ambiente de julgamento constante pode levar à internalização do estigma. “Quando a pessoa passa a se ver a partir do olhar do julgamento externo, há impacto direto na autoestima e na autoconfiança”, alerta. Isso pode comprometer desde a espontaneidade dentro do jogo até o desempenho futuro em ambientes corporativos, marcados por medo de errar e autocensura.

A discussão também passa pela forma como a própria produção escolhe apresentar seus participantes. Para a coordenadora de RH Amarilys Targino, considerando o histórico profissional de Chaiany, o termo “autônoma” talvez fosse mais adequado. “Olhando para a trajetória, é o que mais se encaixa”, avalia. Ainda assim, ela pondera que a escolha pode ter partido da própria participante. Para Amarilys, o VT exibido pelo programa deixou claro um ponto essencial: “Ela demonstrou não correr de trabalho, ter motivação diária e se desdobrar para prover a família, especialmente por ter uma filha que nasceu doente”.

No ambiente corporativo, Amarilys destaca que o termo “desempregado”, quando usado sem contexto, tende a gerar pré-julgamentos. “A inclinação é enxergar falta de habilidades ou estabilidade, quando muitas vezes estamos falando de transição de carreira ou busca por oportunidades mais alinhadas ao perfil”, explica. Segundo ela, o impacto pode ser significativo justamente por ignorar fatores estruturais, como a alta exigência do mercado e critérios de vagas cada vez mais desproporcionais às funções oferecidas.

O BBB, nesse sentido, funciona como um amplificador de contradições. Para parte do público, a narrativa de alguém “sem nada a perder” pode gerar identificação e torcida. Para outra, a linha entre empatia e rejeição é extremamente tênue. Amarilys lembra que histórias de vida menos privilegiadas já foram abraçadas pelo público no passado, mas que, no pós-programa, o julgamento costuma ser ainda mais duro. “A onda de cobranças depois pode ser maior do que durante o jogo”, observa.

O rótulo também produziu um efeito claro de engajamento junto ao público. Segundo a coordenadora de RH, a reação nas redes sociais mostrou uma identificação imediata com a participante. “O público tá super ‘pipoca raiz’, ‘minha torcida é pra ela’ e quando a gente vai comparar com o número de comentários dos outros participantes da casa de vidro, ela é disparada a que causou mais engajamento. Inegável, o ‘desempregada’ na descrição dela foi um marketing e tanto”, afirma.

Na avaliação da especialista, ainda que o termo carregue estigmas no mercado de trabalho, no contexto do reality ele funcionou como um gatilho emocional capaz de aproximar a audiência e ampliar a visibilidade da participante logo nos primeiros dias de exposição.

As duas especialistas concordam que a diferença entre se apresentar como “desempregado” ou em “transição profissional” é fundamental. Enquanto o primeiro termo comunica ausência, o segundo transmite movimento, estratégia e escolha. “Transição preserva identidade e dignidade”, resume Denine. Amarilys complementa que o mercado ainda lida mal com pausas e reinvenções, mesmo em cenários de crise. “Resultados e números seguem sendo vistos como sinônimo de valor humano”, diz.

No fim, o debate exposto pelo reality vai além do entretenimento. Ele revela a dificuldade persistente das empresas, e da sociedade, em separar status profissional de valor pessoal. Para Denise, essa confusão torna os ambientes de trabalho adoecedores. Para Amarilys, normalizar alta performance constante e ignorar a vida pessoal cobra um preço alto. “É assim que surgem ciclos de autocobrança e burnout”, diz.

Enquanto Chaiany segue no jogo em busca do prêmio e das oportunidades que ele pode gerar, a discussão permanece fora da casa: até que ponto um rótulo define uma pessoa? No BBB, como no mercado de trabalho, a resposta parece depender menos da palavra usada e mais da narrativa que se constrói a partir dela.

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