
Vanda Célia — especial para o Correio
Aos 93 anos, o poeta Manoel de Barros foi chamado a escolher a palavra mais bonita da língua portuguesa. Escolheu a palavra "criança". Considero a resposta emocionante e poética. Criança nos remete a início e ao desafio de viver e de aprender mais um pouco a cada dia.
Poeta que viveu quase 100 anos aqui no Centro-Oeste e que "prezava insetos mais que aviões", Manoel de Barros exerceu com alegria sua liberdade de escrever, de pensar, participar e discordar. Envelheceu com brilho, beleza e arte.
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Penso que envelhecer é atravessar uma fronteira invisível. Ninguém nos avisa exatamente quando ela chega. Um dia, apenas percebemos que o tempo passou a caminhar ao nosso lado — não mais à frente, impaciente, mas ao lado, silencioso, quase cúmplice.
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Nem todos chegam lá. E nem todos aceitam o passar do tempo com serenidade. O corpo desacelera, a alma ganha clareza. As urgências se dissolvem, os ruídos perdem importância, as expectativas alheias deixam de governar cada passo, cada gesto.
Aprende-se, enfim, a arte difícil de escolher: o que vale ficar, o que pode partir. É na maturidade que o mundo deixa de ser promessa e passa a ser memória. E há beleza nisso. O olhar se torna mais profundo. O silêncio deixa de ser vazio e passa a ser abrigo. As relações se depuram — já não há tempo para afetos frágeis nem paciência para aparências.
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O coração, cansado de batalhas inúteis, começa a buscar apenas aquilo que o sustenta. O corpo — esse companheiro fiel por décadas — começa a falhar em pequenos sinais: um joelho que reclama, uma visão que pede auxílio, uma dor que se instala sem convite.
A saúde passa a exigir diálogo constante. Aprende-se a negociar com limites, a respeitar fronteiras internas, a aceitar que há ritmos que não voltam. E há também dores menos visíveis. A solidão visita com frequência os que envelhecem em silêncio.
Amigos partem, amores se transformam, lares se esvaziam. Em muitas casas, restam fotografias e ecos. A memória vira companhia; às vezes, consolo; às vezes, ferida. E há um preconceito sutil, persistente: como se envelhecer fosse falhar — quando, na verdade, é vencer e adquirir alguma sabedoria.
É quando se aprende que nem toda batalha merece ser travada. Que recomeçar não é privilégio da juventude. Que desejar não tem idade. Que ainda é possível amar com calma, sonhar com sobriedade, rir com gratidão.
É isso, a delícia da velhice está nos gestos pequenos: um café sem pressa, um fim de tarde em silêncio, a alegria simples de estar. Os que envelhecem carregam no corpo a história do país: ditaduras e redemocratizações, crises e reconstruções, promessas cumpridas e traídas.
Há uma delícia profunda em olhar para trás e reconhecer a própria trajetória, os afetos preservados, os erros superados, os recomeços possíveis. Envelhecer é aprender a dizer não sem culpa, a escolher com mais clareza, a valorizar a presença de quem ficou.
Vanda Célia é jornalista em Brasília, onde trabalhou no Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Jornal da Tarde e Revista Época. Atualmente, faz assessoria de imprensa.

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