
Muito antes de ocupar as ruas com música, cor e multidões, o carnaval já está em movimento. A festa que, para o público, dura poucos dias, é resultado de meses e, em muitos casos, o ano todo de trabalho contínuo. No Distrito Federal, esse processo evidencia uma cadeia produtiva extensa, formada por artistas, costureiras, músicos, produtores culturais, técnicos, empreendedores e trabalhadores informais que encontram nos dias de Momo uma importante fonte de renda e identidade profissional.
Mais do que uma manifestação cultural, o carnaval se consolida como um dos principais motores da economia criativa brasileira. A festa articula saberes tradicionais, inovação, empreendedorismo e ocupação do espaço público, movimentando setores como moda, artesanato, serviços, turismo, alimentação e entretenimento. Ainda assim, esse potencial econômico segue enfrentando desafios estruturais, como a informalidade, a descontinuidade de políticas públicas e a concentração de recursos em períodos muito curtos do ano.
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No DF, escolas de samba, blocos de rua, feiras criativas e marcas autorais ajudam a dimensionar o impacto do carnaval como atividade produtiva. São iniciativas que revelam como a cultura, quando vista como trabalho, pode gerar renda, formação profissional e desenvolvimento local.
Ao contrário da ideia de improviso, o carnaval é um processo altamente organizado. Cada desfile, bloco ou evento envolve planejamento financeiro, cronogramas rigorosos, divisão de tarefas e uma cadeia de fornecedores. A engrenagem começa com a criação artística, o enredo, o conceito visual, o repertório musical, e se desdobra em etapas técnicas que exigem mão de obra especializada.
Indústria cultural
Nas escolas de samba, esse processo se assemelha ao funcionamento de uma pequena indústria cultural. Para Pablo Claudino, diretor de comunicação e financeiro da Acadêmicos da Asa Norte, reduzir o carnaval ao espetáculo final é ignorar sua complexidade econômica. "A escola de samba, para além da festa deslumbrante e inclusiva que proporciona, tem algumas funções sociais. Uma delas é levar cultura e conhecimento às comunidades, por meio do enredo. A outra é formar profissionais. E uma terceira é exatamente gerar renda para sua cadeia produtiva. É um segmento relevante na economia criativa", afirma.
A opção da escola por produzir seus desfiles internamente reforça essa lógica de formação e geração de trabalho local. "Nós temos por filosofia fazer o carnaval em casa, ensinando e gerando renda", explica. Em 2023, último ano em que houve desfile oficial no Distrito Federal, cerca de 70 pessoas atuaram diretamente no barracão e nos ateliês de costura. Esse número não inclui fornecedores indiretos, como vendedores de tecido, aviamentos, alimentação, transporte e serviços técnicos.
A produção artesanal exige uma diversidade de funções, como costureiras, bordadeiras, aderecistas, marceneiros, escultores, músicos, intérpretes, passistas e profissionais de apoio. Ao manter essa cadeia ativa, a escola não apenas gera renda pontual, mas também qualifica trabalhadores. "Quando termina o desfile, essas pessoas saem com uma formação que as habilita a se integrar ao mercado de trabalho", ressalta.
Formação profissional
Um dos aspectos centrais dessa cadeia produtiva é o trabalho manual. Costura, bordado, adereçaria e montagem de figurinos exigem habilidades específicas, desenvolvidas ao longo do tempo e transmitidas de forma coletiva. Coordenadora do grupo de costura da Acadêmicos da Asa Norte, Maria Iraneide da Silva Oliveira acompanha de perto essa dinâmica.
"Quando os desfiles acontecem, a gente trabalha muito. Normalmente é pouco tempo, no máximo dois meses para confeccionar todas as alas da escola. Cada ala conta com mais de 20, 30 ou 40 figurinos, e algumas são bastante trabalhosas", relata. A organização do trabalho leva em conta a especialização de cada profissional. "Tem pessoas que têm habilidade com renda, outras com pedrarias, outras com montagem, corte ou leitura de desenho. A gente se divide dessa forma."
Nos períodos mais intensos, a jornada se estende por quase todo o dia. "Eu chego ao barracão às seis da manhã e, normalmente, saio uma da manhã, duas. É muito corrido", conta. Apesar do esforço físico, Maria Iraneide destaca o valor simbólico e profissional do trabalho. "É cansativo, mas é gratificante. A gente vê o resultado na avenida."
Além da experiência prática, o carnaval se configura como espaço de formação técnica. "No último desfile, em 2023, participei da Escola de Carnaval com o Milton Cunha. Foi muito valoroso e enriqueceu nosso currículo", afirma. Esse aprendizado se reflete em outros projetos ao longo do ano, como oficinas e cursos voltados para mulheres da comunidade.
Saberes manuais
O conhecimento adquirido no carnaval não se limita ao período da festa. Retalhos, tecidos e materiais reaproveitados dão origem a projetos sociais e iniciativas de capacitação profissional. "A gente trabalha com reaproveitamento. O que sobra do carnaval vira material para cursos e oficinas", explica Maria Iraneide.
Um dos exemplos é o projeto desenvolvido com mulheres da Estrutural. "Quase 90% das costureiras da cidade passaram pelo Maria Costura. Ver alguém que nunca pegou numa tesoura trabalhando para sustentar sua família com aquilo que ensinamos é muito prazeroso", afirma. A renda gerada pelo carnaval, mesmo concentrada em poucos meses, tem efeito multiplicador ao longo do ano.
Mesmo fora do período oficial da folia, a estrutura não se dissolve completamente. Eventos ao longo do ano, como rodas de samba e apresentações culturais, mantêm parte dessa engrenagem em funcionamento. "Em épocas que não há perspectiva de desfile, cerca de 100 pessoas continuam envolvidas, contando o staff que trabalha nos eventos da escola e artistas", afirma.
Ainda assim, a descontinuidade dos desfiles no DF impacta diretamente esse mercado. "Esse trabalho ainda é pouco valorizado, principalmente pela ausência de desfile por muitos anos. Isso faz com que esse tipo de serviço reduza bastante seu mercado e, consequentemente, a curva de aprendizagem", avalia.
Blocos de rua e economia urbana
Se nas escolas de samba o trabalho ocorre majoritariamente nos bastidores, nos blocos de rua, a economia criativa se materializa de forma visível no espaço urbano. Grandes blocos demandam planejamento, estrutura técnica, licenciamento e uma equipe numerosa para garantir segurança e funcionamento.
Presidente do Suvaco da Asa, Pablo Feitosa destaca a dimensão econômica desses eventos. “Blocos como o Suvaco da Asa movimentam muito a economia criativa. No dia da folia, temos mais de 400 pessoas trabalhando, do carregador ao engenheiro, do varredor ao médico”, afirma.
Antes mesmo do dia da folia, profissionais como engenheiros, técnicos de som, eletricistas e produtores já estão envolvidos na montagem da estrutura. Para viabilizar financeiramente o bloco, é preciso diversificar as fontes de recurso. “Buscamos atividades como venda de camisas, festas, participação em editais e apresentações em outros espaços. Precisamos de recursos para estar na rua”, explica.
O impacto econômico extrapola o evento em si. As expectativas é que a edição de 2026 da festa em Brasília supere os números registrados no ano passado, que teve um movimento de cerca de R$ 320 milhões na economia local, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). “Toda a cadeia de transporte, hotelaria, comércio e serviços é movimentada. O governo precisa olhar para isso como política econômica”, defende Feitosa.
Empreendedorismo criativo e feiras de carnaval
Paralelamente aos blocos e desfiles, as feiras criativas se consolidam como espaços estratégicos para o empreendedorismo carnavalesco. Moda autoral, acessórios artesanais, fantasias independentes e produtos sustentáveis encontram no carnaval um público disposto a experimentar.
Para o curador Antônio Sousa, as feiras funcionam como catalisadoras de renda. “Elas concentram visibilidade, circulação de dinheiro e troca simbólica. Conectam criadores diretamente ao público”, explica. Segundo ele, o carnaval cria um ambiente propício para vendas rápidas e para a consolidação de marcas.
Antônio Sousa destaca que as feiras de carnaval cumprem um papel que vai além da venda direta. Para ele, esses espaços funcionam como plataformas de visibilidade e legitimação do trabalho criativo. “A feira é onde muita gente consegue, pela primeira vez, apresentar seu trabalho como algo profissional, com valor simbólico e econômico”, afirma. Segundo o curador, o carnaval cria um ambiente favorável para essa troca porque o público está mais aberto ao novo, ao autoral e ao feito à mão, o que fortalece pequenos produtores que dificilmente teriam espaço no varejo tradicional.
Outro ponto levantado por Antônio é a concentração de renda no período carnavalesco, que exige planejamento por parte dos empreendedores. “Muitos criadores dependem muito desse curto espaço de tempo. O desafio é conseguir transformar esse pico de vendas em fôlego para o resto do ano”, explica. Para ele, iniciativas de formação, orientação financeira e incentivo à circulação das marcas em outros eventos culturais são fundamentais para ampliar a sustentabilidade dos negócios. “O carnaval pode ser a porta de entrada, mas não deveria ser o único momento de sobrevivência.”
Valorização do artesanal e do durável
Na curadoria, a escolha das marcas também passa por um critério estético e político. “Busco projetos que tenham identidade, que entendam o carnaval como linguagem cultural e não apenas como produto descartável”, diz Antônio. Segundo ele, há uma mudança clara no perfil do público consumidor. “As pessoas estão interessadas em saber quem faz, como faz e de onde vem aquilo que elas vestem. Isso muda completamente a relação com o consumo.” Para o curador, fortalecer esse circuito é uma forma de valorizar o trabalho criativo local e reafirmar o carnaval como território legítimo da economia criativa brasileira.
É nesse contexto que surgem iniciativas como a Vamos Carnavalizar, especializada em acessórios feitos à mão. “Ano passado, o maior sucesso foram as ombreiras de macramê. O público valoriza o artesanal”, afirma a criadora Bárbara Lucatelli.
Já a marca Gia Dachi Carnaval trabalha exclusivamente com tecidos reaproveitados e produção sob encomenda. “As peças são únicas e feitas artesanalmente. A marca só funciona no período de carnaval, mas o trabalho começa muito antes”, explica a criadora.
O crescimento dessas marcas revela uma mudança na forma como o público se relaciona com a moda carnavalesca. A fantasia descartável dá lugar a peças autorais, feitas à mão e carregadas de identidade. Essa tendência dialoga com debates contemporâneos sobre sustentabilidade e consumo consciente.
Para Adriana Borges, criadora de body chains artesanais, o carnaval é o principal momento de venda. “Esse movimento começa no final do ano e só termina depois dos blocos”, afirma. As peças, muitas vezes, extrapolam os dias de folia e passam a integrar looks de shows, festivais e praia.
Para o Sebrae, o carnaval representa uma oportunidade estratégica para o fortalecimento da economia criativa. “O carnaval conecta cultura, talento e inovação. O desafio é avançar na formalização, na profissionalização da gestão e em estratégias que permitam ir além do período festivo”, afirma Carlos Cardoso, gerente de negócios em rede do Sebrae no DF.
Segundo ele, ações de capacitação, acesso a crédito e orientação empresarial são fundamentais para transformar iniciativas pontuais em negócios sustentáveis. “O potencial existe. O que falta é continuidade e política pública estruturada”, avalia.
Enquanto esse reconhecimento não se consolida plenamente, o carnaval segue sendo sustentado pela força coletiva de quem costura, cria, canta, produz, vende e ocupa o espaço público. Um trabalho que transforma cultura em renda, identidade em economia e festa em resistência.
Reconhecimento da folia
Em sua 9ª edição, o Prêmio CB.Folia reafirma o papel do carnaval de rua de Brasília como expressão cultural, social e econômica da cidade. A premiação reconhece os principais destaques da folia em seis categorias, que vão desde o melhor bloco de rua, avaliado por júri técnico e também por votação popular, até melhor momento do carnaval e as melhores fantasias adulta e infantil. Os vencedores serão anunciados no dia 20 de fevereiro, durante cerimônia no auditório do Correio Braziliense, após um período de votação e avaliação que ocorre entre 8 e 18 de fevereiro.
A comissão julgadora, formada por profissionais da área de jornalismo e convidados definidos pela organização do prêmio, acompanhará os blocos nas ruas e atribuirá notas de 0 a 10 com base em critérios como animação (peso 5), estrutura (peso 2), sustentabilidade (peso 1) e respeito ao próximo (peso 2). Além disso, o público poderá eleger seu bloco favorito por meio de votação on-line. A equipe do Correio também será responsável por escolher o vencedor da categoria Melhor momento, que reconhece atitudes ou iniciativas marcantes do carnaval deste ano. Já o prêmio de Melhor fantasia contará com participação direta dos leitores, que poderão enviar fotos, além do olhar atento dos fotógrafos do jornal e da avaliação do júri, considerando criatividade, originalidade e atualidade.
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