Cilene Vieira — especial para o Correio
Durante muito tempo, odiei o carnaval. Impedida de brincar em blocos na adolescência, virei universitária e roqueira em Recife, me sentindo oprimida pelos dias de Momo, onde rádios, bares, praias, ruas, absolutamente tudo respirava carnaval na capital do frevo.
Com o tempo, já na vida adulta, passei a viver intensamente esses dias de festa nas ladeiras de Olinda, no Galo da Madrugada, no Eu acho é pouco e no Nós sofre mas nós goza, meus blocos preferidos. Foram anos seguidos vivendo essa festa no berço, compreendendo sua força e o significado de viver os dias de carnaval como todo folião, sem pensar em nada além de comer, dormir e pular. Experiência que também vivi alguns anos em Salvador.
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Aprendi como é bom brincar o carnaval e o sentido dessa celebração popular brasileira. Já em Brasília, passei a viver a experiência do não carnaval, de estar numa cidade que, se não ligasse a TV, o silêncio trazia uma sensação nova, de que era possível passar o carnaval sem ele. Existia apenas o lendário Pacotão e os desfiles da Aruc, que nunca me atraíram.
Brasília, a capital do rock, não era o túmulo do carnaval na década de 80, era a cidade sem carnaval, com essas exceções. Poderia ser um excelente apelo turístico: Venha para Brasília, a cidade onde não há carnaval! Uma ideia que nunca vingou, e aqui permanecia a mesma pergunta todo ano: Onde vai passar o carnaval?
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Comecei a fazer os retiros comuns dos locais. Pirenópolis, Caldas Novas, Chapada dos Veadeiros, lugares cheios de brasilienses, na verdade, procurando vestígios de carnaval. Detestei. Melhor ir para fora do país, onde nem se fala disso e aproveitar a semana inteira.
Experiências não muito boas também, com aeroportos superlotados, vôos atrasados ou cancelados, nevasca, frio ou ruas vazias e tristes. Melhor ficar em Brasília mesmo, aproveitar o Parque da Cidade e maratonar nas salas de cinema, a única diversão possível. Mas sentia e percebia nos resilientes a angústia das pessoas sem frevo, maracatu, trio elétrico e alegria coletiva.
Brasília foi mudando, blocos pré-carnavalescos como o Suvaco da Asa e Baby doll de Nylon passaram a atrair multidões, até serem sufocados pelo sucesso e a avidez dos brasilienses por uma folia sem estrutura, nem apoio. Mas novos blocos surgiram e, aos poucos, o carnaval em Brasília foi crescendo, com blocos grandes, carregando multidões nos eixões, e outros menores, entretendo pessoas nas quadras. O grito de carnaval passou a ser Brasília tem carnaval, sim, senhor!
Chegamos no presente com 73 blocos oficializados pelo governo, recebendo algum fomento pra se apresentarem por todo o DF e com cerca do dobro na programação geral. Assim, o silêncio quase total do passado e a festa da dança, das cores e da farra passaram a conviver na cidade.
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Hoje, Brasília é a cidade perfeita pra quem não gosta ou resiste ao carnaval. São 5 dias para descansar, mergulhar nos livros ou streamings, em pleno silêncio, pois, se há blocos, eles passam. E também se transformou num lugar adorável para quem é carnavalesco. A cobertura da mídia, especialmente deste Correio Braziliense, e as redes sociais, dão o testemunho da festa com os títulos "Brasília tem carnaval!"
Para quem brinca, gosta de blocos, de dançar e de se fantasiar, a programação é ampla e a animação é grande. Brasília mostra que o carnaval é uma festa popular, de resistência e alegria, como em qualquer lugar, onde a folia é tradição e, ao mesmo tempo, permite que os avessos à farra, à extravagância e excessos de tantos dias de folia, fiquem em paz.
Hoje, adoro passar o carnaval em Brasília. São dias para brincar quem é de brincar, oportunidades não faltam, ou para só descansar, fazer o que quiser, sem opressão. E a quarta-feira de cinzas chega para todos. A partir de agora é a Quaresma.

Revista do Correio
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