Em 2026, a nostalgia promete tomar conta de boa parte das tendências. Na moda, essa realidade não é nada diferente. Com isso, o ato de se vestir à noite ganhou uma nova camada de complexidade técnica e um charme especial. O que antes era apenas uma peça de destaque no guarda-roupa, o popular going-out top (ou blusa de sair), evoluiu para se tornar um item de engenharia têxtil. O foco agora é a "Portrait Zone" (zona de retrato): o design é meticulosamente pensado para o enquadramento da cintura para cima.
Mais do que isso, esse novo formato vêm dominando as proporções verticais de plataformas como TikTok e Instagram, pensados especialmente na hora de fazer aquele post para mostrar o look. De acordo com a professora de moda Krystie Ribeiro, a blusa de sair atual não é apenas uma escolha estética, mas uma ferramenta de branding pessoal.
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"Este ano, a blusa de sair transcende a estética unidimensional, consolidando-se como uma peça de alta performance visual projetada especificamente para a economia da atenção e o enquadramento digital", explica Krystie. A especialista ressalta que a peça opera através da interseção entre brilho, recorte e versatilidade, utilizando biotecnologia e modelagem tridimensional para garantir impacto visual sem abdicar do conforto.
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Dessa forma tecnicamente, o que define essa peça, hoje, é a sua capacidade de renderização. "É a blusa que opera como um dispositivo de Personal Brandingvestível", pontua a professora de moda. Segundo estudos sobre a moda mediada, o vestuário contemporâneo não é mais desenhado apenas para a presença física no espaço, mas sim para a sua performance na tela.
Isso significa que detalhes como golas estruturadas, texturas tridimensionais e acabamentos hiper-reflexivos são estrategicamente posicionados para, além de tudo, performar nesse novo contexto contemporâneo. "Este fenômeno, que prioriza o enquadramento da cintura para cima, reflete uma adaptação evolutiva ao consumo de conteúdo em plataformas como TikTok e Instagram, onde a proporção vertical de 9:16 dita as regras de visibilidade", acrescenta.
Revival Y2K
A nostalgia pelos anos 2000 continua forte, mas filtrada por uma consciência ambiental que a era original não possuía. O novo luxo é a "performance", onde silhuetas icônicas, como o top borboleta e a frente-única, ganham vida através do slow fashion.
Para Krystie Ribeiro, o retorno ao estilo McBling (cristais e logotipos) é um mecanismo de defesa psíquico, mas que hoje exige ética social. "A evolução criativa exige que a estética Y2K — historicamente dependente de plásticos e derivados de petróleo — se alinhe aos pilares do slow fashion: ética social, qualidade ao invés de quantidade e consciência ambiental", afirma a professora.
Isso assegura que os recortes, volumes e as transparências típicas da blusa de sair mantenham a integridade estética e o suporte necessário em qualquer tamanho, do PP ao G6, sem que a peça perca sua forma ou cause desconforto ao usuário durante o movimento.
"Assim, a blusa de sair de 2026 estabelece-se como uma peça democrática, onde a tecnologia de enquadramento da cintura para cima é otimizada para que a narrativa visual de cada indivíduo seja renderizada com a mesma sofisticação técnica, independentemente do seu biotipo, consolidando a moda como um espaço de direito à beleza e à funcionalidade", ressalta a especialista.
O desejo de celebrar
A força desse ressurgimento é também uma resposta psicológica ao longo período de dominância do loungewear e das roupas casuais. O stylist Fernando Lackman observa que a peça simboliza a retomada da vida social.
"Depois de tanto tempo vestindo conforto e neutralidade, o desejo pediu passagem. A blusa de sair volta como símbolo de encontro, de celebração e de vontade de se mostrar. Ela marca a diferença entre ficar em casa e ocupar o mundo novamente", analisa Lackman.
Diferente de décadas passadas, onde o going-out top era restrito a padrões de corpo específicos, a moda de 2026 prioriza a diversidade através da modelagem inteligente. Segundo Fernando Lackman, a inclusão deixou de ser apenas um discurso de marketing para se tornar prática no corte das roupas. "Inclusão não é discurso: é quando a roupa veste bem mais de um corpo sem perder força estética", defende o stylist.
Além da diversidade de corpos, a peça também quebra a barreira entre o dia e a noite. A rigidez dos ambientes deu lugar à adaptação de styling. "No escritório, o top aparece sob sobreposições e composições contidas. No bar, a peça assume total protagonismo. A moda deixou de separar ambientes de forma rígida e passou a trabalhar com adaptação — porque a vida real é assim", finaliza Lackman.
