Fitness & Nutrição

Manias à mesa revelam hábitos e a relação com a comida ao longo da vida

Comportamentos alimentares que começam na infância podem se estender pela vida adulta e revelam que a relação com a comida envolve, também, o emocional

Apostar em formatos diferentes é opção para a introdução de novos alimentos -  (crédito: Freepik)
Apostar em formatos diferentes é opção para a introdução de novos alimentos - (crédito: Freepik)

Misturar tudo no prato ou deixar cada alimento no seu canto. Evitar certas texturas, torcer o nariz para combinações ou até "esconder" ingredientes na comida. Pequenos gestos como esses fazem parte da rotina de muita gente — e não só de crianças. Na vida adulta, eles continuam aparecendo, às vezes de forma quase automática, como hábitos que passam despercebidos, mas dizem muito sobre a relação de cada um com a comida.

Por trás dessas escolhas, que muitas vezes são vistas como simples preferências, existe um caminho que começa cedo. A forma como uma pessoa se alimenta não nasce pronta: ela é construída ao longo do tempo, a partir das primeiras experiências com os alimentos, do ambiente das refeições e até das emoções envolvidas nesse momento. "As primeiras experiências alimentares são determinantes para a formação do paladar e da relação emocional com a comida. É nesse período que a criança começa a construir memórias sensoriais, como sabor, cheiro e textura", explica a nutricionista infantil Taynara Abreu.

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Quando esse contato inicial acontece de forma tranquila, variada e sem pressão, a tendência é que a criança desenvolva mais abertura para experimentar novos alimentos. "Isso favorece uma relação mais equilibrada com a comida ao longo da vida", diz.

Ainda assim, nem sempre o processo é simples. Em determinadas fases da infância, é comum que a criança recuse alimentos ou passe a escolher mais o que quer comer. "Entre 2 e 6 anos, a seletividade alimentar é esperada, principalmente por causa da neofobia alimentar, que é o medo do novo", explica Taynara. O problema começa quando essa fase não passa — ou quando se intensifica.

A nutricionista atenta para problemas maiores: "A situação passa a ser um sinal de alerta quando há uma restrição muito grande do repertório alimentar, recusa persistente de grupos inteiros de alimentos ou sofrimento durante as refeições". Nesse cenário, o comportamento dos adultos à mesa faz toda a diferença. Insistir, pressionar ou negociar pode ter o efeito contrário ao esperado. "Forçar pode gerar aversão e ansiedade, enquanto recompensas, como sobremesa, reforçam a ideia de que certos alimentos são ruins", explica.

Por outro lado, pequenas mudanças de postura ajudam. Um dos caminhos mais importantes é a repetição. "A criança precisa de várias exposições a um alimento para aceitá-lo. Às vezes, só de ver, tocar ou cheirar, ela já está avançando nesse processo", diz.

É nesse contexto que entra a chamada alimentação lúdica. Brincar com formas, cores e apresentações pode facilitar esse contato inicial com os alimentos. "Ela ajuda na aproximação, principalmente em casos de resistência, mas não deve virar uma condição para a criança comer", ressalta.

Outro ponto importante é oferecer variedade desde cedo, sem transformar a refeição em um momento de tensão. "Texturas, cores e preparações diferentes ajudam a ampliar o repertório e tornam o contato com a comida mais natural", explica Taynara.

Isso porque alguns desses comportamentos podem seguir para a vida adulta. "Dificuldades com misturas, texturas ou uma maior rigidez alimentar podem acompanhar o indivíduo ao longo dos anos", afirma.

Levando o assunto para fora de casa, em escolas de Brasília — como a Escola Classe 03 de Ceilândia, a alimentação lúdica tem sido incorporada à rotina como uma estratégia pedagógica, especialmente na educação infantil, ajudando a tornar o momento das refeições mais acolhedor e menos impositivo. Por meio de apresentações criativas, atividades sensoriais e até o envolvimento das crianças no preparo dos alimentos, o objetivo é estimular a curiosidade e a autonomia alimentar desde cedo, ampliando o contato com diferentes sabores, cores e texturas de forma natural.

Quando o hábito chega à vida adulta

E é justamente aí que aquelas "manias" voltam a aparecer. Separar alimentos no prato, evitar certas combinações ou ter resistência a novas comidas são atitudes mais comuns do que parecem. Segundo a nutricionista Marina Gusmão, isso nem sempre é um problema — mas é importante observar quando passa de preferência para algo mais restritivo. "Preferência é pontual. Já a seletividade envolve um padrão repetitivo, que pode limitar o cardápio e até afetar a vida social", diz.

Muitas vezes, a explicação está nas experiências anteriores. "Situações como pressão para comer ou uma introdução alimentar limitada criam associações que permanecem na vida adulta", afirma. Além disso, o corpo também responde. Textura, cheiro e aparência têm um peso real nessas escolhas. "O cérebro interpreta esses estímulos como seguros ou não, e isso pode gerar rejeição imediata", explica Marina.

Quando o cardápio fica muito restrito, os impactos vão além do comportamento. "A falta de variedade pode levar à deficiência de nutrientes e a uma alimentação baseada em poucos alimentos", alerta. A boa notícia é que o paladar não é fixo. "Ele pode ser reeducado ao longo da vida, com exposição gradual, sem pressão e respeitando o tempo de cada pessoa", diz.

Procurar ajuda é importante

A terapia ocupacional amplia esse olhar ao trazer o papel da sensorialidade para o centro da discussão. "A alimentação é uma experiência multissensorial, que envolve muito mais do que o gosto", explica a terapeuta ocupacional Elizete Carvalho.

Segundo ela, em alguns casos, o corpo reage de forma intensa a determinados estímulos. "Misturar alimentos ou lidar com certas texturas pode ser interpretado pelo sistema nervoso como algo desagradável ou até ameaçador", afirma. Isso ajuda a explicar por que algumas reações vão além da recusa. "Ânsia, náusea ou desconforto não são exageros, são respostas do corpo", diz.

Quando esses comportamentos começam a interferir na saúde, no bem-estar ou na convivência social, o ideal é buscar ajuda. "O tratamento é individualizado e respeita o ritmo de cada pessoa, com estratégias graduais para tornar essa relação mais confortável", finaliza.


 

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postado em 29/03/2026 06:00
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