Da sala de dois metros quadrados instalada nos fundos da loja de vestidos de noiva da mãe, em Feira Nova, no Agreste pernambucano, saiu um projeto que cruzou fronteiras e conquistou o mundo. À frente do Studio Zé Arquitetura, o arquiteto José Vágner Barros, de 34 anos, conhecido como Zé Vágner, venceu a categoria Residencial do prêmio Building of The Year 2026, promovido pelo ArchDaily, com a reforma da já emblemática Casa de Mainha. Mais do que um reconhecimento internacional, a vitória simboliza uma virada de narrativa: a arquitetura feita com poucos recursos, enraizada no território e atravessada por afeto, também é protagonista.
Zé Vágner não percorreu um caminho linear. Filho do interior, escolheu a arquitetura por duas razões: a vontade de criar e o desejo de mudar a própria realidade. "Eu sempre gostei de criar espaços, desenvolver coisas, sempre fui muito inventivo", resume. Formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), enfrentou, durante a graduação, o peso de um ambiente acadêmico que considera elitizado e ainda muito eurocêntrico. "Eu vim de uma realidade diferente. Lembro que quando enviava texto, dissertações, trabalhos, recebia de volta diversas correções de português e gramática, quase nunca do próprio conteúdo." Sentia falta de uma formação que valorizasse os saberes vernaculares, ancestrais, a cultura do Nordeste.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Suas referências, no entanto, dialogam tanto com o rigor formal quanto com a emoção. Ele cita a arquiteta Lina Bo Bardi como uma inspiração decisiva, não só pelas obras, mas pelo significado social e cultural que ela colocava aos projetos. Também menciona arquitetos como Luis Barragán, Alberto Campo Baeza, Paulo Mendes da Rocha e Oscar Niemeyer.
Mas a realidade do interior impôs desafios concretos: não havia mercado estruturado para arquitetura em Feira Nova. Sem clientes, sem visibilidade, ele precisou criar oportunidades. Apostou nas redes sociais como vitrine e passou a construir uma comunidade que acompanhava seus processos, suas ideias e, mais tarde, votaria em peso na Casa de Mainha. "Quem não é visto não é lembrado", resume.
Leia também: Pista, política e pertencimento: conheça a cultura ballroom
Leia também: O controle em novas mãos: a virada feminina no mundo gamer
Arquivo pessoal - Casa de Mainha antes da reforma
Fotos: Hélder Santana - Fachada depois da reforma
A casa que cresceu com a família
A Casa de Mainha não começou como um projeto pensado para publicação. Pelo contrário. Era a casa da mãe, a costureira Marinalva Francelino, conhecida por Nalva Noivas. Foi construída manualmente na década de 1980, quando o tijolo era feito no próprio lote: barro pisado, moldado, seco ao sol. A cada reforma, a casa aumentava. As marcas desse crescimento estavam nas paredes — literalmente. Ao descascar rebocos, surgiam tijolos de adobe com a marca dos dedos de quem os moldou: o pai, a mãe, a história da família.
A ideia inicial partiu das visitas do filho arquiteto. Toda vez que voltava do Recife, reclamava do pé-direito baixo, da casa escura, dos ambientes mal ventilados. Ao meio-dia, era preciso acender a luz da sala. Faltava um espaço de encontro. Faltava ar. Faltava saúde. A decisão de reformar foi da mãe, também financiadora da obra. E isso determinaria não apenas o orçamento enxuto, mas também as tensões criativas do processo.
A grande demanda da cliente, que era também sua mãe, era simples e urgente: ventilação, iluminação, conforto térmico. A estética viria depois. O projeto partiu, portanto, de estratégias climáticas.
A fachada, voltada para o lado que mais recebe vento, foi vazada com cobogós, permitindo ventilação cruzada. O pé-direito foi ampliado e a cumeeira elevada, para favorecer a exaustão do ar quente, que sobe naturalmente. Janelas altas permitem abertura mesmo em dias chuvosos, evitando o abafamento. O pátio interno ganhou proporção capaz de distribuir melhor luz e vento.
O uso do adobe existente não foi apenas uma escolha afetiva, mas também técnica. Segundo Zé, o tijolo de terra crua possui eficiência térmica superior à alvenaria convencional. Parte das paredes originais foi preservada; outras precisaram ser demolidas para ampliar os espaços, mas os tijolos reaproveitáveis foram guardados. Nada vinha de além de um raio de 11 quilômetros. A mão de obra era local: o pedreiro e a servente eram vizinhos, pessoas que aprenderam o ofício com os pais. Não havia equipe especializada, mas havia saber acumulado.
Um dos elementos mais celebrados do projeto são os cobogós voltados para o poente. No fim da tarde, a luz atravessa os vazios e desenha padrões que aquecem visual e termicamente o interior. "Ficou melhor do que no projeto", admite.
Conflito, afeto e negociação
Se a obra da Casa de Mainha tinha coerência técnica, o processo foi marcado por disputas afetivas. A mãe participava ativamente, às vezes contrariando o arquiteto. Escolheu pisos mais lisos do que ele gostaria, interferiu em decisões diretamente com o pedreiro, resistiu a algumas soluções propostas. Em determinado momento, ele chegou a comprar lajotas de barro com recursos próprios, mas não pôde instalá-las. Só depois de ver referências semelhantes valorizadas na internet ela reconsiderou.
Esse embate revela o caráter humano do projeto. Não era um exercício autoral isolado; era uma negociação entre visões. A arquitetura precisava caber no desejo e na história de quem habita. “A gente descascava uma parede e achava um tijolo que tinha a marca do dedo de quem fez esse tijolo, ou seja, meu pai e minha mãe. Então, a história estava literalmente nas paredes de quem fez, de quem morou, de como foi. Não tem como fugir disso”, conta Zé.
Do improvável ao mundo
A inscrição no prêmio internacional não estava nos planos. Zé sequer acreditava que a casa se encaixaria no perfil da plataforma. Foi a própria curadoria do ArchDaily que o convidou a submeter o projeto. A vitória na categoria Residencial — em meio a 15 categorias globais — foi resultado de votação popular, com mais de 200 mil votos. Para ele, isso muda tudo. Não foi apenas o “mercado” premiando a si mesmo; foram pessoas dizendo o que consideram relevante.
A repercussão foi construída ao longo do processo. Desde março do ano anterior, ele compartilhava a obra nas redes, mobilizando seguidores, amigos e familiares. Quando o resultado saiu, a celebração foi coletiva.
Arquitetura como qualidade de vida
Para Zé Vagner, o prêmio representa mais que consagração profissional. É um grito: dá para fazer uma boa arquitetura com pouco. Dá para resolver problemas reais sem recorrer a excessos de revestimento, porcelanato polido ou iluminação cenográfica. A arquitetura, para ele, não é tendência anual; é transformar um espaço que atrapalha a vida de alguém em um lugar que ajuda essa pessoa a viver melhor.
Ele defende que todo projeto, caro ou barato, é social, porque interfere na paisagem urbana, que é coletiva. Construir respeitando limites, ventilação, relação com a rua é também falar sobre caráter, sobre como se ocupa o mundo.
“Arquitetura não é a cor do ano, não é o revestimento do ano, não é a iluminação do ano. A arquitetura é muito mais básica e é muito mais focada nas necessidades do ser humano, tem que falar de quem habita ali, de quem é dono, de quem vai viver naquele espaço”, resume Zé.
Hoje, ele e a mãe seguem morando na casa que se tornou símbolo. Da pequena sala 2x2 em Feira Nova, cidade distante ele sonha em ampliar a rede de apoio formada na internet e continuar impactando. “A gente sempre sonha em transformar o mundo, né? Então eu comecei pela minha rua”, diz.
O ArchDaily
Criado em 2008, o ArchDaily é hoje considerado o maior e mais influente portal de arquitetura do mundo. A plataforma publica, diariamente, projetos de diferentes países, entrevistas, análises e tendências, tornando-se referência tanto para profissionais quanto para estudantes e entusiastas da área. Com milhões de acessos mensais e presença em diversos idiomas, o site funciona como vitrine internacional para escritórios consolidados e talentos emergentes.
O prêmio Building of The Year é uma das iniciativas mais relevantes da plataforma. Diferentemente de premiações decididas apenas por júris técnicos, o reconhecimento é definido por votação popular, ou seja, leitores e profissionais cadastrados escolhem os vencedores entre centenas de projetos publicados ao longo do ano. Isso amplia o alcance e democratiza o processo, permitindo que obras fora dos grandes centros ou dos circuitos tradicionais de prestígio ganhem visibilidade global.
Vencer uma categoria significa entrar para um seleto grupo de projetos que passam a integrar o repertório internacional contemporâneo, influenciando debates, práticas e olhares sobre o que é arquitetura de qualidade hoje. Para um arquiteto do interior do Nordeste brasileiro, esse reconhecimento representa não apenas projeção profissional, mas também a validação de uma arquitetura enraizada no território e nas necessidades reais das pessoas.
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
Saiba Mais
-
Revista do Correio Mais vivo do que nunca! A importância do cinema na era do streaming
-
Revista do Correio Mais alívio, menos coceira: como identificar porque seu pet se coça
-
Revista do Correio Técnica, força e foco: o novo fôlego do levantamento de peso olímpico
-
Revista do Correio As estratégias no cabide: os melhores looks para o ambiente corporativo
-
Diversão e Arte Ator do DF, Juliano Cazarré fala sobre a fé cristã que atravessa as suas cenas
-
Revista do Correio Micose negligenciada
