Depois do auge das referências Y2K, a moda internacional começa a avançar no tempo e revisitar outra década recente, os anos 2010. Impulsionado pelas passarelas da Nova York Fashion Week, o chamado millennial fashion reaparece com força, mas longe de ser uma simples repetição.
Para Dheise Oliveira e Maria Clara do Valle, fundadoras da The Lemon Agency, esse retorno revela mais do que uma tendência estética, reflete comportamento, mercado e até o momento cultural atual.
Segundo Dheise, o revival dos anos 2010 acontece por uma combinação de fatores, como ciclo geracional, exaustão estética e reposicionamento cultural. "Depois de alguns anos dominados pela nostalgia Y2K, a moda naturalmente avança para a década seguinte", explica.
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Ela aponta que elementos como skinny jeans, peplum, colares statement e silhuetas mais polidas voltaram a aparecer com destaque. "Existe também uma fadiga em relação às microtendências ultrarrápidas do TikTok. Nesse contexto, essa estética millennial surge quase como uma resposta", afirma.
Mais do que estética, a volta também passa por quem está criando moda hoje. "Muitos diretores criativos, stylists e editores viveram intensamente os anos 2010. Ou seja, não é apenas um resgate visual, é também uma releitura feita por quem teve essa década como formação estética", completa.
A força desse retorno também está na forma como diferentes gerações se relacionam com ele. "Para os millennials, existe um componente muito forte de memória afetiva", diz Dheise. "Já para a geração Z, a indústria reapresenta esse repertório como novidade." Esse movimento, segundo ela, é estratégico. "A indústria sabe explorar isso muito bem, porque nostalgia vende não apenas roupa, mas também sensação de pertencimento, identidade e imaginário social."
O efeito Gossip Girl
Entre as referências mais evidentes está o estilo inspirado na série Gossip Girl, que ajudou a definir a estética da época. "Esse estilo aparece principalmente na volta do universo preppy revisitado", explica Dheise.
Blazers estruturados, saias plissadas, camisas oxford e loafers retornam, mas com adaptações. "Hoje, ela aparece mais híbrida: mistura o clássico com elementos contemporâneos, como oversized, tênis robustos ou um styling mais despretensioso", ressalta.
Maria Clara complementa que o segredo está no equilíbrio. "Funciona blazer estruturado, saias, camisas, tricôs, moletons. Mas precisa adaptar o excesso de formalidade e estampas. Hoje precisamos de respiro, de um pouco de naturalidade."
Do pertencimento à referência
Peças icônicas da década, como moletons da Gap e shorts da Hollister, também voltam, mas com outro significado. "Na década de 2010, essas marcas funcionavam como marcadores sociais", analisa Dheise. "Hoje, o retorno é menos sobre status e mais sobre referência cultural e ironia consciente." Ela explica que o uso atual carrega uma camada quase simbólica. "É menos 'quero pertencer' e mais 'quero citar esse imaginário'."
Diferente do Y2K, o retorno dos anos 2010 chega de forma mais acessível. "Ele vem muito mais comercial, mais vendável. É uma estética que funciona mais fácil, que não assusta", afirma Maria Clara. Para atualizar as peças, o truque é fugir do óbvio. "Tudo está no contraste. Um moletom com alfaiataria e acessórios sofisticados, um short curto com blazer, um vestido com uma jaqueta mais pesada. É esse contraste que deixa interessante."
Apesar da estética mais "arrumadinha", a trend exige personalidade. "A moda hoje não aceita mais reproduções literais. O público quer referência, mas também quer assinatura pessoal", diz Dheise. Ela resume o espírito do momento: "Em vez de 'vestir os anos 2010', a proposta é dialogar com essa década a partir da identidade atual."
O salto alto como termômetro da moda
O retorno dos anos 2010 também traz um item que havia perdido espaço nos últimos anos, o salto alto. Segundo Maria Clara, ele reaparece adaptado ao novo estilo de vida. "Saltos mais usáveis, que trazem conforto, como o chinelo de dedo com salto, salto bloco, anabelas, scarpin mais minimalista, kitten heel. Nada muito desconfortável ou exagerado."
Mas o movimento vai além da estética. Existe uma teoria analisada por pesquisadores, inclusive com dados estudados pela IBM (International Business Machines Corporation), que aponta uma relação entre economia e altura dos saltos. A lógica é simples: em períodos de instabilidade, os saltos tendem a subir, funcionando como um símbolo de poder, controle e afirmação. Já quando a crise se torna prolongada, o comportamento muda. Os saltos diminuem e dão espaço a versões mais práticas e confortáveis, refletindo um consumo mais consciente.
A leitura reforça uma ideia antiga no universo fashion, moda não é apenas estética, mas também comportamento coletivo. Entre subidas e descidas, o salto alto continua sendo um reflexo direto do momento social e, agora, da combinação entre a nostalgia da década de 2010 e a atual crise econômica.
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