Depois de anos em que pontos de luz delicados, correntes finas e produções minimalistas dominaram vitrines, redes sociais e closets, a moda parece atravessar um novo momento ou, talvez, um retorno a uma estética antiga, em que mais é mais. Brincos esculturais, correntes robustas, pulseiras em camadas, broches dramáticos, cintos estruturados e anéis de presença voltam a ocupar espaço, literalmente, e colocam os acessórios novamente no centro da composição.
A estética maximalista, que flerta com referências dos anos 1980, 1990 e 2000, além de elementos barrocos e vintage, surge impulsionada por um desejo crescente de individualidade em um momento em que a moda busca menos padronização e mais autoria.
"O acessório deixou de ser apenas um complemento. Ele passou a ser uma peça central da produção", explica Leonardo Mencarini, especialista em moda, CEO e co-fundador do Mercado Único. Segundo ele, o movimento acompanha uma mudança importante no consumo de moda. "Hoje, há uma busca por peças mais versáteis, capazes de criar diferentes possibilidades de uso, mas sem abrir mão de identidade. O acessório ganha força porque atualiza a produção, traz informação de moda e dá uma nova leitura a roupas que já fazem parte do armário."
Para o personal stylist Fernando Lackman, o retorno dessas peças chamativas reflete um momento de maior segurança estética. "Os acessórios maximalistas estão de volta com força total, impulsionados pelo desejo de ousar no visual", afirma. "Esse movimento reflete um momento de autoconfiança, em que as pessoas querem se expressar de forma única e sem medo, rompendo com o minimalismo."
Se antes roupas elaboradas eram responsáveis por conduzir o styling, hoje, muitas vezes, basta uma peça de impacto para transformar toda a produção. "O acessório maximalista pode, com certeza, ser protagonista", diz Fernando. "O truque é equilibrar com peças neutras, criando um contraste que valoriza o acessório."
Na prática, uma camisa branca, um blazer de alfaiataria, um jeans clássico ou um vestido monocromático podem funcionar como base para brincos esculturais, colares de corrente grossa, braceletes estruturados ou broches vintage.
Segundo Leonardo, o segredo está na intenção. "O erro não está em usar uma peça grande ou chamativa. O erro está em juntar muitos elementos sem uma lógica. Quando existe equilíbrio entre roupa, acessório, cor e proporção, o maximalismo não pesa. Ele valoriza a produção."
Fernando reforça que não existem leis rígidas, mas a coerência visual faz toda a diferença. "Vale garantir que o acessório seja o protagonista e que o resto do look seja mais neutro."
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Reprodução/Instagram (@sofiya_pa)) - Brincos grandes por si só ja trazem destaque
O revival dos anos 80
O maximalismo atual vem diretamente de décadas em que a moda tinha vocação performática. "A gente vê referências fortes dos anos 1980 e 2000, misturadas com elementos barrocos e um revival do vintage", aponta Fernando.
Leonardo concorda e observa que o retorno, no entanto, não acontece de forma literal. "Hoje essas referências aparecem de forma editada. O maximalismo atual mistura anos 1980, anos 1990, anos 2000, elementos vintage e até referências barrocas, mas com uma curadoria mais contemporânea."
Broches maiores, brincos dourados, braceletes robustos, correntes pesadas e cintos marcando a cintura estão entre as principais apostas. Entre as peças que mais têm aparecido, Fernando destaca brincos e colares como protagonistas, mas pulseiras, cintos e bolsas também ganham força, especialmente em produções que apostam em texturas e sobreposições.
"As combinações que estão em alta incluem o mix de metais, como ouro e prata usados juntos, além da sobreposição de colares de diferentes comprimentos e estilos. Também estão em alta o uso de cores vibrantes e texturas variadas, criando camadas de personalidade e impacto."
Quando a joia vira narrativa
Se nas passarelas o maximalismo aparece como linguagem visual, na joalheria artesanal ele ganha ainda mais profundidade e significado. Kenya Costa e Ronaldo Costa, sócios da Racko Studio de Joias, perceberam um crescimento claro na procura por peças maiores e mais expressivas. "Nossos clientes chegam cada vez mais com referências de joias que ocupam espaço, que têm presença. Antes, havia uma timidez maior, hoje as pessoas querem ser vistas", conta Kenya.
Mas, segundo eles, a busca vai muito além da aparência. "E o interessante é que essa ousadia não vem desacompanhada de significado. Elas querem impacto, mas querem que aquela joia conte algo sobre quem elas são." Na marca brasiliense, formatos orgânicos têm grande apelo, assim como acabamentos polidos, para joias mais sofisticadas, e texturas rústicas, para quem busca algo mais autoral.
Embora impacto visual e exclusividade sejam características fortes desse momento, para Kenya, existe algo ainda mais poderoso guiando o consumo: storytelling. "Raramente alguém chega apenas querendo 'uma joia bonita'. Eles chegam com uma história, um sonho, uma data, uma pessoa, uma memória."
Por isso, segundo eles, a exclusividade acaba sendo consequência natural. "Quando alguém pede uma joia maior, mais ousada, há mais camadas a considerar: o corpo de quem vai usar, o contexto, a história por trás."
Para os designers, existe uma conexão direta entre maximalismo e produção artesanal. "Quando alguém escolhe uma joia artesanal grande e expressiva, está fazendo uma declaração dupla: contra a moda descartável e a favor de algo feito com intenção."
Como começar?
Para quem ainda sente receio de entrar na tendência, os especialistas sugerem começar aos poucos.“Os perfis mais clássicos costumam entrar na tendência por meio de uma peça de impacto”, observa Leonardo.
Na joalheria, os anéis costumam ser a principal porta de entrada.“São mais acessíveis em valor, têm alto impacto visual e permitem que a pessoa experimente a linguagem da marca sem um investimento maior”, diz Kenya.
Fernando sugere uma estratégia parecida:“Um acessório de entrada pode ser um brinco grande ou um colar com uma dose extra de personalidade. A partir daí, vale ir avaliando combinações e tentando subir de nível a cada produção.”
E deixa a dica final:“Aposte num destaque, como um colar dramático, e equilibre com roupas neutras, deixando o restante do look mais clean. A dose pode sempre ser medida pelo olhar no espelho.”
Se depender dos especialistas, o maximalismo está longe de ser apenas uma onda passageira. "Existe hoje uma necessidade real de diferenciação e de construção de identidade", afirma Leonardo. Lackman acredita que o movimento ainda deve ganhar novas camadas nos próximos meses. "A tendência vai evoluir com experimentações de materiais, como acrílico e pedras coloridas, além de um apelo ainda maior para a customização."
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
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