A cinco Copas do Mundo sem entoar o grito de "É campeão!", o brasileiro une expectativas para o mundial que começa nesta semana. Às vésperas do campeonato, a Netflix aposta na produção nacional Brasil 70: A saga do tri para reacender a chama dos torcedores e relembrar a vitória de uma das equipes mais icônicas da seleção, que esbanjava nomes como Pelé, Rivellino e Tostão. A minissérie ainda destaca o contexto político da época, em meio à ditadura militar e ao governo Médici, e dá destaque a heróis pouco reconhecidos, como é o caso do goleiro Félix, interpretado por Hugo Haddad.
"A importância dele para a conquista do tri foi enorme", declara o ator que interpreta o atleta. "O Félix carregava uma responsabilidade gigantesca. Ele era o goleiro de uma seleção que tinha talvez o melhor ataque da história, mas bastava um erro para toda a atenção se voltar para ele. Nas minhas pesquisas, descobri que ele era visto como uma espécie de capitão da defesa, organizando e comandando a zaga", conta o artista. O jogador foi titular absoluto tanto no time de Saldanha quanto no de Zagallo.
Para Hugo, o que mais chama atenção no personagem é a capacidade de seguir em frente mesmo sendo tão questionado. "Ele foi campeão do mundo e, ainda assim, conviveu com críticas. Existe uma força muito grande nisso. Acho que a história dele fala sobre resiliência. Ele precisava provar seu valor o tempo inteiro", pondera o ator. "A Copa de 1970 não foi construída apenas pelos gols memoráveis, mas também pelas defesas em jogos importantes, como contra a Inglaterra ou o Uruguai, na semifinal", ressalta.
Em meio ao elenco de estrelas, o goleiro, segundo Hugo, é a porta de entrada para a "parte menos contada" daquele time. "Todo mundo conhece o Pelé, o Tostão e o Rivellino. E Félix não é apresentado como um herói perfeito. É alguém que sente pressão, que duvida de si mesmo e que precisa provar seu valor o tempo inteiro. Acho que muita gente vai se identificar com ele, mesmo admirando outros personagens que parecem inalcançáveis", aposta.
O ator também vê o personagem como alguém que ajuda a entender melhor a geração de 1970 como um todo. "Quando a gente olha apenas para os grandes ídolos, corre o risco de transformar a história em uma narrativa simples. E ele lembra que aquela conquista foi coletiva e que existiam muitas experiências diferentes convivendo dentro do mesmo elenco", enfatiza.
Os bastidores
Hugo Haddad admite que, quando recebeu o papel, seu conhecimento sobre o tricampeonato brasileiro se resumia ao que a maioria dos brasileiros sabe: "Conhecia os grandes nomes e os lances históricos. Tinha aquela imagem da seleção perfeita". Porém, ao iniciar as pesquisas para interpretar Félix, o ator se deparou com histórias muito mais complexas, como disputas internas e mudanças de comando pouco antes da Copa, por exemplo.
"Foi aí que a seleção deixou de ser um símbolo distante e passou a ser formada por pessoas reais. Acho que essa foi a maior descoberta para mim: perceber que, por trás de uma das maiores conquistas do esporte, existiam medos, dúvidas, conflitos e trajetórias muito diferentes entre si", avalia Hugo.
Para além das questões relacionadas ao esporte, o ator destaca a influência do regime militar na época. "A série ajuda a aproximar esses universos (da ditadura e do futebol) e a entender que aqueles jogadores estavam vivendo dentro daquele contexto histórico, e não separados dele. A produção mostra justamente esse lado humano — não só os jogos e os craques, mas os bastidores, as pressões, as contradições e as histórias pessoais de cada um", adianta.
"Acho que a série aproxima essas figuras históricas da gente e mostra que, antes de virarem lendas, eram jovens tentando lidar com a pressão de representar o país em um dos momentos mais complexos da sua história", acrescente. Hugo acredita que mesmo quem não acompanha futebol irá se identificar com os personagens.
Sem dublê
Durante participação em um painel no Rio2C, o diretor Pedro Morelli revelou que os atores de Brasil 70 tiveram que jogar de verdade para gravar as cenas — segundo ele, dublês eram utilizados apenas em "planos muito gerais". Para dar vida a Félix, Hugo admite que a preparação foi intensa. "Precisei perder peso e passei meses treinando como goleiro. Ensaiamos todas as jogadas mais emblemáticas daquela Copa, e eu precisava defender de verdade, inúmeras vezes."
De acordo com ele, o elenco acordava cedo para ir ao campo e passava o dia inteiro treinando: "Vivíamos uma rotina como se estivéssemos em uma concentração real para a Copa". Outra parte importante do processo de preparação foi entender quem era o goleiro. "Nas fotos, percebi códigos que me guiavam nas gravações. O modo como ele se portava em campo, sua postura curvada para a frente, seu semblante tenso, com os olhos sempre cerrados, como alguém que precisa se provar a todo momento", detalha.
"Passei muito tempo pesquisando o Félix, ouvindo histórias sobre ele e tentando entender como alguém lida com um nível tão grande de cobrança. A parte física foi fundamental, mas a emocional também. Em muitos momentos, senti que estava interpretando alguém que carregava um peso muito maior do que apenas o de quem defende em uma partida de futebol", descreve Hugo.
