
O imaginário popular costuma associar fetiches imediatamente ao BDSM. Filmes como 50 Tons de Cinza ajudaram a popularizar o tema, mas também contribuíram para reforçar estereótipos e interpretações equivocadas sobre um universo muito mais amplo e diverso. Celebrado em 24 de julho, o Dia Mundial do BDSM propõe justamente ampliar esse debate e mostrar que a sexualidade pode ser vivida de diferentes formas, desde que haja consentimento, diálogo e respeito.
A sigla BDSM reúne práticas de bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo. A escolha da data também tem um significado simbólico: o "24/7" faz referência às pessoas que vivem essa dinâmica como um estilo de vida, 24 horas por dia, sete dias por semana. No entanto, o BDSM representa apenas uma parcela do universo dos fetiches.
Para a psicóloga e sexóloga Michelle Sampaio, diretora da Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual (ABEMSS), datas como essa ajudam a diminuir o preconceito ao trazer o tema para o debate público. "Ele sempre existiu. O que mudou foi que hoje conseguimos falar mais abertamente sobre sexualidade, com base em pesquisas e conhecimento científico", afirma.
Ela destaca que muitas pessoas carregam vergonha de compartilhar desejos e fantasias por medo do julgamento. "Quando a ciência entra na conversa, o preconceito começa a perder força."
Ao contrário do que muitos imaginam, fetiche não significa necessariamente práticas intensas ou dolorosas. Pode estar relacionado a roupas, perfumes, lingeries, sapatos, lugares ou situações específicas capazes de despertar excitação.
É o caso de Thiago, de 24 anos, nome fictício. O jovem descobriu que gostava de fazer sexo no carro de forma espontânea, quando ainda não tinha outro local para encontrar a parceira. Hoje, mesmo morando sozinho, continua buscando essa experiência. "Percebi que aquela sensação de estar em um ambiente diferente acabou se tornando um desejo. Ainda gosto porque quebra a rotina", conta.
Quando revelou essa preferência à namorada, a conversa aconteceu naturalmente. Em outra ocasião, porém, ela explicou que não gostaria de repetir a experiência com frequência. "Eu respeitei. Fetiche só faz sentido quando os dois estão realmente confortáveis."
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Comunicação
A fala resume um dos principais pilares apontados pelos especialistas: o consentimento. Michelle explica que nenhuma fantasia deve ser colocada em prática sem uma negociação prévia entre o casal. "A ideia do consentimento não é negociável. Ninguém é obrigado a fazer algo que não deseja, mesmo dentro de um relacionamento."
Segundo ela, quando um parceiro demonstra interesse por um fetiche e o outro não, o caminho é compreender o que existe por trás daquele desejo, conversar sobre expectativas e, se ambos quiserem, experimentar pequenos passos. "Não é porque um casal decidiu viver uma fantasia que toda a vida sexual precisará seguir aquele roteiro", destaca.
Essa comunicação, inclusive, é considerada um dos maiores indicadores da satisfação conjugal. "Muitas vezes, casais que enfrentam dificuldades sexuais apresentam problemas de comunicação. Conversar sobre desejos fortalece não apenas a vida sexual, mas também a relação afetiva."
Para Bruna, nome fictício de uma entrevistada de 53 anos, criar coragem para falar sobre um fetiche exige confiança. Filha de uma família com educação sexual rígida, ela conta que sempre teve fascínio por homens fardados. O interesse começou ainda na adolescência e acabou evoluindo quando iniciou um relacionamento com um policial militar.
Entre suas fantasias estava ser algemada dentro de um camburão. O parceiro resistiu inicialmente, preocupado com a segurança, mas, depois de muita conversa, os dois chegaram a um acordo. "Foi exatamente como eu imaginava. Uma experiência incrível."
Nem toda proposta, porém, merece um "sim". Bruna lembra que recusou imediatamente quando um parceiro sugeriu amordaçá-la. "Perder a possibilidade de falar ultrapassava os meus limites. Achei uma proposta horrorosa", ressalta.
Hoje, ela afirma conhecer bem aquilo que aceita ou não experimentar. Também acredita que o preconceito ainda pesa, principalmente sobre as mulheres. "Se a mulher fala muito sobre seus desejos, ainda é vista de forma negativa. Muitos homens continuam separando quem é 'para casar' e quem seria 'vulgar'."
Jaqueline (nome fictício), de 50 anos, compartilha percepção semelhante. Ela afirma ter realizado praticamente todos os fetiches que despertaram seu interesse, inclusive experiências ligadas ao universo BDSM, mas evita comentar o assunto fora da intimidade. "O preconceito vem principalmente de outras mulheres. Muitas vezes, elas julgam antes mesmo de entender do que se trata."
Ela destaca que aprecia elementos como contenção, amarras e jogos de submissão, mas estabelece limites claros. "Não faria práticas que provocassem lesões ou dores intensas. Também não aceitaria tudo o que aparece nos filmes", destaca.
Ficção e realidade
É justamente essa diferença entre ficção e realidade que Michelle Sampaio considera um dos erros mais comuns entre iniciantes. "As pessoas veem uma cena pronta e esquecem que antes houve negociação, definição de limites, palavra de segurança e consentimento." Ela reforça que BDSM não pode ser confundido com violência. "Dor com consentimento pode fazer parte de um jogo erótico. Dor sem consentimento é violência. BDSM sem consentimento deixa de ser BDSM", alerta.
Para quem deseja conhecer esse universo, a recomendação é começar pelo autoconhecimento. "Primeiro, a pessoa precisa entender por que aquilo desperta interesse. Depois, conversar com o parceiro, negociar os limites e definir uma palavra de segurança. E, após a experiência, conversar novamente sobre o que funcionou ou não."
Quando o assunto é terceira idade, o cenário ainda é marcado por silêncio. Coach de relacionamento e estudante de sexologia, Graça Yoda observa que muitos idosos sequer conseguem falar sobre aquilo de que gostam na intimidade, quanto mais sobre fetiches. "As mulheres acima dos 60 anos ainda têm muita vergonha de dizer como gostam de se relacionar. Existe um tabu enorme", diz.
Ela explica que, em muitos casos, pessoas que iniciam um novo relacionamento depois de um divórcio ou viuvez acabam descobrindo desejos que nunca tiveram oportunidade de explorar. "Às vezes, elas experimentam novidades simples, como práticas que nunca viveram no casamento anterior. Mas BDSM ainda é um assunto muito distante para a maioria."
Segundo Graça, o acolhimento costuma ser mais importante do que qualquer fantasia nessa fase da vida. "A terceira idade precisa de carinho, de amor e de sentir que continua desejada. A intimidade muda, mas continua sendo essencial", destaca. Para Michelle, o melhor acessório para qualquer casal continua sendo a conversa. "Não existe técnica perfeita. Existe abertura para falar sobre desejos, respeitar limites e construir experiências juntos."
Muito além do BDSM
Especialistas lembram que qualquer elemento capaz de despertar desejo pode ser um fetiche. Entre os mais comuns estão:
— Lingeries, sapatos e uniformes.
— Lugares diferentes, como carro ou motel temático.
— Jogos de dominação e submissão consensuais.
— Fantasias e encenações.
— Brinquedos e acessórios para adultos.
BDSM em 5 perguntas
O que é?
Um conjunto de práticas que envolve Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo.
É violência?
Não. O BDSM é baseado em consentimento, comunicação e respeito aos limites. Sem consentimento, trata-se de abuso.
Todo fetiche é BDSM?
Não. Fetiches podem envolver roupas, lugares, objetos ou fantasias. O BDSM é apenas uma das possibilidades.
Como começar?
Converse antes com o parceiro, estabeleça limites, combine uma palavra de segurança e avance aos poucos.
O BDSM acontece apenas na hora do sexo?
Não. Embora muitas pessoas pratiquem o BDSM apenas durante momentos de intimidade, outras adotam a dinâmica como um estilo de vida, conhecido como 24/7. Nesse caso, os papéis de dominador(a) e submisso(a) podem fazer parte da rotina do casal, com regras, responsabilidades e formas de interação previamente negociadas.

Revista do Correio
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