
No monólogo Não me entrego, não!, Othon Bastos segura um texto de mais de uma hora e meia com vigor e uma alegria que, para ele, é palavra de ordem há muitas décadas. Tem uma ajudinha da Memória, no palco representada pela atriz Marta Paret, que oferece deixas, coisa pouca, para o ator seguir com a dramaturgia criada pelo diretor Flávio Marinho. "É o que me salva. Quer dizer, ela está comigo a todo instante me ajudando, sempre. É a Memória", brinca Othon, em entrevista ao Correio.
No palco, Marta também é responsável por chamar o ator para um passado que, eventualmente e em tom de brincadeira, ele tenta driblar. "Ela briga", diz Othon. "Não brigo, não! Só brinco e te salvo", garante Marta. É uma dupla que funciona muito bem graças à interação, fruto de uma combinação que envolve improviso e muita escuta.
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Aos 93 anos, Othon Bastos é um ator com mais de sete décadas de atuação, uma trajetória que perpassa praticamente toda a história do cinema e do teatro brasileiro no século 20. Uma carreira que quase desembocou num consultório de dentista diante dos conselhos pouco didáticos da professora que mandou o menino de 8 anos prometer que nunca, jamais seria ator. "Como ela teve coragem de me dizer isso?", brinca Bastos, durante a entrevista, ao lembrar da "sestrosa" professora Eliete.
Felizmente, o conselho não foi seguido, mas a subida aos palcos também não foi fácil. Ser ator é difícil em qualquer Brasil, seja o dos tempos áureos do teatro e da telenovela, seja o da vanguarda cinematográfica. Como conta na peça, Bastos coleciona alguns fracassos que faz questão de narrar. Estão lá o de soldado que entra mudo e sai calado de uma montagem na Inglaterra, onde estudou teatro em 1956 e 1957, o de figurante de luxo em blockbusters nacionais, como Central do Brasil (Walter Salles) e o dublê de cangaceiro, que conseguiu evitar, logo depois de viver o Corisco de Glauber Rocha em Deus e o diabo na terra do Sol. Isso tudo é material para humor dos bons em Não me rendo, não!.
Mas os sucessos também estão lá, e são muitos quando se trata de uma lista de mais de 80 filmes, igual número de peças e cerca de 48 novelas e seriados. O pagador de promessas, filme de Anselmo Duarte no qual vive o personagem de um repórter, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962. Com José Celso Martinez Corrêa, no Teatro Oficina, ele fez O rei da vela, uma das peças mais importantes do teatro de vanguarda brasileiro. Deus e o diabo na terra do Sol o consagrou como rosto do cinema nacional experimental.
Fazer Não me rendo, não!, em cartaz desde 2024, pode parecer um ato de generosidade, mas Othon explica que é vontade misturada com coragem. "Quando você tem alguma coisa importante, não deve guardar para você eternamente, deve doar", acredita. Em entrevista, ele conta como o teatro e o cinema foram importantes para se tornar o Othon Bastos que trocou a odontologia pelo soldado mudo e pelo cangaceiro icônico.
Assista à entrevista:
ENTREVISTA/Othon Bastos
O senhor foi muito generoso ao oferecer sua memória para um público enorme. Desde 2024 o senhor vem contando essas lembranças. Tem que ter muita coragem e generosidade para compartilhar a memória?
Não é coragem, é vontade. Quando você tem alguma coisa importante, não deve guardar pra você, deve doar. Aquele momento ali em cena é a doação de 75 anos de carreira. Por que eu guardaria isso comigo? Também não queria fazer isso numa autobiografia. É simplesmente dizer: "Gente, eu fui assim". Como diz o Zen: sou o que sou porque fui o que fui. Então esse que vocês estão vendo aí é o que fui. Falo disso com alegria, faço deboche de mim mesmo. A coisa mais importante na vida é viver. Quando estou em cena com a Marta, estou doando e ela está me lembrando. Ela briga muito comigo.
A interação entre o senhor e a Marta Paret é muito orgânica. O público fica na dúvida: até que ponto tem improviso, até que ponto a memória realmente está ajudando ou se é só uma brincadeira entre vocês.
Othon Bastos: Basta olhar para ela que ela já sabe o que é importante e o que tem para dizer. Não é uma coisa marcada, é improvisado às vezes.
Marta Paret: É vivido. Eu entro em cena e entro na pulsação dele. Quando ele me olha, faz uma respiração diferente, uma pausa ou um gesto, eu entendo que tenho que entrar. O teatro é vivo e é presença.
Othon Bastos: É uma ligação muito grande, basta olhar para ela saber o que é pra dizer e o que tem que fazer. Eu brinco com ela o espetáculo inteiro. Sempre com alegria. Quando falei com o Flávio Marinho, autor da peça, eu disse que não amargas, nada triste no espetáculo, eu quero alegria. É melhor ser alegre do que ser triste.
Nós temos essa tendência de associar a idade à tristeza, o que é desmistificado pelo texto e pela sua atuação. São quase duas horas falando, andando de um lado para o outro e até dançando…
Othon Bastos: Eu fiz um curso de dança! Brincadeira...
Marta Paret: Olha como ele é! (risos)
Othon Bastos: Eu disse que tinha que dançar, mas não posso dançar como antes porque a perna ainda não permite totalmente devido a uma cirurgia. Mas eu engano no espaço, brinco e até esqueço da perna. O importante é o legado: espero que as pessoas vivam com a alegria que eu vivo.
O senhor traz também a memória coletiva da história do Brasil, citando grandes atores e dramaturgos que correm o risco de serem esquecidos. Como isso é importante?
Marta Paret: A beleza do espetáculo é além da vida dele, que é riquíssima, é a história da nossa cultura, do país, de um ser humano. Você se identifica em vários planos. É uma coisa que realmente toca. É legal a gente saber quem escreveu, quem dirigiu, em que contexto social, político e como ele relembra isso e doa isso pra gente.
As intersecções entre a memória pessoal e a coletiva acontecem de forma natural e não didática...
Para mim, é sempre uma surpresa como vai ser recebido. Eu sento e pergunto: "Será que vão pensar que vou sentar aqui e falar uma hora e meia?". O grande achado é quando eu digo "1944!" e volto para a história com a minha professora.
Essa professora dizia que o senhor não seria ator e sugeriu que fosse dentista para "deixar o público de boca aberta". Como o senhor enxergava esses "fracassos" no passado?
Falo sempre com muita alegria. Nunca tive a intenção de ser ator; dentista também foi a escolha mais rápida que eu tive. Não falo com mágoa nem rancor. Eu nem sabia o que ela estava dizendo. Eu nunca pensei em fazer arte na vida. Aos 11 anos eu nem sabia o que queria ser. Nunca pensei em representar, o teatro veio por um acaso. Esse, sim, foi o grande amigo da minha vida, o acaso. Tudo o que fiz de importante — Deus e o Diabo na Terra do Sol, São Bernardo — foi por acaso, fui chamado de última hora para fazer.
Aos 93 anos, o senhor está fazendo seu primeiro monólogo. Como é essa experiência de se reinventar?
Eu fui ver um espetáculo do Flávio Marinho com a Luciana Braga (Julie) e fiquei encantado como ele entrelaçou a vida do personagem com a da atriz. Pensei 'vou falar com o Flávio para ver se ele não faz um espetáculo em que tenha alguma coisa que eu possa dizer que coincida com a vida'. Porque o importante é viver. Como diz Zeca Pagodinho: "Deixa a vida me levar".
O senhor fala muito do teatro e do cinema, mas deixou as novelas de fora da peça. Foi deliberado?
Não, é que senão daria quatro horas de espetáculo! Eu passo pela televisão. Para mim, a coisa mais importante é o teatro. Foi onde me formei e me encontrei. Cada vez que estou no palco trabalhando, é como diz Fernando Pessoa, trabalhar é "trabalhar-se". Até hoje o teatro continua me ajudando. São 80 filmes, não posso falar de 80 filmes, então falo por cima, dos mais importantes, o que marcou. Faço esse espetáuclo como um agradecimento a tudo o que consegui.
O senhor fez a peça O Rei da Vela com o Zé Celso Martinez Corrêa. Qual foi o papel dele na sua formação?
O Zé Celso era o Glauber Rocha do teatro. O que o Glauber tinha de poderoso, de vulcão no cinema, o Zé Celso tinha no teatro. Aprendi muito com ele, foi um verdadeiro doutorado.
E a diferença entre trabalhar com o Glauber Rocha em Deus e o Diabo e com o Leon Hirszman em São Bernardo, dois diretores tão diferentes e tão icônicos do cinema brasileiro?
Foi um enriquecimento cultural enorme. Eram duas pessoas extraordinárias. O Glauber era um vulcão. O Leon era um pensador, um homem político e socialmente extraordinário. Quando li São Bernardo, disse ao Leon: 'não posso fazer'. Quando você abre o livro diz lá: 'sou ruivo, tenho lábios grandes, cabelos grandes'. Não sou eu. Porque uma coisa é você fazer um filme que só você conhece o roteiro. O público não conhece. Mas o livro São Bernardo é conhecidíssimo. Então eu disse: 'não sou eu, você vai estragar o seu filme'. E ele disse: 'eu não quero o que está escrito, quero o que está dentro de você'.
Isso se repetiu quando o senhor interpretou Tancredo Neves no cinema, em O paciente (2018), de Sérgio Rezende?
Quando o Sérgio Rezende me ligou, eu li o roteiro e disse: 'nossa, que lindo, que maravilha, qual o doutor que vou fazer no filme?'. Não pensei que ia fazer o Tancredo. Ele disse: 'você vai fazer o Tancredo'. Eu disse: 'nunca! Como vou fazer o Tancredo?'. E aí comecei a estudar com o Sérgio. E ele mandou: 'raspa a cabeça, coloca a mão no bolso'. Esse filme é importantíssimo para a própria história do Brasil, a importância do Tancredo na história do Brasil devia passar a todo instante em aula, com discussão. Esse filme é fundamental para a memória e a história do Brasil.
Como foi o processo de construção do personagem Tancredo Neves?
Foi um prazer imenso ter feito o Tancredo, sentir que estava com um pé na história. Ele era um homem político, soube aproveitar a política com extraordinária eficiência. Tem um ator inglês que diz 'eu vejo o mundo através dos meus personagens'.
O que é mais fácil: interpretar outras pessoas ou ser você mesmo no palco?
Você não pode ser você mesmo eternamento, falar de você eternamente. Você ser aquela pessoa é muito importante. Tem que ter o cuidado de ser como ela é. Você tem que saber, conhecer a pessoa. Não fui íntimo de Tancredo, mas fui íntimo da situação de Tancredo. A importância dele é que foi importante pra mim.
E agora, com Não me rendo, não!, o senhor é o senhor mesmo.....
Ali estou 'me' sendo. É o ator que está em cena. Tenho que falar de mim, mas vou falar da maneira mais simples possível, não quero glórias, não quero nada. Se fosse viver de glórias, seria absurdo. Nunca, em 75 anos de carreira, nunca me preocupei em fazer um Shakespeare. Prefiro fazer um personagem como o Corisco, que tem o Brasil dentro de si. Qualquer peça shakespereana é uma honra, mas nunca tive esse sonho. Não está em mim a Inglaterra.
O senhor tem um casamento de 60 anos com a atriz Marta Overbeck. Qual é o segredo para manter uma relação por tanto tempo?
Conhecer o outro, saber o que você quer. Não é só o seu desejo, você não impõe. Não sou um fascista dentro de casa. O mais importante é o diálogo, compreender a outra pessoa.
Para um ator é difícil escutar?
Othon Bastos: Não, porque você está sempre escutando a deixa. Eu aprendi como escutar. Escutar é ver por dentro. Escutar é da maior importância.
Marta Paret: Mais importante que falar é escutar, senão vira um papagaio.
Fazer esse monólogo é cansativo fisicamente e emocionalmente. Qual é a sua rotina para se manter bem no palco?
Acho que é uma coisa espiritual. Quando vou entrar em cena, peço auxílio a Deus para ter energia para fazer o espetáculo. Não quero outa coisa a não ser isso. E alegria para poder transmitir. Tenho que me doar. Doar-se sempre. A maior terapia é estar em cena, é uma grande terapia, estou o tempo todo falando das coisas e revendo as coisas.
Saiba Mais
Nahima Maciel
RepórterRepórter do Correio Braziliense desde 2000 com experiência na cobertura de Cultura, especialmente artes plásticas, literatura e teatro.

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