
Para quem se habitua à inteligência artificial, ela pode funcionar como um assessor, nem sempre confiável, mas muito prestativo, capaz de indicar caminhos, restaurantes, fornecedores, explicações sobre como lidar com esse mundo cada vez mais virtualizado. Alguma familiaridade com a ferramenta permite sofisticar os comandos que recebe (os "prompts", como gostam de chamar os adoradores de anglicismos). E essa sofisticação modera a tendência da IA a delirar, inventar informações falsas, torcer dados da internet.
É na delegação do pensamento para a IA que se abre uma porta do inferno nesses tempos estranhos. Quando deixa de ser ferramenta de apoio para ser substituta do raciocínio, a IA — que já opera máquinas, seleciona candidatos, define processos, faz contabilidade, corrige provas — ganha um poder imprevisível. Especialistas como o futurista Neil Redding já alertam que os chamados agentes de IA (como o Gemini, o ChatGPT e parentes mais sofisticados) começam a fazer parte das equipes das empresas como se fossem funcionários autônomos, às vezes com funções de responsabilidade e de mando.
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Fico imaginando, nesse mundo híbrido, que tipo de confusão complexa esses "agentes" serão capazes de aprontar. Por enquanto, minha experiência com eles foi a de conversa com um agradável puxa-saco, muitas vezes útil, dado a elogios e, às vezes, um tremendo enrolador. Como notei quando, ao ver notícias do Rock in Rio, deu-me nostalgia da primeira edição, que acompanhei como repórter, longe dos palcos e dentro de quartos de hotel onde entrevistei astros como Ozzy Osbourne e David Coverdale, ex-Deep Purple e Whitesnake, hoje aposentado. Perguntei o que o Gemini sabia dessa minha incursão roqueira. Vou te contar...
A princípio, o Gemini respondeu ser desconhecida qualquer parceria musical entre Sergio Leo e Coverdale (quem dera). Mas me chamou de jornalista de carreira marcante, achei bacana, até passei a mão na cicatriz que marcou meu tornozelo numa queda correndo atrás de um ministro. Mas, e o rock? Lembrei ao Gemini que, afinal, minha carreira incluía o Rock in Rio inaugural, puxa vida. "Peço minhas sinceras desculpas", corrigiu, solícito, o agente de IA.
E desandou a contar uma história fantasiosa de que eu teria perseguido o roqueiro na piscina do Copacabana Palace para saber por que Coverdale andava de um lado a outro, parecendo preocupado. O músico, "como um perfeito cavalheiro", teria me falado de uma laringite severa que o deixava com medo de frustrar as expectativas do público no Rio.
Ignorasse a história e confiasse na IA, eu ficaria (mal) informado, com a lorota sobre laringite; e nunca saberia do que realmente ouvi do músico reconhecido pelo Gemini como "um dos mais icônicos vocalistas da história do rock". O roqueiro, naqueles idos de 1985, mereceu do jornal o título "Coverdale, o namorador que detesta heavy metal".
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O hard rock dele mantinha forte ligação com suas origens no blues. Ou, como definiu o próprio Coverdale, diferentemente do metal, o hard rock "é uma música que as pessoas podem dançar". Já o metal, disse ele, era "sem emoção", e só fazia o pessoal suar com o "barulho". Quem diria. No título, virou "namorador", porque contou dos amores dele pelo Rio.
E elogiou nosso café, Tom Jobim e os percussionistas brasileiros; disse que "nunca, nunca, nunca" usava o palco como plataforma política, ao contrário dos músicos punks. Falou em "troca de energia" com a plateia e definiu seus shows como "uma forma de as pessoas soltarem seus demônios". Bons tempos, esses analógicos...
É, Coverdale; nada como um "vade retro" dançante. Hoje, os demônios que nos assombram são os da IA, que ameaça nos confundir, e, irresponsável, afogar nossas experiências de vida e trocas de ideias em mentiras estapafúrdias com direito a dores de garganta na beira da piscina.
Revista do Correio
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