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Correio Braziliense

Busca por melhores salários e segurança atraem brasilienses aos concursos

Só para este ano, estão previstas 47.112 vagas no Poder Executivo no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA)

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postado em 21/04/2014 07:00 / atualizado em 20/04/2014 19:07

Waldo Pedrosa/Reprodução


Cleude Ribamar da Silva sai de casa todos os dias as 4h50 da manhã para trabalhar no serviço de limpeza no Tribunal de Contas da União. Em meio a tantos concursados, Cleude assiste de perto o futuro que gostaria de ter: ser servidora pública.

Com algumas apostilas usadas, outras doadas por colegas ou compradas em livrarias, Cleude estuda no máximo nas folgas que encontra. Com 41 anos e dois filhos adolescentes, entre emprego, família e cuidados da casa, ela se esforça para estudar pelo menos três horas diárias em dias de trabalho e durante toda a tarde no domingo. Cleude segue essa rotina há pelo menos dois anos e já fez diversas provas, mas nunca foi aprovada. A próxima meta dela é passar no concurso de nível médio da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab), previsto para o primeiro semestre deste ano.

A servidora de limpeza não é a única com o sonho de passar em concurso público no Distrito Federal. Cercada de ministérios, secretarias e sede de grandes instituições do governo federal, Brasília alimenta o desejo das pessoas que encontram no funcionalismo público a oportunidade de ter um emprego seguro, com bons salários e garantias de férias e aposentadoria. Este ano, estão previstas 47.112 vagas no Poder Executivo no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA). Além disso, há possibilidade de 5.438 contratações nos Poderes Legislativo e Judiciário e 6.697 nas Forças Armadas. Brasília, por ser capital, recebe milhares de vagas de concursos nacionais.

A busca pela estabilidade e um bom salário também motiva a jovem Ana Beatriz Messina, de 22 anos, a seguir carreira pública. No último ano de Direito do Centro Universitário de Brasília (UniCeub), a estudante conta que optou pelo curso já pensando em concursar. O sonho dela, porém, é outro: trabalhar com culinária e abrir um bistrô.


Ana Beatriz Messina/reprodução


"O meu sonho é a gastronomia, mas tenho muito medo de não conseguir me manter com isso. Revolvi me dedicar ao concurso público para ter alguma garantia de vida e estabilidade. O fato de morar em Brasília me influenciou muito nessa decisão também. Quando você fala da cidade e de emprego, a primeira coisa que vem em mente é o concurso", conta Ana.

Ana estuda agora para concursos de nível médio para técnico legislativo do Senado e da Câmara. Apesar de pretender completar o ensino superior, ela conta que o salário de nível médio (R$ 12.286,61 na Câmara e cerca de R$13 mil no Senado) já seria um ótimo começo. Após aprovação no concurso, Ana deseja fazer o curso de gastronomia do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), montar um blog de receitas e começar a juntar dinheiro para a abertura de um bistrô.

Vida de concurseiro

Para quem já foi aprovado em concurso público, a segurança de emprego e o salário passam a impressão de que os concursados podem ter a vida fácil. Mas, para quem ainda está estudando, a realidade é muito diferente.

O engenheiro mecânico Thiago Strauss, de 36 anos, já sentiu na pele a realidade dos concurseiros e pôde acompanhar de perto a rotina de outros candidatos. Após ser aprovado no concurso do Tribunal de Contas da União (TCU), em 2008, Thiago foi convidado para dar aula em cursinho preparatório. Desde então, ele já trabalhou em diversos cursinhos em Brasília. Para ele, o desafio em ser aprovado não vem apenas do estresse e da enorme quantidade de conteúdo exigido, mas também da ausência de uma data certa para as provas.

"Quando você sabe que algo vai acontecer, você consegue se planejar efetivamente para aquilo e se organizar. O problema dos concursos é que você pode até saber que ele vai acontecer, mas nunca vai ter a data exata com muita antecedência. Então, o estudo tem que ser constante", conta ele.

Para se preparar para a prova do TCU, Thiago criou uma série de mapas mentais que o ajudassem a lembrar os conteúdos de direito. Os mapas mentais são esquemas elaborados na forma de organograma, que abordam todo o conteúdo exigido de forma que facilite a memorização. Thiago produziu uma série de esquemas sobre direito civil, constitucional e administrativo. A eficácia dos mapas mentais criados por Thiago foi tão grande ele ele foi convidado para publicar os mapas em forma de livro, que são vendidos em um cursinho de Brasília.

De acordo com Thiago, apesar dos concursos estarem presentes na vida dos brasilienses desde a elaboração da Constituição de 1988, há um aumento no interesse em ser concursado na última década. Para ele, a quantidade crescente de cursinhos preparatórios em Brasília e o aumento na quantidade de vagas disponíveis servem como prova de que os brasilienses estão cada vez mais focados no concurso público.

Entre o público e o privado


O consultor legislativo da área de telecomunicações do Senado, Dilson Ferreira, de 48 anos, trabalha hoje em um dos cargos mais altos dos servidores públicos. Para chegar até aí, porém, ele conta que além do estudo constante, a experiência de mercado no setor privado também o ajudou.

Dilson fez dois cursos superiores. Primeiro, se formou em engenharia elétrica pela Universidade de Brasília. Durante muitos anos de sua carreira, não pensava em fazer concurso. Entretanto, o desejo de se casar e ter a casa própria o levou a procurar empregos que dessem a ele um salário maior. Decidiu, então, seguir carreira pública e foi aprovado no concurso de Analista de Finanças e Controle da Controladoria-Geral da União (CGU).

No início, Dilson trabalhava com assuntos ligados a engenharia, mas, com o passar do tempo, sentiu a necessidade de estudar Direito. Passou no vestibular para a UnB deu início ao que seria a segunda fase de sua vida. Ao longo dos anos, Dilson foi aprovado em concursos do Ministério das Comunicações, do TCU e de Consultor do Senado.

"Hoje eu tenho muita experiência na área pública, mas acredito que é fundamental conhecer o setor privado antes. O servidor público é uma bolha, é um mundo muito diferente da realidade do mercado. Você precisa ter uma visão global, entender o Brasil como um todo. E isso é algo que a experiência no mercado privado pode te trazer."

Com três concursos em seu currículo, Dilson deixa uma dica para quem sonha com os cargos públicos: "Estude até passar. Não desista. A persistência e a motivação é fundamental para ser aprovado, mesmo que demore muitos tempo," conta ele.

Com informações de Julia Lugon.

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