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O céu de todos nós

Para os meteorologistas, o firmamento brasiliense é perfeito

Em Brasília, não há morros nem montanhas que interfiram na visão

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postado em 21/04/2014 07:00 / atualizado em 20/04/2014 11:49

Mariana Laboissière

Ed Alves/Esp. CB/D.A Press - 30/9/11


Ele trocou o céu da pacata Coromandel, no Triângulo Mineiro, pela imensidão azul sobre o Planalto Central. Um sonho que, na década de 1970, parecia pertencer a todos. Veio estudar na nova capital, mas não deixava de pensar no retorno à cidade de origem. Aqui, fez morada, casou-se e criou os três filhos e dois netos. Há mais de três décadas, Hamilton Carvalho, 62 anos, ocupa o cargo de porta-voz do tempo de Brasília. É ele quem dita, por exemplo, as gradações de cores na atmosfera. E, com base em análises matemáticas, consegue prever chuva, sol e até trovoadas. Pretende se aposentar pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), no mesmo cargo em que tomou posse: meteorologista.

Normalmente, chega ao trabalho às 7h. Levanta cerca de meia hora antes e a primeira coisa que faz é analisar a paisagem. Mora próximo do Inmet, localizado no Sudoeste. “Vejo o nascer do sol e como está o céu. Assim, já tenho um dado para fazer a previsão. Mas faço isso, principalmente, para ter uma ideia se minha análise do dia anterior bate com o tempo presente. Geralmente, dá certo. Se dá errado, vejo os modelos e gráficos para entender”, revela. O homem do tempo confessa olhar pouco para o céu fora da tela dos computadores. Em alguns dias de trabalho, sai à noite do Instituto. “É um ambiente fechado. Mal saímos. Mexemos com computação, fotos de satélite, dados. Fico mais nas máquinas. Quando é tarde, nem reparo no céu direito. Aqui, em Brasília, também tem tanta luz que não dá”, justifica.

Para ele, o céu em 2014 é, sem dúvida, diferente do observado na capital em meados de 1978, quando ele chegou à cidade. “Aqui era um canteiro de obras e, por isso, tinha muita poeira no ar. Então, nosso pôr do sol era lindo. Ao longo dos anos, começamos a ter mais verde, prédios, áreas amplas. Deu uma mudada. Mesmo assim, continuamos com o pôr do sol diferenciado em épocas de seca, quando a poluição fica suspensa — geralmente em agosto e setembro. Essas partículas de poeira dão tons variados no horizonte”, explica Hamilton. Para ele, a particularidade do céu de Brasília tem um porquê, que carrega na ponta da língua. “Temos uma abóbada celeste perfeita, ou seja, o limite que a gente enxerga. Aqui, você vê toda essa bolha. Não temos morros, nem montanhas. Não temos interferência. Então, a visão é total, sem obstáculos”, argumenta.

Ao longo dos 34 anos como meteorologista, o fenômeno mais impressionante do que avistou no céu da cidade foi o halo em 30 de setembro de 2011, uma espécie de círculo multicolorido que se formou ao redor do sol e deixou muito brasiliense de cabelo em pé. Segundo Hamilton, o Inmet recebeu ligações ao longo de todo aquele dia. “Perguntavam se era disco voador, se o mundo estava acabando, mas eram nuvens altas com cristais de gelo que refletiam os raios de sol”, esclarece. Hamilton Carvalho afirma ter visto muitos outros halos no céu da capital. No entanto, sinaliza que o de setembro de 2011 ficou na memória pelo horário em que ocorreu. “Era por volta de 11h, meio-dia. Tinha sol, nuvens e ele tinha a cor bem viva. Nunca havia visto um halo daqueles, por isso foi o mais destacado”, diz.

Os fenômenos na atmosfera de Brasília também alimentam o imaginário das pessoas. Hamilton cita as figuras formadas ao pôr do sol. “Já nos ligaram para falar que estavam vendo dragões e até santas, mas aí eu explicava: ‘Olha, minha senhora, isso são nuvens escuras e elas estão contrastando com o brilho do sol. São passageiras’”, relata. Antigamente, segundo o meteorologista, eram os rastros dos aviões que tinha esse efeito sobre os brasilienses. “Eles ficavam curiosos para saber o que era aquilo. Não era tão comum”, recorda.

Antes de tomar posse no Inmet, Hamilton trabalhou na área de aviação e diz ter descoberto a paixão pela meteorologia entre um voo e outro. “Na navegação de voo também precisávamos da meteorologia. Para um avião decolar, você precisa saber as condições do tempo, se chove, se tem nuvens Para o avião repousar, a mesma coisa. Então, foi isso que me fascinou.”

"Era por volta de 11h, meio-dia. Tinha sol, nuvens e ele tinha a cor bem viva. Nunca havia visto um halo daqueles, por isso foi o mais destacado”
Hamilton Carvalho, 62 anos, meteorologista, em relação ao halo (círculo colorido ao redor do sol), que se formou em 29 de setembro de 2011

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