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Artistas expressam em versos admiração pelo céu de Brasília

Conheça alguns poemas que moradores deram à cidade

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postado em 21/04/2014 07:00

Não importa a situação ou o momento vivido: olhar para cima, no Distrito Federal, significa, ao mesmo tempo, acolhimento e sensação de liberdade. E escrever sobre Brasília é inevitável: mais cedo ou mais tarde, o céu vai servir de inspiração para aqueles que têm facilidade com as palavras.

Considerado pela crítica como um dos principais poetas brasileiros em atividade, Ronaldo Costa Fernandes precisou passar por diferentes cidades da América Latina para encontrar um céu que lhe acolhesse. Nascido em São Luís, ele foi procurar a imensidão do Rio de Janeiro ainda  criança. Veio para Brasília em 1982, mas ainda não seria dessa vez que o horizonte do Planalto o cativaria. Logo foi para Caracas, na Venezuela, e por lá ficou 10 anos, antes de retornar à capital brasileira.

Agora, depois de duas décadas, o mar de Brasília finalmente parece tê-lo abraçado — e vice-versa. Tanto é que virou tema do poema inédito Pai nosso que estais no céu de Brasília, que o escritor publica em primeira mão no Correio. “Brasília tem um céu que nos protege, e isso me comove. É inspirador”, explica. “Comecei agora a escrever um romance que se passa aqui; isso significa que finalmente a cidade está em mim, que agora eu consigo escrever sobre ela”.

Não foi só Fernandes que versou sobre o céu brasiliense. Uma série de outros escritores vêm sendo inspirados pelo azul de Brasília desde que se começou a pensar a cidade, como Joaquim Cardozo, engenheiro responsável por trazer à realidade as ideias de Oscar Niemeyer, e que se tornou um dos principais poetas a falar sobre a construção da capital. O conhecido Nicolas Behr tece palavras sobre o horizonte desde que chegou aqui nos anos 1970.

As mulheres não ficam atrás. A portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen foi a primeira poetisa a ganhar o prêmio Camões de Literatura e achou importante eternizar o céu da capital brasileira em versos. A americana Silvia Plath, pouco antes de se suicidar, também escreveu impressões sobre a cidade. O Correio separou alguns poemas importantes desses e de outros escritores sobre o céu de Brasília.



Pai nosso que estais no céu de Brasília

O cheiro é uma espécie de diálogo.
Sempre dialoguei bem com as plantas.
Fácil é dialogar com o céu de Brasília,
porque ele é claro, transparente,
imensa bola de gude a nos cobrir.
Pai nosso que estais no céu de Brasília,
dai-nos hoje o estado de graça e beleza
dos olhos cheios de água,
dos ipês acenando com mãos roxas,
do sol narciso que vem no Lago se mirar.
Dai-me o solstício das discórdias,
o zênite dos meus gozos,
a estação solar e a estação das águas:
mas, há também a estação das esperas,
época de seca de desvelos
e de enchentes de perdas.
Se o céu é o mar de Brasília,
estamos todos naufragados na luz intensa
que move o motor do nosso corpo
e a terra pronta para plantio da nossa mente.
E quando chega o planetário da noite
vêm as estrelas ciciar saudades.
Sob o céu transatlântico de Brasília
navega a nau dos operários
que a cada dia reinauguram a capital
ancorada neste porto sem água.
Difícil é dialogar com os pássaros,
riscos ariscos no céu de Brasília.

Ronaldo Costa Fernandes



o que mais
te fascina
em brasília?

a cidade ou o poder?

o céu

Nicolas Behr




Agosto

(...) As nuvens esparsas
no céu tão azul.
A chuva escassa
no rumo do sul.

Aglaia Souza




severinos e venâncios

abaixo deste céu tão brilho
que galvaniza edifícios
e incinera a cidade
há uma profusão de clamores
que cantam uma epopeia
de pioneiros e priotários
em busca do eldorado

Luis Martins da Silva





A cidade do Planalto

(...)Ficas longe do mar, mas ficas perto
do céu, de um claro céu que há de estar sempre aberto
às nossas mágoas e aos nossos cantos, ao vento
(...)Cidade que fugiu das ondas e das praias
para ficar vizinha das estrelas…

Osvaldo Orico




Brasília

Chegarão a manifestar-se
essas pessoas com torso de aço
cotovelos e sobrancelhas alados.
Aguardando massas
de nuvens para dar-lhes expressão,
esses super-seres!
E meu bebê, uma unha
bem metida.
Ele grita em sua gordura
ossos farejando distâncias.
e eu, quase extinta,
seus três dentes cortando-se
em meu polegar —
e a estrela,
a velha história.
Na pista cruzo ovelhas e vagões,
terra vermelha, sangue materno.
Oh! vocês me comovem.
pessoas com raios leves, deixem
a salvo este espelho
não redimido,
pela pomba aniquilada
a glória,
o poder, a glória.

Sylvia Plath




Sinfonia da alvorada

(...) Terra de sol
Terra de luz
Terra que guarda no céu
A brilhar o sinal de uma cruz
Terra de luz
Terra-esperança, promessa
De um mundo de paz e de amor
Terra de irmãos
Ó alma brasileira

Alma brasileira
Terra-poesia de canções e de perdão
Terra que um dia encontrou seu coração (...)

Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim




Brasília

Brasília
Desenhada por Lúcio Costa, Niemeyer e Pitágoras
Lógica e lírica
Grega e brasileira
Ecumênica
Propondo aos homens de todas as raças
A essência universal das formas justas

Brasília despojada e lunar como a alma de um poeta muito jovem
Nítida como Babilônia
Esguia como um fuste de palmeira
Sobre a lisa página do planalto
A arquictetura escreveu a sua própria paisagem

O Brasil emergiu do barroco e encontrou o seu número

No centro do reino de Ártemis
— Deusa da natureza inviolada —
No extremo da caminhada dos Candangos
No extremo da nostalgia dos Candangos
Athena ergueu sua cidade de cimento e vidro
Athena ergueu sua cidade ordenada e clara como um pensamento

E há nos arranha-céus uma finura delicada de coqueiro

Sophia de Mello Breyner Andresen




Hino a Brasília

O azul era seu domínio
e as chuvas caíam sobre suas escamas
como coisa difícil
ave
penosamente ancorando
no galho nu
antes da invernia.
Todos os dias
o sol
era alimento dos bichos
e a lua
em vão serena
pretendia
a doce contemplação
do pasmo e da magia. (...)

José Santiago Naud




Arquitetura Nascente

(...) Mansão. Castelo. Catedral.
Marmórea manhã subindo
Arbórea ascenção votiva Cingindo a cidade imortal.
Volume a se conter bem perto,
Espaço a se expandir tão longe,
Mar aberto a proa de navio,
Trens Coleando rampas nos montes…
Ponte pênsil: raiz aérea
Transpondo a beleza abissal,
Avião a jato projetando
O abismo em vôo monumental.

Joaquim Cardozo




Pequena oferenda matinal

Brasília esplende de luz, na manhã.
Abre tua janela para o novo dia.
Saúda o Irmão Dia.
Saúda os Irmãos Pássaros na sua doce algazarra
pelas árvores e beirais.
Brasília, céu de clara porcelana azul.

Cada dia é um prêmio e um mistério.
Cada dia é uma luz nas tuas retinas.
Agradece ao Senhor essa luz de Brasília. (...)

Danilo Gomes




Brasília

Eu vi o sol de Brasília
à hora do nascer do sol:
bloco de topázio em prismas
alçado pelo anzol do céu
ali na faixa do horizonte
à altura de minhas mãos.
O sol sempre vai nascer
às mesmas horas de alvorada
com a mesma ardência o mesmo adejo
a mesma graça de alvorada
quando meus olhos forem cegos.

Eu vi a lua de Brasília
flutuando no aquário escuro.
Nenhuma lua vi maior
nem mais límpida em longitude
nem mais redonda em corola.
Era um jorrar de lua a flux
em águas vidros azulejos
mármores espaço à frente
relvas gramíneas buritis.
Uma lua vinda de outrora
que se perdera e se encontra
em novo giro agora fixo
para os amores que despontam.

Vi a galáxia de Brasília
pairando sobre a flor de pedra
da catedral em ofertório
Foi numa noite de mistério.
Os astros formavam códigos
senhas algarismos e siglas,
projetavam perfis
de Profeta Patriarca
Inventor Arquiteto
Construtor Operário Artista
A galáxia refluía à fonte:
são os astros de humana estirpe
entressonhados noite e noite
que coroam Brasília.

Henriqueta Lisboa



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