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O céu de todos nós

Agricultora de origem japonesa tem o firmamento como guia

Ela é moradora de Brazlândia, num lote a 1.038 metros acima do nível do mar

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postado em 21/04/2014 07:00 / atualizado em 20/04/2014 11:58

Thalita Lins

Janine Moraes/CB/D.A Press


A agricultora Yoko Mae Sugimoto, 76 anos, mantém há mais de meio século uma relação estreita com o céu de Brasília: desde 1963, ela e o marido, o japonês Toshichi Sugimoto, 79 anos, decidiram abandonar o Paraná para arrendar um terreno de quase 10 hectares no Incra 8, em Brazlândia. É lá, onde o casal vive a 1.038 mil metros acima do nível do mar, que Yoko — uma paranaense de apenas 1,44m de altura — divide o tempo entre as centenas de plantações dispersas em quatro hectares do lote e a cozinha de casa.

A miudeza da mulher de origem japonesa, o país conhecido como a Terra do sol nascente, não a impede de se sentir mais perto do firmamento brasiliense. Ela acompanha todo o andar da natureza: vê o amanhecer, assiste o sol a pino e o instante que marca o fim do dia. Cada momento é revelado à lavradora enquanto ela suja as mãos de terra e sua durante os trabalhos braçais.

Durante o plantio e a colheita, Yoko prefere deixar de lado chapéus de abas largas que dificultam a visão do mundo e usa bonés simples para se proteger dos raios solares. Quando na claridade, os olhos puxados da descendente nipônica ficam ainda mais cerrados, mas ela diz que não consegue viver longe do sol. “Minha alma é solar. Acho que é por isso que gosto tanto do céu daqui. Ele quase sempre brilha. Torço para ver todos os dias o céu límpido, sem nuvens. Quando olho para cima e vejo que ele está desse jeito, eu me sinto bem. Fora que é tão bom trabalhar ao ar livre”, revelou.

Yoko tem uma vista privilegiada da camada azul. “Aqui, não há tantas árvores nem prédios, então eu consigo ver o céu melhor e sinto o vento bater. Fora que não é poluído e parece que estou a poucos metros do céu”, acrescentou a agricultora.

O cuidado extremo com uma das culturas que planta é sinal do fascínio de Yoko pelos dias claros. Ela se compara às amoras pretas, que só vingam em tempos ensolarados. “Elas precisam de sol aberto. Sou muito parecida com elas por isso”, declarou a lavradora. Além da fruta silvestre, outros cultivos exigem a presença constante do astro-rei. “O quiabo, por exemplo, cresce o dobro com o sol. Fora que as coisas (comidas) ficam mais gostosas com a luz viva”, explicou ela, que prefere semear vegetais, legumes e frutas exóticas. Yoko diz que o clima e o solo de Brasília são propícios para a plantação dos mais variados itens.

Não é à toa que sempre houve uma influência astral na agricultura. Segundo a descendente de japoneses, em Brasília, é fácil constatar quando o dia será ensolarado ou chuvoso. Eu não sei bem explicar, mas a minha experiência de mais de 50 anos com a terra me faz saber disso. Eu pelejei e pelejo muito até hoje e olhe que eu nunca fui à escola”, orgulha-se a mulher que conheceu as letras decifrando bulas de remédios na época em que trabalhou, durante a adolescência, em um hospital católico de Londrina (PR).

Os pais da agricultora também viveram da terra. “Herdei essa paixão pela roça por causa deles. Nunca gostei de viver na cidade grande. Minha vida é aqui, em Brasília, e na área rural.” No terreno em Brazlândia, Yoko divide o solo com uma infinidade de culturas: basílico, nira, orégano, sálvia, taioba, salsa-crespa, tomilho, manjerona, alecrim, estragão, couve, brócolis, palmito-pupunha, cajá, manga, laranja, jaca, banana, cacau. O cheiro de cada tempero, fruta e vegetal impregna o terreno. “Boa parte eu vendo na Ceasa, mas algumas coisas planto só para subsistência”, disse ela.

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