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Geografia explica vista privilegiada do céu de Brasília

A capital está em uma região de grandes chapadões planos, marcada pela ausência de montanhas

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postado em 21/04/2014 07:00

Lucas Fadul

Fitar o céu de uma altitude acima do nível do mar não é o mesmo que fazê-lo no litoral. Os moradores da capital têm uma visão privilegiada de todo o espaço azul acima deles, graças à elevação do Planalto Central. A geografia e a topografia têm explicações para o fenômeno: a ocupação arquitetônica da cidade e o fato de ela estar situada em uma região de chapadões planos, marcada pela ausência de montanhas, proporcionam 180º de observação da abóbada celeste. Até a configuração das nuvens se apresenta, para os admiradores, de maneira única em localizações mais altas.

“A amplitude da paisagem decorre do fato de termos poucas estruturas típicas de relevo acidentado. Aqui, elas são aplainadas, o que permite a visualização mais ampla do céu”, ensina o geógrafo Gustavo Baptista, do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB). O volume compacto de boa parte dos edifícios da capital federal também contribuiu para que o horizonte esteja acessível aos olhos dos observadores.

Os brasilienses se acostumaram a ter uma visualização quase absoluta da abóbada celeste por causa da pouca quantidade de edifícios altos construídos na cidade. “Veja que os prédios das 400 são mais baixos, os das 200 estão numa altitude menor do que os das 300 e assim por diante. A arquitetura vai subindo e a visão é total”, observa o professor Flavio Bonfá, geógrafo formado pela Universidade de São Paulo (USP).

“Na maior parte das vezes, em planaltos, há menos nuvens, e, nas planícies, a quantidade delas é maior. Essa regra é válida para lugares onde há ocupação urbana por causa de fatores como a poluição e o calor exalado pelo concreto dos edifícios, que alteram qualquer clima”, afirmou ao Correio o topógrafo Max Silva. Segundo ele, o campo de visão do céu varia de acordo com a altura do terreno (veja arte). “Estar em um plano mais alto implica, sim, em interferência no que se vê: o ângulo de observação em Brasília é maior que no litoral brasileiro”, completou.

O clima do cerrado, denominado Tropical de Altitude, exerce uma influência fundamental na configuração do céu de Brasília. Ele é caracterizado pelas chuvas de verão e pela baixa umidade, o que torna o ar acima da cidade mais “limpo”, ou seja, com menor quantidade de partículas que atrapalhem a coloração azul durante o dia e a das estrelas à noite. Como o nome indica, ele é característico das regiões mais altas do Brasil (Sudeste e Centro-Oeste). De acordo com Bonfá, a evaporação dos oceanos produz uma quantidade inacreditável de umidade em suspensão. Esse material, que pode ser chamado de “rios voadores”, ao se deslocar para o interior do país, produz chuva no Planalto Central.

Em Brasília, a tonalidade azulada do céu ganha destaque por conta do clima seco. “A beleza, a amplitude e a cor estão relacionados à seca, que é causada pelo recuo da massa de ar Equatorial Continental. A pequena emissão de poluentes também é outro fator que ajuda”, assinala Telmo Ribeiro, mestre em geografia pela UnB.  “Principalmente no período de estiagem, caracterizado pela baixa umidade e pela ausência de nuvens, o céu fica amplamente azul”, completa Baptista. “Há pouco vapor durante boa parte do ano. A luz solar é branca, ou seja, tem todas as cores do arco-íris. Mas a coloração azulada, que é uma onda de menor amplitude, acaba prevalecendo e a pouca umidade em suspensão acentua esse tom”, assinala Bonfá.

“O céu azul de nuvens doidas da capital do país” retratado pelo cantor brasiliense Alexandre Carlo, vocalista da banda de reggae Natiruts, não se deve somente à altimetria e à distância dos oceanos. “A chegada de frentes frias faz com que a nebulosidade do ar se eleve e isso é sentido aqui e ao nível do mar”, ressalta Baptista. “A quantidade e a forma das nuvens estão ligadas a macrofatores, como a condensação local de vapor. Nessas situações, muitas vezes, são formados os chamados “cumulus”, aquelas nuvens em forma de algodão. Mas existem muitas outras”, acrescenta Bonfá.



"Estar em um plano mais alto implica, sim, em interferência no que se vê: o ângulo de observação em Brasília é maior que no litoral brasileiro”
Max Silva, topógrafo

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