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O céu de todos nós

Céu de Brasília despertou o misticismo de Clarice Lispector

Ninguém desvelou o espanto de uma cidade aberta para o universo melhor que ela: "Nunca vi nada igual no mundo"

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postado em 21/04/2014 07:00 / atualizado em 20/04/2014 11:51

Severino Francisco

Daniel Ferreira/CB/D.A Press


“Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. — É uma praia sem mar.— Em Brasília não há por onde entrar, nem por onde sair. Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza.” Quem lê as duas crônicas que Clarice Lispector escreveu sobre Brasília costuma perguntar: “Que droga essa mulher tomou?”. Não tomou nenhuma; foi tomada de assombro pela espacialidade da capital modernista. Ela era lisérgica pela própria natureza e não precisava de aditivos químicos para ter iluminações: “A inspiração não é loucura; é Deus”, escreveu.

Se, ao visitar Brasília, Nelson Rodrigues se ateve aos fatos pateticamente triviais, às moças fazendo xixi detrás das moitas nas estradas, ao pó do Planalto — que ele declarou sagrado —, Clarice dirigiu o olhar ao céu, ao mar de ponta-cabeça em movimento silencioso, ao cinema transcendental das nuvens, à luminosidade prateada dos dias, à magnitude das noites brasilianas e ao silêncio visual da cidade. Ela não faz muitas menções explícitas ao céu, mas ele está implícito em quase tudo que escreveu. Repete, frequentemente, o fato de Brasília ser uma cidade redonda, construída na linha do horizonte, assolada pelo esplendor de uma luz branca. É o espanto em face do espaço aberto que desencadeia as epifanias brasilianas de Clarice: “Aqui eu tenho medo, esse silêncio visual que eu amo.”

Se alguém quiser saber o que é Brasília, para além do cartão-postal ou da chapa-branca, precisa consultar os artistas. Eles revelaram a capital modernista, mesmo quando a passagem pela cidade foi fugaz. Em vez de frases feitas ou ideias prontas, sempre interagiram com a cidade, se deixaram marcar e imprimiram a marca do seu olhar. Clarice só veio a Brasília duas vezes, uma em 1962 e outra em 1974. No entanto, ela captou como ninguém a alma metafísica da cidade. Rubem Braga não gostava das crônicas de Clarice: “Ela só é boa em livro”, teria dito o capixaba. Mas ele se equivocou, não percebeu que Clarice inaugurou uma vertente original: a da crônica metafísica.

O próprio Braga reconheceu que operava com antenas de radinho galeno, mas Clarice tinha um arsenal mais poderoso de varredura e prospecção. Ela chegou a Brasília armada de ondas curtas, radares e satélites e captou a alma metafísica do Planalto, a sua natureza fluida, aérea e celeste: “Brasília é uma cidade abstrata. E não há como concretizá-la. É uma cidade redonda e sem esquinas. (…) “(Noto aqui um acontecimento que me espanta: estou escrevendo no passado, no presente e no futuro. Estarei sendo levitada? Brasília sofre de levitação.”)

A escolha do altiplano, com 360 graus de visão, pertinho do céu, foi o ato de criação mais genial de Brasília. Esse aspecto da natureza não passou despercebido a Lucio Costa e Oscar Niemeyer, arquitetos-artistas, que pegaram carona nesse presente dos deuses e conceberam uma cidade para realçar e inaugurar a paisagem: “Ao contrário de outras cidades, que se conformam e se ajustam à paisagem, no cerrado de céu imenso, como em pleno mar, a cidade criou a paisagem”, escreveu Lucio Costa. Clarice percebeu com agudeza o projeto dos arquitetos: “Construções com espaço calculado para nuvens.”

Clarice tinha na alma sibérias glaciais, desertos incomensuráveis, paisagens lunares, silêncios milenares e solidões de descampados. Por isso, identificou-se e assombrou-se tanto com Brasília; ela era a imagem de sua alma: “Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo do meu sonho. O mais fundo do meu sonho é lucidez. Brasília é uma estrela espatifada. É linda e nua. O despudoramento que se tem na solidão. Ao mesmo tempo fiquei com vergonha de tirar a roupa para tomar banho. Como se um gigantesco olho verde me olhasse implacável”.

O mais surpreendente é que identificamos perfeitamente a cidade real e concreta revelada por sua visão lisérgica: “A luz de Brasília me deixou cega. Esqueci os óculos no hotel e fui invadida por uma terrível luz branca. Mas Brasília é vermelha. E é completamente nua. Não há jeito da gente não ser exposta nessa cidade. (…) Eterna como a pedra. A luz de Brasília — estou me repetindo? — a luz de Brasília fere o meu pudor feminino. É só isso, minha gente, é só isso.”

O céu de Brasília em sintonia com a arquitetura de Lucio Costa e Oscar Niemeyer despertou o misticismo de Clarice: “Eu sei o que os dois quiseram: a lentidão e o silêncio, que é também a ideia que eu faço da eternidade.” A espacialidade de Brasília convida ao voo, ao exercício da liberdade e a respirar fundo: “Como a gente respira fundo em Brasília. Quem respira, começa a querer. E querer, é que não pode. Não tem. Será que vai ter?” Em outra crônica, escreveu que “respirava Deus”. Clarice revelou Brasília, mas Brasília também desvelou Clarice. Em nenhum outro lugar, ela respirou Deus tão profundamente: “Brasília é um pacto que eu fiz com Deus.”

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