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O céu de todos nós

Conheça a história da mulher que enxerga com os olhos da alma

Vera Magalhães, 77 anos, enxergou até os 35 anos. Desde então, imagina com as emoções as cores do firmamento e pinta os cabelos de vermelho

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postado em 21/04/2014 07:00 / atualizado em 20/04/2014 11:54

Verônica Machado - Especial para o Correio

Janine Moraes/CB/D.A Press



Engana-se quem pensa que os cegos não podem ver. A visão parte das emoções, do toque, do tom de voz, da imaginação. É o que pensa Vera Magalhães, que tem nas mãos um pouco de paina — fibras da paineira, tradicional árvore dos canteiros de Brasília. Ao sentir a textura macia, a funcionária pública lembra-se das nuvens e imagina o céu que quiser. Bate, então, a saudade de quando podia ver o azul intenso da capital. Há 42 anos, enxerga apenas cinza e pontos de claridade devido à doença na retina. Mas o olhar vai bem longe… Está atenta aos cuidados da família, aos passos de tango e gafieira, às informações sobre ciência e política, ao amor.

Ela manda uma das filhas colocar um samba no aparelho de som e convida qualquer um a arriscar uns requebrados no tapete. “Dançava muito e até me chamavam de dama de vermelho”, diz aos 77 anos. “Durmo e acordo mentalizando que sou saudável. Ajuda, sabia?”. E o bom-humor é a maior estratégia para levar a vida com a cegueira que lhe acometeu. Vera também se apoia nas lembranças de um tempo colorido e coleciona histórias memoráveis.

Foi de pau-de-arara que Vera chegou a Brasília em 1961, vindo de Correntina (BA). O pai, Severiano, morreu, e a mãe, Cordélia, viu na capital a esperança para construir uma vida nova. “Vi a renúncia de Jânio Quadros e vi João Goulart ser empossado. Vi as quadras 200 e 600 só mato. Vi ônibus apedrejados em 1964, ninguém sabia se chegava vivo em casa. Vi metralhadoras e canhões na Esplanada. Vi o enterro de JK, Brasília toda chorou naquele dia e chovia muito. Eu vi, eu vi”.

Vera era funcionária pública do Ministério da Justiça e construiu uma vida inteira na cidade. O presidente JK virou um símbolo de paz e progresso. “Ele foi um pai adotivo para mim e para minha família. Aqui, eduquei minhas cinco filhas”, diz. “Brasília é minha princesinha, uma filha”, acarinha com palavras a cidade que a acolheu. “E, claro, tem um céu lindo”, diz. “Se eu tivesse visão, eu seria a mulher mais feliz, só por ver esse céu de novo.”

Os cabelos pintados de vermelho forte, batom, maquiagem, vestido longo, brincos e colar adornam o corpo de 1,60m de altura e 49kg. “Eu não me vejo, mas as pessoas me veem”, explica. Em cinco minutos de conversa com Vera, raros são os que ainda reparam na cegueira dela tamanha a expressividade no rosto e na voz. “Enxergo pelas emoções”, explica.

Aos 16 anos, Vera começou a perder a visão e passou anos fingindo que via muito bem para não sair do trabalho e assim conseguir criar as filhas. Com 35, eram só vultos. Até que um dia, pegou desceu do ônibus, tropeçou em uma lixeira, machucou-se e decidiu nunca mais sair de casa sozinha. “É tão ruim, choro por dentro”. Se pudesse voltar a enxergar, veria a Catedral primeiro, e, em seguida, teria um encontro com Deus pela oração.

A doença retinose pigmentar não tem cura, mas cientistas ingleses estudam uma nova substância que pode reconstituir a retina e fazer o paciente voltar a enxergar. Vera não para de pensar na possibilidade de ir a Londres testar o tratamento. No entanto, ela não tem dinheiro suficiente e pede ajuda de familiares e amigos. “Quero conhecer as pessoas e ver meus netos. Tenho fé que vou ficar curada se me ajudarem a chegar até lá”.

Enquanto isso, vira o rosto para a janela e descreve o dia como pouco nublado, com nuvens espaçadas, azul claro. “Imagino que seja lindo como antes”, suspira. “Em Brasília, você pode ver a terra encontrando o céu no horizonte por causa dos poucos prédios, não tem preço.” As filhas concluem, categóricas: “Cegos somos nós. Ela enxerga longe”.

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