SAÚDE PÚBLICA

Sistema de saúde enfrenta sobrecarga na atenção à saúde mental

Crescimento contínuo da demanda por atendimento psiquiátrico e psicológico, desigualdade de acesso e falhas de cobertura deixam a atenção psicossocial no centro do debate público e exigem respostas duradouras

Serviços de atendimento em instituições como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) estão disponíveis para toda a população gratuitamente -  (crédito: Pedro Marra/CB/D.A. Press)
Serviços de atendimento em instituições como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) estão disponíveis para toda a população gratuitamente - (crédito: Pedro Marra/CB/D.A. Press)

A saúde mental ocupou, em 2025, um espaço central nas preocupações do sistema de saúde do país. A procura por atendimento psicológico e psiquiátrico segue em ritmo elevado, revelando limites históricos da rede pública e privada e projetando desafios ainda maiores para 2026. O cenário atual é marcado por filas prolongadas, dificuldade de acesso fora dos grandes centros urbanos e um modelo de cuidado que não acompanha a complexidade do sofrimento psíquico apresentado pela população.

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Dados oficiais e relatos de especialistas indicam que o aumento da demanda não se restringe a um grupo específico. Crianças, jovens, adultos e idosos aparecem nas estatísticas e nos serviços com necessidades distintas, mas atravessadas por um ponto comum: a insuficiência da cobertura. A concentração de profissionais em áreas urbanas, o subfinanciamento da saúde mental e a sobrecarga das equipes formam um conjunto de fatores que limita o alcance do atendimento e compromete a continuidade do cuidado.

Na prática, essa realidade se expressa em trajetórias individuais que ilustram um problema coletivo. Camila, de 32 anos, atua em regime remoto e convive com metas elevadas e jornadas extensas, cenário que desencadeou sintomas físicos e lapsos de memória antes mesmo da percepção de que precisava de ajuda especializada. Júlia, 24, recém-formada, enfrenta insegurança profissional, pressão constante nas redes sociais e ansiedade relacionada ao futuro, quadro frequente entre jovens adultos em início de carreira. Dona Mercedes, 72, vive sozinha e relata perda gradual do interesse por atividades cotidianas, situação que, muitas vezes, é naturalizada como parte do envelhecimento, retardando o acesso ao cuidado adequado (os sobrenomes não são citados para preservar a privacidade dos pacientes).

No atendimento clínico, profissionais observam que o sofrimento psíquico chega de forma fragmentada, nem sempre reconhecido como demanda legítima. O psicólogo Edison José, do Hospital Mantevida, explica que as pessoas costumam procurar ajuda a partir de queixas imediatas, mas o processo terapêutico revela questões mais amplas. "O profissional faz uma triagem para compreender quais demandas necessitam de maior atenção e qual o tipo de acompanhamento mais indicado, seja breve, seja de médio e longo prazos", explica. Segundo ele, apesar da redução gradual do preconceito, ainda persiste a ideia de que o atendimento psicológico deve gerar respostas rápidas, o que dificulta a adesão a processos mais consistentes.

A sobrecarga dos serviços impacta diretamente o diagnóstico e o acompanhamento em todas as idades. Edison José destaca que a pressão por vagas pode levar à priorização de situações consideradas urgentes, enquanto quadros que exigem tempo e abordagem multiprofissional ficam sem resposta adequada. "Quando os sintomas diminuem, o paciente pode interromper o tratamento, ou o atendimento pode ser encerrado para liberar espaço mesmo sem resolução da demanda", diz.

O psiquiatra Adiel Rios avalia que o cenário atual revela um atraso estrutural do sistema de saúde mental em relação à realidade social. Para ele, o volume de afastamentos do trabalho por transtornos mentais, registrado nos últimos anos, indica que o cuidado tem ocorrido de forma tardia e fragmentada. "Sem investimento contínuo em prevenção, atenção primária e acompanhamento regular, a tendência é de agravamento dos quadros e aumento do custo social", aponta.

Sinais de sofrimento

A pressão sobre a rede também distorce a leitura dos sinais de sofrimento. Irritabilidade persistente, insônia, fadiga sem causa aparente, isolamento progressivo e uso frequente de álcool aparecem com recorrência nos consultórios, mas ainda são pouco reconhecidos por famílias, escolas e ambientes de trabalho. Em crianças, dificuldades emocionais podem ser confundidas com problemas de comportamento ou aprendizado. Entre adolescentes, o sofrimento costuma ser tratado como fase passageira. Nos idosos, sintomas depressivos são frequentemente associados ao envelhecimento, o que atrasa intervenções e agrava o prognóstico.

Especialistas defendem que a resposta ao cenário de 2025 e às projeções para 2026 devem ser coletivas e estruturadas. A ampliação da Rede de Atenção Psicossocial, o fortalecimento dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), a integração entre serviços públicos e privados e a descentralização do atendimento são apontadas como medidas prioritárias. A inclusão do letramento emocional nas escolas e o reconhecimento dos riscos psicossociais nos ambientes de trabalho também são citados como estratégias eficientes de prevenção e cuidado contínuo.

Enquanto mudanças estruturais avançam de forma gradual, a orientação sobre acesso aos serviços permanece essencial. Em situações de crise imediata, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende pelo telefone 188, de forma gratuita e ininterrupta, e o Samu pode ser acionado pelo 192. Para acompanhamento pelo SUS, os CAPs funcionam como porta de entrada sem necessidade de encaminhamento médico, e as Unidades Básicas de Saúde (UBS) realizam o primeiro acolhimento. Clínicas-escola de universidades e atendimentos de valor social oferecidos por profissionais ampliam as alternativas para quem enfrenta barreiras na rede tradicional.

A saúde mental entra em 2026 como um dos principais desafios da agenda pública. O debate deixou de ser periférico, mas a distância entre reconhecimento e ação ainda é significativa. Garantir acesso contínuo, diagnóstico adequado e acompanhamento efetivo será determinante para que o cuidado deixe de ser exceção e passe a integrar, de forma consistente, a política de saúde no país.

*Estagiária sob a supervisão de Vinicius Doria

 


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postado em 01/01/2026 06:01
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