RELIGIÃO

Só 28% veem o Brasil como tolerante: por que a fé divide mais do que une?

Em 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, dados e especialistas mostram que o preconceito contra minorias de fé segue presente no país

"Assim como a cultura cristã deve ser respeitada, as culturas afros também merecem respeito", afirma Tata Ngunzetala, liderança afro do Candomblé Angola-Kongo - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

No Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro, em homenagem à Iyalorixá baiana Gildásia dos Santos — a Mãe Gilda de Ogum —, levantamentos recentes reforçam que o preconceito e a discriminação contra práticas de fé ainda são problemas no Brasil. É o que analisa uma pesquisa da Croma Consultoria “Oldiversity”, de Edmar Bulla, cujos dados mostram que apenas 28% dos brasileiros consideram o país tolerante, enquanto 35% o veem como intolerante.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Minorias religiosas enfrentam maior percepção negativa: 66% das pessoas LGBTQIAPN+, 61% das pessoas com deficiência e 54% das pessoas negras relatam preconceito. Entre maiores de 61 anos, o índice cai para 48%. A fé também influencia o consumo: 52% das pessoas LGBTQIAPN+ e 46% das pessoas com deficiência sentem impacto religioso em decisões de marcas. No campo social e político, 47% das pessoas negras e 44% das pessoas com deficiência percebem discriminação religiosa.

Para Agnaldo Cuoco Portugal, professor titular da UnB e especialista em filosofia da religião e da ciência, a data evidencia a luta contra a intolerância religiosa e a valorização do respeito à diversidade de crenças. “Por outro lado, mostra que ainda é preciso combater ações que contradizem esse valor, ou seja, que parte de nossa sociedade não está sendo coerente com um aspecto central da vida democrática”, contrapõe. 

Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), em 2025, o país registrou em 2024, 2.472 denúncias de casos de intolerância religiosa pelo Disque Direitos Humanos (Disque 100) — número que representa um aumento de 66,8% em comparação com os anos anteriores. “Nosso país tem altos índices de violência que se expressa das mais diversas maneiras e a intolerância religiosa é apenas mais uma de suas facetas”, resume Agnaldo Portugal. 

“Filosoficamente, um fator é a dificuldade de aceitar o outro como merecedor de respeito, que tem valor em si, independentemente de sua condição”, descreve. “A intolerância religiosa seria um aspecto desse problema ético geral. Outro elemento importante é o desconhecimento tanto do outro quanto da própria religião da qual se é adepto. A intolerância é normalmente fruto da ignorância sobre as outras religiões e da incoerência em vista das próprias crenças religiosas que se adotam.”

Vale lembrar que a crítica ou discordâncias de ideias é diferente do ataque e da violência a pessoas e espaços de culto. “O direito de se expressar, mesmo correndo o risco de se estar errado, deve ser assegurado em uma democracia. Mas o respeito às pessoas, à sua integridade física e moral, é um princípio fundamental da vida humana”, argumenta o filósofo. 

Embora as religiões normalmente defendam o respeito e a paz, a prática é diferente. “Um adepto do cristianismo que ataca o templo ou agride uma pessoa de outra religião não está sendo coerente com os próprios princípios cristãos”, analisa Portugal. “Nesse sentido, o problema não é a fé, mas o desconhecimento e a incoerência manifestado na ação de alguns adeptos, ou o uso da fé como rótulo para objetivos não religiosos, como obtenção de poder político ou riqueza material.”

Sobre o futuro, 36% dos brasileiros esperam mais tolerância, e 35% preveem aumento da intolerância, conforme a pesquisa. Católicos são ligeiramente mais otimistas (39%), evangélicos mais pessimistas (40%), e pessoas sem religião ainda mais (45% esperam retrocesso). Entre LGBTQIAPN+, 52% veem intolerância, mas 40% acreditam em melhora futura. A pesquisa ouviu 2 mil brasileiros entre 19 e 28 de agosto de 2025, com margem de erro de 2 pontos percentuais e confiança de 95%, incluindo entrevistas adicionais por etnia, orientação sexual e deficiência.

Ancestralidade africana 

Tata Ngunzetala, liderança afro do Candomblé Angola-Kongo, opina que este 21 de janeiro serve para dar visibilidade a lutas silenciadas. “Tem que valer para todos os lados. Assim como a cultura cristã deve ser respeitada, as culturas afros também merecem respeito” defende. Para o religioso, a questão educacional na diversidade é fundamental. “Mostrar como é que se formam as matrizes brasileiras e que essas matrizes não implicam só em cor de pele”, ilustra. Após a educação, cabe ao legislativo aplicar leis que protegem comunidades constantemente violadas. 

Sendo o Brasil um país diverso em origens étnicas, especialmente durante o período escravocrata, Ngunzetala afirma que o país nasceu como um império cristão, e que registra atualmente a maior diversidade religiosa da história. No entanto, ele observa que as divergências de fé não são encaradas com normalidade, e o legado espiritual dos povos colonizados ainda é demonizado: “Em tese, o conceito cultural predominante é que todo mundo deve ser cristão, independente da origem que tem.” Conviver dentro da normalidade, sem ser tratado como algo exótico ou mesmo ser alvo de violências, é um desafio a ser superado, de acordo com Ngunzetala. 

Religião e colonização do Brasil

Historiador pela UnB e especialista em mitologias, Pedro Affonso reforça que, segundo o IBGE, mais de 80% da população brasileira se identifica como cristã, enquanto o restante se distribui entre diversas outras religiões. “Desde o período colonial, o Brasil esteve submetido a mecanismos de repressão religiosa. Houve atuação da Inquisição, por meio do Tribunal do Santo Ofício, um órgão inquisitorial de Portugal”, explica os fatores que culminaram no cenário atual. 

Ao mesmo tempo, o território brasileiro formou-se como um espaço de grande diversidade religiosa. O historiador lembra que, entre os colonizadores, havia também pessoas de ascendência judaica e muçulmanos, refletindo a diversidade existente na Península Ibérica. “Com a escravização, chegaram ao Brasil africanos muçulmanos e outros que praticavam religiões tradicionais do continente africano. Já os povos indígenas possuíam sistemas religiosos próprios, muitos dos quais tiveram práticas parcialmente documentadas, como o uso ritual do tabaco, presente até hoje em tradições como a Umbanda”, registra. 

Conforme evoca Affonso, a postura das instituições europeias no período colonial era a catequização dos povos indígenas, com o objetivo de integrá-los à sociedade colonial por meio da cristianização. “Esse processo foi conduzido principalmente pelos jesuítas, como amplamente ensinado na educação formal. Trata-se de uma inclusão forçada, que não oferecia alternativas reais aos povos indígenas”, expõe.

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

Esse histórico moldou profundamente a demografia religiosa brasileira. “A Inquisição permaneceu ativa até o século 18, e o reconhecimento jurídico da liberdade religiosa foi extremamente tardio. Durante grande parte da história nacional, religiões não cristãs só podiam ser praticadas no âmbito privado. A garantia plena da liberdade religiosa, inclusive em espaços públicos, é consolidada apenas com a Constituição de 1988”, recorda. “Esse avanço lento está diretamente relacionado ao fato de que os diferentes regimes políticos brasileiros (colonial, imperial, militar ou democrático) sempre foram conduzidos majoritariamente por lideranças cristãs. Nunca houve, de forma significativa, representatividade política de outras tradições religiosas no poder público.”

Affonso acrescenta que a falta de representatividade religiosa no poder não implica necessariamente a intolerância, mas indica que raramente houve interesse institucional em incluir, na legislação e nas políticas públicas, religiões que são minoritárias no país. “Apesar de o Brasil ser oficialmente um Estado laico, existe uma bancada evangélica que ocupa uma parcela expressiva do Congresso. O problema não está na representação dos evangélicos em si, mas na ausência de representações equivalentes de religiões como a umbanda, o budismo, o espiritismo ou das diversas religiões indígenas ainda vivas no país”, opina. 

O historiador exemplifica também a instrumentalização do cristianismo para a prática de violência, cujas principais vítimas são as religiões de matriz africana. “Esse cenário se conecta diretamente ao debate sobre racismo religioso, evidenciando que algumas crenças são mais toleradas do que outras, de acordo com sua origem histórica e racializada”, conclui. 

 

  • Google Discover Icon
postado em 21/01/2026 12:24 / atualizado em 21/01/2026 12:27
x