ESTUDO

Tecnologia facilita abuso sexual de 3 milhões de adolescentes no Brasil, diz UNICEF

Relatório aponta que 1 em cada 5 jovens de 12 a 17 anos foram vítimas de abuso ou exploração sexual facilitados por ferramentas digitais em apenas um ano

Dados indicam que vítimas de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia têm cinco vezes mais chances de se automutilar ou apresentar pensamentos suicidas, afetando tanto meninas quanto meninos. -  (crédito: Reprodução/Freepik)
Dados indicam que vítimas de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia têm cinco vezes mais chances de se automutilar ou apresentar pensamentos suicidas, afetando tanto meninas quanto meninos. - (crédito: Reprodução/Freepik)

Em apenas um ano, um em cada cinco adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos foi vítima de exploração e/ou abuso sexual facilitados pelo uso de tecnologias digitais. O dado, equivalente a cerca de 3 milhões de meninas e meninos, faz parte do relatório Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia, divulgado nesta quarta-feira (4/3).

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O estudo foi produzido pelo UNICEF Innocenti, em parceria com a ECPAT International e a INTERPOL, com financiamento da iniciativa global Safe Online. A pesquisa reúne evidências sobre como ferramentas digitais, como redes sociais, jogos online e aplicativos de mensagens, estão sendo usadoa para facilitar crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes.

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A violência sexual “facilitada” pela tecnologia ocorre quando dispositivos ou plataformas digitais são utilizados em alguma etapa do abuso ou da exploração. Isso pode acontecer desde o aliciamento e a extorsão da vítima até a produção, armazenamento ou disseminação de material de abuso sexual infantil. Em muitos casos, o crime ocorre totalmente no ambiente virtual. Em outros, envolve interações online que levam a encontros presenciais ou ainda situações físicas registradas e compartilhadas por meio da tecnologia.

Entre as situações mais recorrentes identificadas pela pesquisa, a exposição a conteúdo sexual não solicitado aparece como a forma mais comum de violência, atingindo 14% das crianças e adolescentes entrevistados. Em quase metade dos casos (49%), o agressor era alguém conhecido da vítima.

Outro dado preocupante é o silêncio que cerca esses episódios: 34% das crianças e adolescentes que sofreram violência sexual facilitada pela tecnologia não contaram o ocorrido a ninguém.

Segundo Joaquin Gonzalez-Aleman, representante do UNICEF no Brasil, o estudo mostra que os riscos estão presentes tanto nas interações online quanto nas relações cotidianas das vítimas.

“Compreender essas dinâmicas é essencial para fortalecer políticas públicas, aprimorar mecanismos de proteção e promover respostas coordenadas entre governos, Sistema de Justiça, setor privado, plataformas digitais e sociedade civil. O objetivo é garantir que crianças e adolescentes possam exercer seus direitos no ambiente online de forma segura, protegida e livre de violências”, afirmou.

Para Mark Beavan, chefe da Unidade de Crimes contra Crianças da INTERPOL, os resultados da pesquisa devem orientar ações mais firmes de enfrentamento ao problema. “As conclusões, baseadas em evidências, estão fornecendo às forças de segurança recomendações práticas e apoio direcionado. Esses esforços contribuem para a implementação, pelo Brasil, das resoluções globais da INTERPOL sobre crimes contra crianças”, disse.

Redes sociais e aplicativos estão entre os principais meios

O levantamento mostra que, em 66% dos relatos, a violência ocorreu por meio de canais digitais. Entre eles, redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas aparecem em 64% dos casos, enquanto jogos online correspondem a 12% das ocorrências.

Entre as plataformas mais citadas pelas vítimas, Instagram (59%) e WhatsApp (51%) aparecem com destaque como ferramentas utilizadas pelos agressores para se aproximar ou interagir com crianças e adolescentes.

Em 26% das situações, o agressor era uma pessoa desconhecida. Já 25% das vítimas não conseguiram ou não quiseram identificar quem cometeu o crime, o que evidencia as dificuldades de denúncia, especialmente quando há anonimato nas interações digitais.

Mesmo quando o agressor é conhecido, a tecnologia costuma desempenhar papel central. Entre os casos em que a vítima conhecia o autor da violência, 52% relataram que o primeiro contato aconteceu online. Outras situações indicaram primeiros contatos na escola (27%), na casa da própria criança (11%) ou em locais de prática esportiva (2%), mostrando como os ambientes digitais e presenciais se sobrepõem.

De acordo com Marium Saeed, especialista em pesquisa do escritório de Estratégia e Evidência do UNICEF Innocenti, a tecnologia não cria necessariamente novas formas de violência, mas amplia práticas que já existiam. “As tecnologias digitais não estão necessariamente criando formas totalmente novas de violência. Em vez disso, elas muitas vezes facilitam e ampliam formas já existentes de exploração e abuso”, explicou.

Uso de inteligência artificial também preocupa


O relatório também chama atenção para o uso de inteligência artificial generativa na criação de material de abuso sexual infantil.

Segundo a pesquisa, 3% das crianças e adolescentes entrevistados relataram que alguém utilizou IA para criar imagens ou vídeos de conteúdo sexual com sua aparência. O fenômeno está relacionado à prática conhecida como deepfake, em que rostos ou corpos são manipulados digitalmente para gerar conteúdos falsos.

O UNICEF já alertou anteriormente que a criação e disseminação desse tipo de material também configura violência sexual e pode provocar impactos profundos na vida das vítimas.

Para Andreia Varrella, chefe do Programa Justiça e Direitos da Criança da ECPAT International, o Brasil já possui legislação importante para enfrentar esse tipo de crime, mas ainda há desafios na aplicação das normas.

“O Brasil construiu uma base legal sólida para proteger e cuidar de crianças submetidas à exploração e ao abuso sexual facilitados pela tecnologia. O que a pesquisa revela são lacunas na forma como a lei é implementada”, afirmou Andreia.

Ofertas de dinheiro e exploração de vulnerabilidade

A pesquisa também identificou situações em que criminosos se aproveitam de dificuldades econômicas enfrentadas por famílias.

Em apenas um ano, 5% das crianças relataram ter recebido ofertas de dinheiro ou presentes em troca do envio de fotos ou vídeos de conteúdo sexual, enquanto 3% disseram ter recebido propostas semelhantes para encontros presenciais com finalidade sexual.

Apesar dessas situações, o estudo não encontrou diferença estatisticamente significativa entre vítimas de áreas urbanas ou rurais, nem em relação à escolaridade das crianças ou dos pais.

Além da violência em si, o estudo destaca os efeitos duradouros sobre a saúde mental das vítimas. Crianças e adolescentes que passaram por esse tipo de situação relatam ansiedade constante, medo, retração social e sentimentos de culpa.

Dados da pesquisa indicam que vítimas de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia têm mais de cinco vezes mais chances de se automutilar ou apresentar pensamentos suicidas, afetando tanto meninas quanto meninos.

Entre os motivos para não denunciar, 22% disseram não saber a quem recorrer, 21% citaram vergonha, 16% relataram medo de não serem acreditados e 7% temiam que outras pessoas descobrissem o ocorrido.

Também aparecem como barreiras não saber como registrar denúncia (18%), ameaças feitas pelo agressor (17%) e desconhecimento de que a situação configura crime (15%).

Recomendações para enfrentar o problema

O relatório defende que prevenir e enfrentar a exploração sexual infantil facilitada pela tecnologia exige ações coordenadas entre diferentes setores da sociedade.

Entre as recomendações estão:

  • fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente;
  • atualização de leis diante dos desafios das tecnologias emergentes;
  • inclusão de educação sobre consentimento e proteção digital nas escolas;
  • capacitação de profissionais da rede de proteção;
  • criação de salvaguardas mais eficazes nas plataformas digitais;
  • ampliação da divulgação de canais de denúncia acessíveis e seguros.

Segundo Marija Manojlovic, diretora executiva da Safe Online, o objetivo é transformar dados em ações concretas de proteção. “A pesquisa oferece evidências claras sobre como as crianças vivenciam os danos online e um roteiro prático para fortalecer a resposta nacional”, afirmou.

O estudo foi baseado em 1.029 entrevistas com crianças e adolescentes de 12 a 17 anos e 1.029 entrevistas com pais ou responsáveis, realizadas em visitas domiciliares entre novembro de 2024 e março de 2025.

As perguntas abordaram experiências ocorridas nos 12 meses anteriores à participação no estudo. A pesquisa também incluiu entrevistas com jovens de 16 a 24 anos que sofreram abuso antes dos 18, além de profissionais do sistema de Justiça e de segurança pública.

O levantamento utilizou um desenho amostral de probabilidade aleatória em três estágios e alcançou 95% de cobertura do trabalho de campo no Brasil.

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postado em 06/03/2026 07:52 / atualizado em 06/03/2026 08:18
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