Violência e discriminação

Pesquisa revela violência frequente contra mulheres trans e travestis no Brasil

Segundo levantamento do DataSenado/Nexus, agressões, discriminação e exclusão fazem parte da rotina de mulheres trans e travestis. Baixa procura por ajuda é associada ao medo de sofrer novas violências institucionais

Dados mostram que 56% das mulheres trans participantes vivenciaram algum tipo de violência no último ano
 -  (crédito: Daniel James/ Unsplash)
Dados mostram que 56% das mulheres trans participantes vivenciaram algum tipo de violência no último ano - (crédito: Daniel James/ Unsplash)

Mulheres transexuais e travestis convivem frequentemente com situações de violência, preconceito e exclusão no país. É o que revela a 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado, com coleta da Nexus. Mais da metade das entrevistadas relatou experiências compatíveis com agressões nos últimos 12 meses.

O levantamento, que passa a integrar o Mapa Nacional da Violência de Gênero do Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), ouviu 43 mulheres trans e travestis e busca ampliar a produção de informações sobre um grupo ainda pouco contemplado nas estatísticas oficiais. Segundo a pesquisa, 24 participantes, o equivalente a 56%, vivenciaram algum tipo de violência no último ano. Entre os episódios mais citados estão agressões verbais relacionadas à identidade de gênero, mencionadas por 40% das entrevistadas. Outras 17% afirmaram ter sofrido agressões físicas e 12% relataram violência sexual.

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Apesar disso, apenas quatro mulheres, correspondentes a 9% da amostra, reconheceram explicitamente terem sido vítimas de violência de gênero. A diferença entre os números foi associada pelos pesquisadores à naturalização das agressões no cotidiano dessas mulheres.

O relatório também identificou a presença frequente de violência doméstica e familiar. Quase metade das entrevistadas, 47%, afirmou já ter sido vítima desse tipo de agressão, enquanto 77% disseram conhecer alguma amiga, familiar ou pessoa próxima que passou pela mesma situação. Entre as mulheres que sofreram violência doméstica, 95% relataram violência psicológica, 80% citaram agressões físicas e morais, 45% sofreram violência sexual e 40% tiveram prejuízos patrimoniais.

Os impactos atingem diferentes áreas da vida: 70% afirmaram que as agressões prejudicaram a convivência social, 55% tiveram a rotina afetada, 45% relataram consequências na vida profissional e 35%, nos estudos.

De acordo com Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número, “Quando agressões, humilhações, discriminações e situações de exclusão passam a fazer parte da rotina, elas podem deixar de ser percebidas como violência”. Os tipos de violência mais mencionados pelas entrevistadas foram a psicológica e a física.

Além das agressões, a pesquisa mostra que a discriminação em espaços públicos e serviços essenciais faz parte da experiência de muitas mulheres trans e travestis. Mais da metade das entrevistadas, 54%, afirmou ter se sentido desconfortável em locais públicos no último ano. O estudo aponta ainda que 38% sofreram mau atendimento em órgãos públicos por serem mulheres trans, 27% enfrentaram situações semelhantes em serviços de saúde e 20% foram impedidas de acessar espaços públicos. Também houve relatos de exposição de dados pessoais na internet, situação mencionada por 12% das participantes.

As experiências de desrespeito refletem na busca reduzida por apoio institucional. Das 32 mulheres que disseram ter vivenciado pelo menos uma dessas situações, apenas três procuraram serviços de proteção à mulher. Embora todas tenham afirmado ter recebido atendimento, os pesquisadores destacam que a baixa procura pode estar relacionada à percepção de que órgãos públicos e serviços estatais também reproduzem constrangimentos e discriminações.

*Estagiária sob supervisão de Andreia Castro

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postado em 23/06/2026 14:47 / atualizado em 23/06/2026 15:03
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