Direitos humanos

Família é resgatada após 18 anos de trabalho análogo à escravidão no Ceará

Caseiro, esposa e filhos foram retirados de propriedade rural em Aquiraz após fiscalização identificar vínculo sem registro, moradia precária e insegurança alimentar extrema

Família sofria insegurança alimentar e tinha apenas macarrão instantâneo disponível -  (crédito:  Reprodução)
Família sofria insegurança alimentar e tinha apenas macarrão instantâneo disponível - (crédito: Reprodução)

Uma rotina de trabalho sem registro, salário irregular e direitos básicos terminou após uma operação da Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT) resgatar um caseiro e a família dele de uma situação análoga à escravidão em Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza (CE). O trabalhador vivia na propriedade havia cerca de 18 anos ao lado da esposa e dos filhos, em condições marcadas por falta de alimentação, moradia precária e sucessivos períodos de vulnerabilidade.

No momento da fiscalização, a família tinha apenas um macarrão instantâneo para comer. O resgate ocorreu um dia antes da operação que encontrou uma mulher mantida por 55 anos como empregada doméstica sem receber salário em Eusébio, município vizinho.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Segundo a fiscalização, o trabalhador deixou sua cidade de origem depois de receber a promessa de um emprego formal, com carteira assinada, pagamento de um salário mínimo, cesta básica e melhores condições de vida para a família. Nada do que havia sido combinado foi cumprido.

O vínculo nunca foi registrado e os pagamentos passaram a ser feitos de forma irregular, em valores inferiores ao acertado. Durante a pandemia da covid-19, a renda ficou ainda mais reduzida e instável. Em depoimento aos auditores, o caseiro e a esposa relataram que dependiam da ajuda de vizinhos e familiares para conseguir alimentos, cenário confirmado por testemunhas.

Além de morar na propriedade, o trabalhador era responsável por praticamente toda a manutenção do local. Entre as atividades desempenhadas estavam limpeza e conservação das áreas externas, poda de árvores, corte de grama, irrigação, adubação de plantas, limpeza da piscina e operação de equipamentos, sem treinamento adequado e sem equipamentos de proteção individual.

A residência da família também apresentava infiltrações e danos estruturais. Conforme o relatório da AFT, os próprios moradores improvisaram reparos para reduzir os riscos provocados pela falta de manutenção. Quando chegaram ao imóvel, havia apenas um pequeno refrigerador, e boa parte dos móveis foi conseguida por meio de doações ou de materiais descartados.

Patrão

Após o resgate, a família foi retirada da propriedade e encaminhada para um imóvel alugado. O empregador assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho (MPT), reconhecendo as irregularidades e assumindo o compromisso de regularizar parte das obrigações trabalhistas.

No entanto, como não havia documentos que comprovassem todo o período da relação de trabalho, a Auditoria-Fiscal do Trabalho adotou setembro de 2008 como marco inicial do vínculo para calcular créditos trabalhistas, previdenciários e fundiários. Já o empregador reconheceu apenas o período entre julho de 2020 e junho de 2026.

O termo firmado estabelece que a indenização paga não representa quitação total dos direitos do trabalhador, permitindo que a Justiça analise posteriormente o reconhecimento de todo o período alegado pelo caseiro e dos valores eventualmente devidos.

*Estagiária sob a supervisão de Andreia Castro

 

  • Google Discover Icon
postado em 13/07/2026 16:27 / atualizado em 13/07/2026 16:30
x