
O iFood denunciou a Keeta ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e pediu a abertura de um processo para investigar a atuação da empresa no mercado brasileiro de delivery. A plataforma, controlada pela chinesa Meituan, é acusada de adotar preços abaixo dos custos para conquistar espaço e dificultar a atuação de concorrentes.
Na representação, protocolada nesta segunda-feira (31/8), o iFood também pede que o Cade determine a interrupção imediata das práticas enquanto a investigação estiver em andamento. A empresa afirma ter apresentado evidências de que a Keeta opera com prejuízo por pedido no Brasil e utiliza recursos da matriz chinesa para financiar a expansão.
Segundo o iFood, a estratégia inclui cupons de até R$ 250 e descontos de até 80%. A empresa argumenta que essas ofertas aumentam o número de pedidos, mas não necessariamente representam um crescimento real dos gastos dos consumidores. Restaurantes, por outro lado, aumentariam sua capacidade para atender uma demanda que pode ser influenciada pelos descontos.
A empresa cita como exemplo o mercado chinês, onde a Meituan atua. Um estudo da Universidade Fudan apontou que, durante o auge da disputa por subsídios em 2025, o número de pedidos dos restaurantes cresceu 7%, enquanto a receita efetivamente recebida caiu 4%. Segundo informações da imprensa chinesa citadas na representação, restaurantes foram fechados e a renda mensal de entregadores caiu entre 30% e 50%.
O que o iFood pede ao Cade
A representação solicita três medidas principais: a abertura de um processo administrativo contra a Keeta, a adoção de uma medida preventiva para interromper a prática de preços abaixo dos custos e o acesso periódico do Cade aos dados de custos e preços da plataforma.
O iFood afirma que a intervenção precisa ocorrer rapidamente porque, em outros países, a saída de concorrentes teria acontecido em poucos meses, antes da conclusão de processos de investigação.
O argumento da empresa também se apoia em uma nota técnica publicada pelo próprio Cade em junho de 2026. Segundo o iFood, o Departamento de Estudos Econômicos do órgão alertou para os riscos da atuação de empresas com capacidade financeira muito superior à de seus concorrentes.
Esse tipo de empresa é descrito como tendo "deep pockets", expressão usada para indicar que uma companhia tem recursos suficientes para operar abaixo dos custos durante um período prolongado, com o objetivo de conquistar mercado e, posteriormente, fortalecer sua posição.
A análise econômica apresentada pelo iFood, feita pela consultoria Compass Lexecon, afirma que a Keeta registra perdas relevantes por pedido no Brasil e que esses valores são financiados pelo caixa da Meituan.
Experiência em outros países
O iFood também cita o que aconteceu em outros mercados onde a Keeta começou a operar. Em Hong Kong, a empresa teria alcançado mais de 50% do mercado antes da saída da Deliveroo. Depois disso, as comissões cobradas dos restaurantes teriam passado de 15% para entre 30% e 35% em menos de um ano.
No Kuwait, um concorrente local encerrou as atividades dois meses depois da entrada da Keeta. A representação também menciona precedentes na Arábia Saudita e no Qatar.
Segundo o iFood, esses mercados tiveram uma sequência semelhante: descontos agressivos durante a entrada da plataforma, saída de concorrentes e, depois da consolidação da Keeta, aumento das comissões cobradas dos restaurantes. A empresa afirma que o Brasil ainda está no início desse processo.
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O que diz a legislação
O pedido do iFood tem como base o artigo 36 da Lei nº 12.529/2011, que trata da defesa da concorrência no Brasil. A legislação considera infração contra a ordem econômica práticas que tenham como objetivo dominar o mercado ou eliminar concorrentes, incluindo a prestação de serviços abaixo dos custos em determinadas circunstâncias.
A representação também cita o artigo 84 da mesma lei para pedir uma medida preventiva antes do fim da investigação. O iFood argumenta ainda que a Keeta não precisa ter uma posição dominante no mercado para ser investigada. Segundo a empresa, a capacidade financeira muito maior que a de concorrentes e o uso desses recursos para impedir o crescimento de outras plataformas já justificariam a análise do Cade.
O iFood também usa os resultados financeiros da Meituan para sustentar a denúncia. A empresa encerrou 2025 com aproximadamente US$ 23 bilhões em reservas de caixa e acumulou prejuízo de US$ 3,4 bilhões no ano.
Em teleconferências com investidores realizadas em 2025, executivos da Meituan afirmaram que a expansão internacional estava entre os principais fatores para o aumento das perdas operacionais. Também disseram que as perdas "permanecerão substanciais" em 2026, com a entrada em novos mercados, incluindo o Brasil.
Para o iFood, os recursos disponíveis permitem que a Keeta mantenha uma política de descontos incompatível com um crescimento baseado apenas em eficiência.
A empresa também cita medidas adotadas na China. Em 2021, a Meituan foi multada em 3,44 bilhões de yuans por práticas anticoncorrenciais. Em junho de 2026, o regulador chinês propôs novas regras contra o uso de vantagem financeira para concorrência desleal e contra a venda abaixo do custo. A Meituan declarou apoio às novas regras.
O iFood afirma que, com menos recursos sendo gastos no mercado chinês, a Meituan teria mais capacidade para financiar sua expansão internacional. "É uma pena que tenhamos que desviar recursos que poderiam ser empregados para o setor evoluir, para fazer frente a uma guerra de subsídios que não se sustenta pelo mérito, pela melhor tecnologia, pelo melhor serviço ou pela melhor experiência para quem usa a plataforma", afirmou Lucas Pittioni, vice-presidente jurídico do iFood.
Ao final do processo, o iFood pede que o Cade condene a Keeta por violação à ordem econômica e determine a interrupção definitiva das práticas questionadas. "O Brasil tem a oportunidade de agir antes que o dano se consolide", afirmou Pittioni. Segundo ele, o pedido busca garantir condições iguais de concorrência no mercado brasileiro de delivery.
Posicionamento da Keeta
Em nota, a Keeta contestou a representação apresentada pelo iFood ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e afirmou que o mercado brasileiro de delivery é concentrado e marcado por práticas de exclusividade.
Segundo a empresa, o setor é "bloqueado e disfuncional há anos". A Keeta cita um estudo do próprio Cade para afirmar que o mercado tende à concentração e possui cláusulas de exclusividade que dificultam a atuação de uma mesma empresa em diferentes plataformas.
A empresa também afirma que o iFood controla mais de 80% do mercado brasileiro de delivery de comida. Para a Keeta, essa concentração reduz as opções de restaurantes, limita as oportunidades de renda para entregadores e resulta em serviços mais caros e de menor qualidade para consumidores.
Sobre a denúncia apresentada pelo iFood, a Keeta afirma que a iniciativa seria uma tentativa de desviar a atenção de uma investigação envolvendo a concorrente. Segundo a empresa, o iFood teria descumprido um acordo firmado com o Cade sobre regras de exclusividade.
A Keeta afirmou que ainda não foi oficialmente notificada sobre a representação apresentada pelo iFood, mas disse estar disposta a fornecer ao Cade as informações necessárias para a análise do caso.
Nota na íntegra
O mercado brasileiro de delivery de comida permanece bloqueado e disfuncional há anos, como demonstrado inclusive em um estudo do CADE, que destaca um setor que tende à concentração e é marcado por exclusividades que impedem o multi-homing. Este é o único mercado no mundo caracterizado por um monopólio, com um único player controlando mais de 80% do segmento. Como resultado, os restaurantes ficam impedidos de escolher livremente parceiros de plataforma para diversificar seus canais de venda, os entregadores parceiros têm menos oportunidades de geração de renda e os consumidores pagam mais por serviços de menor qualidade.
Esta nova ação é uma clara estratégia monopolista para tentar desviar a atenção das autoridades da investigação à qual foram alvo, descumprindo o acordo que assinaram com o CADE em relação às exclusividades que prejudicam gravemente o mercado. A Meituan conta com a melhor tecnologia e expertise construídas ao longo de mais de 15 anos de liderança no mercado de delivery de comida na China, que estamos trazendo para o Brasil para o benefício de consumidores, restaurantes e entregadores parceiros. A Keeta lançou operações no país há menos de 1 ano, em outubro de 2025, quando iniciamos nosso piloto em Santos e São Vicente, e o iFood, que detem o monopólio do mercado, está presente em milhares de cidades, claramente parece com medo da livre concorrência.
A Keeta, como uma marca que entrou recentemente no país, em um setor marcado por cláusulas de exclusividade e banimento, utiliza cupons para incentivar a experimentação inicial. Nosso foco é conquistar e reter consumidores por meio da qualidade, confiabilidade e experiência oferecidas pela plataforma. Também garantimos a participação opcional em campanhas, dando a cada restaurante total controle sobre como e quando participar.
O uso de cupons é uma prática comum do mercado e é utilizada por todos os players, incluindo o próprio iFood, que inclusive os vende por meio do Clube iFood.
O setor precisa urgentemente de decisões que promovam um mercado aberto para o benefício de todo o ecossistema, possibilitando o crescimento sustentável, criando mais oportunidades para restaurantes e parceiros de entrega, preservando a escolha do consumidor e acelerando a inovação.
A Keeta ainda não foi notificada sobre esta ação e está disposta a fornecer todas as informações necessárias às autoridades antitruste para construir um mercado aberto e justo no Brasil.

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