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Amor para toda hora: conheça histórias de relojoeiros da capital

Mestres em uma profissão quase não lembrada, mas muito especial, os relojoeiros do Distrito Federal seguem trazendo vida ao ofício, em uma paixão avassaladora por consertar relógios

 22/12/2025. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Profissão de relojoeiro em alta no mercado. Ednalva Dantas -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
22/12/2025. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Profissão de relojoeiro em alta no mercado. Ednalva Dantas - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Na capital da República, o tempo passa rápido. Mas enquanto alguns correm contra o relógio, outros dedicam horas para consertá-lo. Em um pequeno quiosque amarelinho, na 514 Sul, uma paixão da juventude faz engrenagens voltarem a girar. "Quando eu tinha 12 anos, meu irmão tinha um relógio que quebrou e acabou guardado no fundo de uma mala. Eu peguei o objeto e comecei a mexer. No fim, quebrei ainda mais, mas achei aquilo interessante", conta João Carlos Lima, 71, dono da Relojoaria do Carlos. "O tempo passou e, aos 22 anos, comecei a gostar de verdade de relógios."

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Para se especializar, fez um curso por correspondência no Instituto Universal Brasileiro, com duração de seis meses. "Enviei todas as respostas pelos Correios e, ao fim, recebi o diploma."

Em 1978, Carlos foi trabalhar com o cunhado, que tinha uma relojoaria, e em 1980 instalou o próprio negócio. "São 45 anos trabalhando com relógios. Mas só depois de 30 anos de carreira, eu me tornei profissional e me senti seguro no que estava fazendo", relata. 

Foram anos de muitos aprendizados e desafios para o especialista. Mesmo que considere que o trabalho "não é difícil", já passou por alguns perrengues. "Uma vez, um senhor me trouxe um relógio para consertar. Fiquei oito dias com ele. Montei, desmontei, montei de novo e ele não funcionava por nada. O cliente veio buscar e eu ainda não tinha conseguido arrumar o relógio. Quando ele foi pegar, deixou cair no chão. Na hora, ele voltou a funcionar e nunca mais parou", relembra, rindo.

"A cada dia que passa, mais eu me apaixono. Não me canso de montar e desmontar relógios", conclui, com sorriso no rosto. 

Paixão de gerações

Francisco Dantas abriu a Relojoaria Dantas alguns anos depois da inauguração de Brasília, em 1963. O amor pela profissão veio de família: o pai e os irmãos consertavam relógios. Após o pai morrer, os filhos e a esposa assumiram a loja. "Quando meus filhos eram pequenos, nos horários opostos do colégio, eu ficava aqui com eles. Isso foi bom, porque eles viam o pai e os funcionários consertando e aprenderam por observação. Quando tinham dúvidas, perguntavam: 'Papai, esse aqui está certo?'", lembra Edinalva Dantas. 

Francisco Dantas Júnior, 46, hoje toma conta da loja do pai com muito afinco. Ele conta que o interesse em consertar relógios foi natural. "Desde pequeno, tive facilidade com mecanismos. Meu pai percebeu isso porque eu desmontava brinquedos e outras coisas. Ele também tinha o hábito de comprar carros e fazer a manutenção, o que me influenciou. Aos 16 anos, ele me incentivou a trabalhar com isso, e comecei aos 18", explica.

O irmão seguiu caminho parecido. Para dar conta da demanda, dividiram as funções: "Eu me especializei em relógios antigos, como os de parede e de mesa, enquanto meu irmão ficou com os relógios de pulso".

Em Planaltina de Goiás, outra história de herança e de tempo se construiu cedo. A relação de Carlos Ferreira com os relógios começou aos 11 anos, na relojoaria do pai. Desde a infância, ele passava as tardes observando despertadores, engrenagens e cordas sendo tensionadas. "Eu ficava encantado com o funcionamento, com aquele mundo minúsculo e preciso. E me apaixonei de imediato", relembra.

Aos 13 anos, decidido a seguir os passos do pai, ele iniciou de vez o aprendizado da relojoaria. De lá para cá, não parou mais. Hoje, sua relojoaria, localizada no Conjunto Nacional, tem 27 anos, e Carlos acumula quase quatro décadas dedicadas exclusivamente ao ofício. "Eu escuto o relógio. Percebo o problema dele antes de desmontar. É experiência, claro, mas também é amor pelo que faço", explica.

Para Carlos, cada relógio que chega à bancada traz mais do que engrenagens: traz uma história. "Tem relógio que foi do pai, do avô, do padrinho. Cada um tem um significado. A gente cuida do relógio, mas também da memória afetiva da pessoa", afirma.

Ele lembra do caso de um cliente para quem restaurou um relógio herdado do pai, o qual já estava havia 85 anos na mesma família. "O valor comercial era de cerca de R$ 2 mil. Mas como você mede sentimento? Não tem como. É herança, é memória, é afeto."

Segundo o relojoeiro, esse vínculo entre tempo, memória e preservação ajuda a explicar por que, mesmo em um mundo digitalizado, o trabalho artesanal e os relógios de ponteiro continuam relevantes. "Relógio é a joia do homem", resume. "E enquanto houver história, vai haver relojoeiro para cuidar dela", celebra. 

Carlos afirma que os últimos três anos foram de grande movimento no setor. De acordo com ele, a pandemia marcou uma virada, pois a dificuldade de circulação, a baixa oferta de produtos e a alta demanda transformaram relógios de luxo em itens ainda mais valorizados, tanto como objeto de desejo quanto como investimento. "Houve um período em que simplesmente não havia mercadoria. Quem queria um modelo específico chegava a pagar R$ 40 mil acima do valor de vitrine para não esperar", conta.

O aquecimento do mercado se refletiu diretamente em seu negócio, mesmo ele não atuando na compra e venda de peças, pois o aumento das vendas impacta imediatamente a assistência técnica. "Se vende mais, eu tenho mais serviço: troca de bateria, polimento, revisão, pulseira, catraca… tudo passa pela manutenção." Ele afirma, ainda, que os relógios de alta qualidade também precisam de revisão: "Até os melhores precisam ser revisados a cada cinco anos".

Mas o bom momento do mercado trouxe um desafio: a escassez de profissionais qualificados. Apesar da ideia de que a relojoaria estaria desaparecendo, ele rejeita completamente essa visão. "Não está morrendo coisa nenhuma. O que falta é profissional", afirma.

O desinteresse dos jovens, diz, é a parte central do problema. "Se você chama 50 jovens para aprender relojoaria, todos recuam. Mas se falar em computação, todo mundo quer. Dizem que dá mais dinheiro. Só que a relojoaria é uma profissão de amor. Exige tempo, dedicação e muito cuidado. É um trabalho minucioso, quase uma joia."

Diante da falta de renovação, Carlos planeja iniciar, no próximo ano, o treinamento de dois novos aprendizes. "É difícil achar mão de obra boa. Por isso, vamos ensinar dois jovens. Mesmo que não fiquem, é importante tentar. É uma profissão linda, mas que quase não tem renovação", diz. 

*Estagiária sob supervisão de Eduardo Pinho

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postado em 03/01/2026 07:00
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