MOBILIDADE URBANA

Usuários do metrô vivem um dia de caos na primeira terça-feira do ano

Revolta e indignação marcaram a terça-feira (6/1) de quem precisou se descolar pelo sistema de transporte. Problema no túnel da Asa Sul impediu a circulação de passageiros tanto para ir ao trabalho, quanto voltar para casa

De ônibus: a volta para casa foi complicada, passageiros superlotavam a plataforma inferior da Rodoviária   -  (crédito:  Ed Alves/CB/DA Press)
De ônibus: a volta para casa foi complicada, passageiros superlotavam a plataforma inferior da Rodoviária - (crédito: Ed Alves/CB/DA Press)

A primeira terça-feira do ano de 2026 foi marcada pela frustração e revolta dos usuários do metrô no Distrito Federal. Uma falha técnica registrada em um veículo de manutenção do companhia no túnel da Asa Sul (na altura da SQS 112)  provocou a interrupção total da operação no túnel da Estação Asa Sul e impactou diretamente milhares de pessoas que dependem do transporte metroviário. Segundo dados do companhia, o fluxo médio de passageiros em dias úteis é de 142 mil, no sábado 77 mil e aos domingos 50 mil. 

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O problema ocorreu nas primeiras horas do dia e, por questões de segurança, a circulação no trecho foi suspensa a partir das 9h45. De acordo com o Metrô-DF, enquanto o sistema não se normalizar, todas as estações localizadas entre a 114 Sul e a Estação Central (Rodoviária) permanecem fechadas. O incidente na manutenção foi resolvido após 11 horas, já após 22h, levando os usuários enfrentarem, também, dificuldades ao voltar para casa. 

No fim da tarde, a paralisação dos serviços impactou a Rodoviária do Plano Piloto, onde se encontra a Estação Central. A plataforma inferior estava superlotada com pessoas querendo voltar para casa de ônibus, depois do paralisação do metrô. Luís Miranda, de 22 anos, ficou revoltado ao se deparar com os portões fechados do metrô. "Eu não sei nem o que dizer. Esse tipo de problema se tornou normal em Brasília. O transporte público do DF está sucateado, é um desrespeito com a população", desabafou.

Morador de Ceilândia Sul, estava preocupado de como chegaria em casa. "O transporte público é a nossa única opção. Agora, tenho que dar um jeito, os ônibus estão cada vez mais lotados", disse. "Essa situação não surpreende ninguém, é inacreditável que, em plena terça-feira, a gente tenha dificuldades para chegar no trabalho", finalizou.

A auxiliar de serviços gerais Regina Ferreira de Almeida, 52, vinha de Taguatinga rumo ao Paranoá e teve que descer na Estação Asa Sul. "Eu cheguei aqui (no terminal) para pegar um ônibus. Está sendo uma volta para a casa muito difícil", afirmou. "Desse jeito, vou chegar bem tarde em casa. É uma situação muito revoltante", acrescentou. 

Manhã complicada

Logo de manhã, o advogado Roy Lucas, de 62 anos, relatou dificuldades para chegar ao Plano Piloto via metrô. Segundo ele, um trajeto que normalmente leva menos de 30 minutos durou quase duas horas. "Peguei o trem às 8h na estação Ceilândia Sul e ia para 112 Sul. Quase não consegui pegar o metrô com tanta gente disputando espaço. Isso é absurdo com a população", disse.

Com a interrupção, a Estação Asa Sul passou a funcionar como terminal a partir das 9h45. Passageiros que seguiam em direção à Estação Central precisaram desembarcar na Asa Sul e utilizar o Terminal Rodoviário para dar continuidade ao deslocamento. A mudança repentina pegou usuários de surpresa, gerou superlotação, longos atrasos.

Para minimizar os impactos, a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob-DF) determinou que as operadoras Marechal, Urbi e BsBus reforçassem imediatamente as viagens nas linhas de ônibus com destino à Rodoviária do Plano Piloto e, à tarde, para outras cidades. A medida valeu para linhas que atendem Taguatinga, Ceilândia, Águas Claras, Sol Nascente, Samambaia e demais cidades atendidas pelo metrô. O reforço foi realizado em caráter temporário, até a normalização na operação dos trens.

  • De ônibus: a volta para casa foi complicada, passageiros superlotavam a plataforma inferior da Rodoviária
    De ônibus: a volta para casa foi complicada, passageiros superlotavam a plataforma inferior da Rodoviária Ed Alves/CB/DA Press
  • Luís Miranda:
    Luís Miranda: "O transporte público está sucateado" Ed Alves/CB/DA Press
  • Regina Ferreira:
    Regina Ferreira: "Não sei a hora que vou chegar em casa" Ed Alves/CB/DA Press
  • Maria de Jesus desmarcou compromissos de trabalho
    Maria de Jesus desmarcou compromissos de trabalho Davi Cruz/CB/D.A Press
  • O advogado Roy Lucas relatou a dificuldade enfrentada durante o deslocamento
    O advogado Roy Lucas relatou a dificuldade enfrentada durante o deslocamento Davi Cruz/CB
  • Manhã complicada: passageiros tiveram de desembarcar na Estação Asa Sul e seguir de ônibus
    Manhã complicada: passageiros tiveram de desembarcar na Estação Asa Sul e seguir de ônibus Davi Cruz/CB/D.A.Press

Indignação

Entre os passageiros, o sentimento foi de indignação. "Tive que desmarcar alguns atendimentos, porque não tinha condição de chegar. Desde as 9h estava dentro do metrô lotado, para chegar aqui (na Estação Asa Sul) com a maior dificuldade, às 11h. Esse atraso me fez perder cliente e deixei de ganhar o meu dinheiro", disse. Ela contou que não foi informada sobre o atraso e teve dificuldades em pegar outra condução. "Isso é um absurdo" desabafou. Ela embarcou na Estação Furnas e ficou cerca de duas horas dentro do metrô.

O estoquista de mercado Caio Santos, 21, reclamou não apenas da falha no serviço, mas também do custo do transporte público no DF. "Além da péssima qualidade do transporte, é uma das passagens mais caras do Brasil e eles prestam um serviço horrível", enfatizou. Ele contou que embarcou na Estação Ceilândia Norte, às 7h30, com destino à Galeria dos Estados. "Avisei a meus chefes que iria atrasar. Estou revoltado com essa situação, que precisa mudar. Estamos em ano de eleição e tem muitas promessas, menos as soluções", declarou.

Ricardo Avelino, 47, fez críticas duras à situação do sistema metroviário. "O metrô está muito ultrapassado, isso daí é sucata. Se eles pegassem o dinheiro do povo e investissem nos interesses do povo, hoje a gente teria um metrô muito bom", comentou. Morador da Ceilândia, ele ia se consultar no Plano Piloto.

A recepcionista Bruna Lorrany, 26, foi pega de surpresa e relatou dificuldades para seguir até o trabalho. "Um completo caos, desde as 8h esperando o metrô. Eles não avisaram nada. Não queriam devolver o dinheiro para gente poder pagar passagem de um ônibus e ir trabalhar", afirmou.

Direito do passageiro

O Instituto de Defesa do Consumidor do Distrito Federal (Procon-DF) informou que a pessoa que utilizou o metrô no momento da interrupção e teve que descer, e continuar a viagem por outro meio, têm direito ao abatimento proporcional do valor da passagem, caso a empresa não tenha oferecido uma alternativa para completar o trajeto, como ônibus ou vans.

Além disso, o Procon ressaltou que, no ato da a interrupção, os consumidores precisam ser devidamente informados da limitação do trajeto antes de iniciar a viagem, ou seja, antes de efetivar o pagamento da passagem. A diretora do Procon-DF, Vanessa Pereira, destacou que os usuários podem recorrer caso se sintam prejudicados. "É direito do consumidor, principalmente se ele não souber previamente o que aconteceu, ou se não houve oferta de solução adequada por parte da concessionária", afirmou.

Melhorias

Em outubro de 2025, a Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana da Câmara Legislativa do Distrito Federal - CTMU/CLDF, presidida pelo deputado Max Maciel, realizou um estudo que analisou a evolução da frota de trens do Metrô-DF entre 2019 e 2025, o qual demonstrou uma redução da oferta de trens, com agravamento a partir de 2023 e um cenário crítico em 2024 e 2025.

Segundo o estudo, a redução é de aproximadamente 24% da frota operacional diária, o que significa que 40,6% do total de trens da companhia está fora de operação. "Estamos falando, portanto, de uma redução que impacta seriamente a população usuária do sistema, sobretudo trabalhadores e estudantes das regiões atendidas direta ou indiretamente pelo metrô. Com menos trens disponíveis, a população fica mais tempo aguardando nas estações e enfrenta superlotação", disse. 

De acordo com Maciel, "uma das principais prioridades em 2026 será o acompanhamento do Plano Diretor de Transporte Urbano (PDTU) e do Plano de Mobilidade Sustentável (PMUS), que devem chegar à Câmara Legislativa no início de fevereiro. Esses planos vão definir as prioridades da mobilidade  deverão tratar sobre as melhorias no sistema sobre trilhos, incluindo investimento, modernização e ampliação da capacidade do metrô, bem como valorização dos seus trabalhadores", destacou.

Memória

Os primeiro passos do Metrô-DF começaram em janeiro de 1991, com a criação de um Grupo Executivo de trabalho e a elaboração dos primeiros estudos sobre o impacto ambiental da obra.

As intervenções foram iniciadas em janeiro de 1992 e, em dezembro de 1993, foi criada a Companhia do Metropolitano do Distrito Federal, com o objetivo de operar o novo transporte. Em outubro de 1994, os trabalhos foram paralisados, mas após dois anos, em maio de 1996, as obras foram retomadas.

A operação em definitivo teve início em 2001, com a inauguração do trecho que liga Samambaia a Taguatinga, Águas Claras, Guará e Plano Piloto. Em 2006, iniciou-se a operação branca no trecho que liga Taguatinga a Ceilândia Sul, passando pela estação Centro Metropolitano.

Atualmente o transporte conta com uma malha viária distribuída em 42 km de via. Os trens operam com uma variação de 24 (horários de pico) a oito (vale noturno) a depender do horário e do trecho de atuação.

Além disso, no ano passado, o GDF aprovou o projeto de ampliação do metrô em Samamabia. As obras da expansão da Linha 1 do Metrô-DF estão em pleno funcionamento e devem durar entre dois e quatro anos.

A previsão inicial de custo é de R$ 348.976.013,45 em valores atualizados, que chegam a mais de R$ 400 milhões com os demais custos associados. A estimativa é de que a expansão beneficie entre 12 mil e 15 mil pessoas, que utilizarão o transporte diariamente.

A Companhia do Metropolitano do Distrito Federal (Metrô-DF) publicou no último dia 18, o aviso de reabertura de licitação para a expansão da Linha 1 do Metrô, em Ceilândia.

O projeto prevê a ampliação da linha em 2,3 quilômetros e construção de duas novas estações, entre as quadras QNO 5 e 13 e entre as QNO 7 e 15, em Ceilândia. O novo trecho aproxima a linha à BR-070, na saída para Águas Lindas.

As propostas deverão ser enviadas até 5/3/2026, às 10h, e a companhia que assinar o contrato terá um prazo de 45 meses para o fim das obras.

Fonte: Companhia do Metropolitano do Distrito Federal (Metrô-DF)

 

O metrô não é ferrorama

Por Carlos Penna Brescianini, mestre em Ciência Política na área de Políticas Públicas e pesquisador em Mobilidade Urbana. Foi um dos coordenadores do Metrô-DF

Me corta o coração ver a situação de sucateamento contínuo que sucessivos governos têm realizado no Metrô do Distrito Federal.

Como coordenador do Metrô-DF, trabalhei com três governadores que gostavam do Metrô e apoiaram sua construção e operação: Cristovam Buraque, Joaquim Roriz e Maria de Lourdes Abadia.

Depois, é praticamente ladeira abaixo. Prisões de presidente e diretores, trens pegando fogo, linhas inteiras fechadas, falta de concursos para substituir pessoal....

A situação de precariedade atual, em que dos 32 trens, somente 19 têm condições de circular simultâneamente nos faz parecer aquele brinquedo ferroviário "Ferrorama".

O metrô é um sistema de transporte de massas que toda cidade moderna possui. Em 99,9% dos casos, é uma empresa pública dirigida por profissionais que entendem do assunto.

Sistemas de metrô são equipamentos que duram de 30 a 50 anos. Mas isso não significa que não precisem de manutenção e atualizações. Constantemente deveriam ser realizadas modernizações e entrada de mais pessoal para cada vez mais atender mais localidades e passageiros.

O que o GDF gasta com subsídios às empresas de ônibus e isenções de IPVA - que estimulam a superpopulação de automóveis - já dava para termos o metrô na Asa Norte, Gama, Santa Maria, Sobradinho e Planaltina. 

Quando vejo anúncio de obras de superfície de dois ou três quilômetros em Samambaia e Ceilândia, para durarem quase 4 anos, tenho a certeza de que quem dirige a Cia do Metrô não entende o ofício.

Obras de superfície não precisam de escavações subterrâneas, são extremamente rápidas. Fizemos Ceilândia, Samambaia, Águas Claras e Guará de maneira extremamente rápida. As paradas nas obras sempre ocorreram por questões políticas.

O metrô precisa ser dirigido (pilotado, perdão pelo trocadilho) por gente da área e competente. E receber do GDF os mesmos aportes financeiros que destina às empresas de ônibus que oferecem um péssimo serviço à população.


 

 

 

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DC
postado em 07/01/2026 04:00
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