
Por Manuela Sá* — A Festa de São Sebastião do Boi de Seu Teodoro, uma das mais tradicionais do Distrito Federal, segue até a próxima terça-feira (20/1) em Sobradinho. Fazem parte da comemoração a reza de ladainhas em latim e as apresentações do Tambor de Crioula, do Bumba-meu-boi de Seu Teodoro e da Escola de Samba Bola Preta de Sobradinho. Os organizadores esperam reunir 500 pessoas no último dia, quando se comemora São Sebastião.
A programação começou no sábado (10/1), com o levantamento do mastro de nove metros, símbolo central da comemoração que representa o agradecimento pelo alimento. Enfeitado com frutas, como abacaxi, jaca e coco, ele foi erguido diante de cerca de 300 pessoas, dando início a um ciclo de rituais que une devoção religiosa, cultura popular e ancestralidade negra. Na terça-feira, o mastro será derrubado, marcando o encerramento da celebração.
Criada há 51 anos pelo maranhense Teodoro Freire, a comemoração se tornou referência na vida cultural e religiosa do DF. Mestre Teodoro chegou a Brasília em 1962, após passagem pelo Rio de Janeiro, e trouxe consigo as tradições populares do Maranhão, que encontraram solo fértil na capital recém-inaugurada. Desde então, a Festa de São Sebastião passou a ser um importante ponto de encontro da comunidade.
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Hoje, a organização está sob a responsabilidade de Guará Freire, 50 anos, caçula dos 11 filhos de mestre Teodoro. Para ele, manter o evento vivo é um compromisso com a memória do pai e com as gerações que vieram antes. "Essa festa tem um papel importante no fortalecimento da ancestralidade e da fé", afirma.
Freire também destaca o papel da iniciativa na valorização de manifestações artísticas que, muitas vezes, são deixadas de lado. "É uma forma de mostrar que o apreço pela herança negra não deve se restringir ao dia 20 de novembro (Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra). Gosto de acreditar que estamos dando passos de formiguinha para divulgar a arte e a cultura negra", avalia.
Integrante do Bumba-meu-boi, Freire toca matraca no grupo que, em 16 de julho de 2004, foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.
A dança, a música e a animação do Boi embalam o público e fazem a alegria daqueles que participam da celebração. É o caso da aposentada Maria da Natividade, 65, que vai à festa há 37 anos. Natural de São Luís (MA), ela conheceu o evento a convite de uma amiga e nunca mais deixou de comparecer. "É sempre muito bom e divertido. Gosto de assistir às mulheres dançando com as roupas coloridas na apresentação do Tambor de Crioula. É bonito de se ver."
Maria se sente parte da comunidade, formada em sua maioria por maranhenses. Neste ano, ela será responsável pela novena do dia 17, momento que costuma terminar com um lanche coletivo. "No meu estado, a tradição da Festa de São Sebastião é muito forte. A cultura lá é enérgica e divertida. Por isso, fico feliz em ter encontrado aqui um pedacinho da minha terra."
Maria continua a ir à festa ao lado da amiga que a apresentou ao evento, das filhas e de outros familiares. Atualmente, ela destaca o reencontro com conhecidos como um dos momentos especiais da celebração, sobretudo no último dia, quando o público geralmente é maior. "Durante todos esses anos, eu me diverti muito brincando no Boi. Hoje em dia, também gosto de cantar no Tambor de Crioula."
Ancestralidade
Outro destaque da programação são as apresentações da escola de Samba Bola Preta de Sobradinho. Um de seus fundadores foi Milton Soares, policial militar do Rio de Janeiro que chegou a Brasília pouco depois da inauguração da capital. Seu filho, Marcus Vinícius Soares, 48, conhecido como Marquinho e atual presidente da agremiação, lembra que a antiga Unidos de Sobradinho participou do primeiro desfile oficial de escolas de samba do Distrito Federal. O episódio marcou o início da história do samba organizado na região administrativa.
Com o encerramento das atividades da Unidos de Sobradinho e com a falta de sucessores, moradores das quadras 14, 15 e 17 da cidade se mobilizaram para que a herança da música não se perdesse. "Meu pai, amigos e familiares se reuniram e decidiram que não poderiam deixar a tradição morrer", relembra Marcus. Foi assim que nasceu na região a Escola de Samba Bola Preta que, desde então, cresceu junto com a Festa de São Sebastião do Boi de Seu Teodoro.
Marcus ressalta que é motivo de alegria perceber que a tradição segue sendo transmitida às novas gerações. "Nos últimos anos, tenho notado uma participação cada vez maior de crianças e adolescentes nas festividades", observa. Para ele, esse envolvimento precoce é fundamental para o fortalecimento da identidade cultural e da ancestralidade negra. "É como uma picada de mosquito que dá uma fisgada inicial nos pequenos sobre consciência cultural", compara.
Neste ano, a festa integra a programação do projeto Cultura Negra em Movimento, iniciativa do Instituto Black Spin em parceria com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF). O projeto tem como objetivo celebrar ancestralidade e tradições afro-brasileiras por meio de ações culturais gratuitas, que seguem até abril em feiras e espaços públicos de Ceilândia e Sobradinho.
Entre as atrações confirmadas estão o Samba da Rodoviária e o Festival Samba DF, além de apresentações dos grupos que fazem parte da Festa de São Sebastião.
Serviço
Festa de São Sebastião do Boi de Seu Teodoro
- Local: Centro de Tradições Populares (Memorial Bumba-meu-boi de Seu Teodoro)
- Endereço: Quadra 15, Área Especial nº 02, Avenida Contorno, Lotes A, B, C e D, Sobradinho
- Horário: sempre a partir das 19h
- Entrada gratuita
- Classificação livre
- Instagram @boideseuteodoro
Programação
- Diariamente, até 19/1: ladainhas tradicionais (a partir das 19h)
- 17/1 (sábado): programação do projeto Cultura Negra em Movimento
- 20/1 (terça-feira): derrubamento do mastro e encerramento
*Estagiária sob a supervisão de Malcia Afonso
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