
A falta de espaços públicos adaptados para crianças neurodivergentes no Distrito Federal tem mobilizado famílias em busca de inclusão no lazer. Em Taguatinga, uma campanha comunitária cobra a implantação de um parque infantil exclusivo no Taguaparque, que hoje não conta com estruturas adaptadas para esses pequenos.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
A analista de TI Nayara Eleutério, 35 anos, iniciou uma ação nas redes sociais em busca de apoio para a criação de um espaço de lazer voltado para inclusão social. Mãe de Isaac, de 6 anos, autista não verbal, ela conta que a ausência de estruturas adaptadas acaba excluindo crianças com deficiência e suas famílias do lazer público no DF.
Ao Correio, Nayara diz que, apesar de ser um local bonito, seguro e muito frequentado, o Taguaparque se torna um ambiente pouco acessível para crianças com necessidades específicas. O excesso de estímulos sonoros, a grande circulação de pessoas e a falta de equipamentos adequados dificultam a permanência de Isaac no espaço.
"Para que ele consiga ficar minimamente à vontade, eu preciso ir ao parque à noite, quando o fluxo de pessoas diminui. Mesmo assim, tudo o que ele consegue fazer é correr, porque não há brinquedos que dialoguem com as necessidades dele", afirma.
Em uma dessas visitas noturnas, ao procurar um local mais tranquilo, Nayara chegou a uma área atrás da chamada "cachoeira" do parque e encontrou o que, hoje, é um espaço vazio e abriga fundações de concreto abandonadas. A cena chamou a atenção da mãe, que passou a imaginar o potencial daquele local. "Meu filho ficou ali sentado, sem interesse por nada ao redor. Foi impossível não imaginar aquele espaço transformado em um ambiente vivo, pensado para inclusão", conta.
Nayara então pesquisou a história da área e descobriu que, naquele mesmo ponto, já existiu um projeto chamado Vila da Criança, que tinha como proposta atender crianças com necessidades específicas. No entanto, não há informações sobre o andamento da iniciativa desde 2022.
Para a analista, a situação evidencia um problema mais amplo no Distrito Federal: a falta de espaços públicos planejados para crianças neurodivergentes ou com limitações de mobilidade. “Quando se fala em inclusão para crianças como a minha, tudo ainda é muito teórico. Na prática, somos excluídos do convívio social.” Ela destaca que lazeres comuns, como cinema, shoppings e parques de diversão, costumam ter estímulos sensoriais intensos ou não oferecem estrutura adequada para garantir segurança e mobilidade.
“Por ser um espaço amplo, aberto e cercado de natureza, o parque é um dos poucos lugares que ainda consigo frequentar com meu filho, com menos receio de julgamentos ou situações constrangedoras”, relata.
Como forma de ampliar o debate e reunir apoio para a causa, Nayara passou a distribuir panfletos no Taguaparque, além de consultórios e clínicas de terapia da região. A ideia é formalizar o pedido junto à Administração Regional de Taguatinga e ao Governo do Distrito Federal (GDF), além de buscar apoio de parlamentares que atuem na pauta da inclusão. “Vai muito além de um lugar para brincar. A exclusão em espaços públicos reforça a ideia de que pessoas que não se encaixam no padrão esperado simplesmente não têm lugar na sociedade”, defende.
Segundo ela, em muitos casos, mesmo com avanços terapêuticos, o desenvolvimento de crianças dentro do espectro não atende às exigências impostas por ambientes pensados para um padrão único. “Isso não deveria ser motivo para exclusão. Não se trata apenas de um espaço dentro de um parque, mas de criar precedentes e abrir caminho para que outras pautas fundamentais sejam discutidas, como conscientização, acesso à informação e ocupação dos espaços públicos”, completa.
Vila da Criança
O primeiro parque infantil adaptado para crianças com deficiência do Distrito Federal foi inaugurado em 2021, no Paranoá. Localizado na Praça da Bíblia, em frente ao Conselho Tutelar, o espaço possui diversos recursos de acessibilidade que permitem a pais, crianças e cadeirantes transitarem livremente. O investimento na obra foi de R$ 89,5 mil, recursos próprios do GDF.
Procurada, a Administração Regional de Taguatinga informou, em nota, que a obra foi paralisada devido à necessidade de adequação ao Plano de Ocupação do Taguaparque, instrumento técnico que organiza e define a ocupação das áreas, garantindo conformidade com as diretrizes urbanísticas e ambientais do espaço. Segundo a administração, após a conclusão e validação do plano, as obras do parque inclusivo poderão ter andamento, já que o equipamento está previsto no escopo de projetos para o local.
A administração regional afirmou ainda reconhecer a importância de espaços inclusivos e acessíveis, que promovam lazer, convivência social e igualdade de oportunidades para crianças com deficiência, neurodivergentes e suas famílias, e reforçou o compromisso com políticas públicas voltadas à inclusão e à melhoria da qualidade de vida da população.
O projeto tem orçamento previsto de R$ 260 mil e é assinado pela arquiteta da administração de Taguatinga, Charliete Mesquita. A obra inclui além dos brinquedos tradicionais, balanço adaptado frontal e brinquedos para psicomotricidade feitos com pneus reciclados. Ao redor do parque, vários pergolados com rede, além de biblioteca, banheiro adaptado e bancos.
Leia a nota completa na íntegra:
"A Administração Regional de Taguatinga esclarece que a obra foi paralisada em razão da necessidade de adequação ao Plano de Ocupação do Taguaparque, instrumento técnico que organiza e define a ocupação das áreas, garantindo que os equipamentos públicos estejam em conformidade com as diretrizes urbanísticas e ambientais do espaço.
Ressalte-se que, após a conclusão e validação do referido plano, as obras do parque inclusivo poderão ter andamento, uma vez que o equipamento está previsto dentro do escopo de projetos para o local.
A administração regional reconhece a importância de espaços inclusivos e acessíveis, que promovam lazer, convivência social e igualdade de oportunidades para crianças com deficiência, neurodivergentes e suas famílias, reforçando o compromisso com políticas públicas voltadas à inclusão e à melhoria da qualidade de vida da população.
A Administração Regional de Taguatinga permanece à disposição para prestar demais esclarecimentos."

Cidades DF
Cidades DF
Cidades DF