ARTES MARCIAIS

Tatame e ringue: atletas do Entorno conquistam pódios internacionais

Aos 19 e 21 anos, atletas de Valparaíso acumulam títulos internacionais no jiu-jitsu, no kickboxing e no boxe e transformam disciplina em projeto de vida

Joab Ferreira Reis, 19 anos, e Augusto Sergio Vasconcellos, 21, transformam a rotina de trabalho, dietas restritas e treino em medalhas internacionais nas lutas -  (crédito: Arquivo Pessoal)
Joab Ferreira Reis, 19 anos, e Augusto Sergio Vasconcellos, 21, transformam a rotina de trabalho, dietas restritas e treino em medalhas internacionais nas lutas - (crédito: Arquivo Pessoal)

O caminho até o pódio começa cedo, às vezes antes do amanhecer e longe de casa. Em Valparaíso de Goiás, no Entorno da capital federal, Joab Ferreira Reis, 19 anos, e Augusto Sergio Vasconcellos, 21, transformam a rotina de trabalho, dietas restritas e treinos exaustivos em medalhas internacionais — um no tatame, o outro no ringue. Ao Correio, ambos contam sobre as trajetórias que iniciaram ainda na infância. 

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Joab tinha apenas 12 anos quando vestiu o kimono pela primeira vez, em 2018, em um projeto social da igreja que frequentava. O pai começou junto, como incentivo, mas não permaneceu. 

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Por dois anos consecutivos, foi líder do ranking de Brasília na própria categoria. Mas o salto maior veio fora do país, quando conquistou o título no Campeonato Pan-Americano nos Estados Unidos de vice-campeão brasileiro sem kimono, terceiro colocado no Sul-Americano também sem kimono e encerrou a trajetória na faixa azul como segundo no ranking mundial da categoria. Já na faixa roxa, em apenas cinco meses, alcançou o 12º lugar no ranking mundial absoluto — que reúne atletas de todas as categorias.

"Quando percebi que podia me destacar se levasse o esporte com seriedade, eu escolhi seguir. Mesmo se eu pudesse escolher qualquer outra profissão, eu escolheria o jiu-jitsu. Tenho certeza que nasci pra isso", conta.

A sensação de vitória, no entanto, não veio apenas pela conquista do ouro, mas sim pela superação. Dois meses antes do Pan, Joab havia sido eliminado na segunda luta do Campeonato Europeu. “Foi muito frustrante. Eu tinha muita expectativa. Quando ganhei o Pan, pude provar para mim mesmo que eu conseguia chegar onde queria. Valeu a pena todo esforço. Depois desse dia, muitas oportunidades apareceram na minha vida”, disse.

Em 2023, ainda no último ano do ensino médio, saía da escola em Santa Maria, pegava três ônibus e treinava no Guará. No ano seguinte, decidiu se dedicar integralmente aos treinos e, por morar longe, dormia na própria academia. Hoje, vive em um apartamento próximo ao centro de treinamento.

Com o desempenho, chamou atenção internacional e foi convidado pela federação de jiu-jitsu da Arábia Saudita para integrar um campeonato preparatório para o World Pro, onde passou duas semanas como parceiro de treino da seleção saudita. Após o título pan-americano, em 2025, morou por cinco meses no Texas, nos Estados Unidos. Atualmente, a rotina é praticamente cronometrada e ocupada pelo esporte: aula às 7h30, mais aulas particulares, treino de competição, preparação física, turma kids à noite e, por fim, o último treino às 20h. 

  • Joab tinha apenas 12 anos quando vestiu o kimono pela primeira vez, em 2018, em um projeto social da igreja que frequentava
    Joab tinha apenas 12 anos quando vestiu o kimono pela primeira vez, em 2018, em um projeto social da igreja que frequentava Arquivo Pessoal
  • Joab tinha apenas 12 anos quando vestiu o kimono pela primeira vez, em 2018, em um projeto social da igreja que frequentava
    Joab tinha apenas 12 anos quando vestiu o kimono pela primeira vez, em 2018, em um projeto social da igreja que frequentava Arquivo Pessoal
  • Joab tinha apenas 12 anos quando vestiu o kimono pela primeira vez, em 2018, em um projeto social da igreja que frequentava
    Joab tinha apenas 12 anos quando vestiu o kimono pela primeira vez, em 2018, em um projeto social da igreja que frequentava Arquivo Pessoal
  • Joab tinha apenas 12 anos quando vestiu o kimono pela primeira vez, em 2018, em um projeto social da igreja que frequentava
    Joab tinha apenas 12 anos quando vestiu o kimono pela primeira vez, em 2018, em um projeto social da igreja que frequentava Arquivo Pessoal
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    Joab tinha apenas 12 anos quando vestiu o kimono pela primeira vez, em 2018, em um projeto social da igreja que frequentava Arquivo Pessoal

Múltiplas modalidades

Já Augusto Sergio Vasconcellos, 21 anos, praticamente nasceu dentro do esporte. Filho de lutador, cresceu em meio aos tatames e antes mesmo de treinar, já assistia, observava, absorvia. Curiosamente, quando era criança, o pai impôs a condição de que só poderia começar aos sete anos. “Foi uma psicologia reversa. Ele queria saber se eu realmente queria ou se era só coisa de criança”, contou ao Correio.  

O início foi no kickboxing, mas a formação passou por outras modalidades. Para aprimorar os chutes, o pai o matriculou no taekwondo, especialmente por causa do “musical forms”, modalidade que mistura música e movimentos de luta. Vieram também acrobacias, saltos e chutes rodados, marcas registradas hoje em suas apresentações. Atualmente, está próximo da faixa preta na modalidade.

Aos 16 anos, começou a treinar boxe para ganhar experiência antes de subir ao ringue no K-1, categoria profissional permitida apenas para adultos. Hoje, soma mais de 100 lutas entre boxe, kickboxing e taekwondo. "Eu nunca comecei bom. Muitas pessoas dizem que tenho talento, mas comecei a treinar desde muito novo e sempre tive muita dificuldade no início. Hoje eu consigo provar para mim mesmo que com treino e esforço, vou conseguir chegar onde eu quero."

Entre os títulos, estão o de campeão sul-americano, oito vezes campeão brasileiro, três vezes campeão da Copa Brasil, múltiplos títulos goianos e do Centro-Oeste. É atleta do WGP Kickboxing, considerado o maior evento da modalidade na América Latina, e tem como meta disputar o tradicional K-1, no Japão, sonho que vem desde a infância, quando jogava no videogame ao lado do pai.

  • Augusto Almeida
    Augusto Almeida Material cedido ao Correio
  • Augusto Almeida
    Augusto Almeida Material cedido ao Correio
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    Augusto Almeida Material cedido ao Correio
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    Augusto Almeida Material cedido ao Correio
  • Augusto Almeida
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  • Augusto Almeida
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    Augusto Almeida Material cedido ao Correio
  • Augusto Almeida
    Augusto Almeida Material cedido ao Correio

O momento mais marcante da carreira não foi uma vitória, mas uma derrota. Aos 17 anos, em um campeonato sul-americano em Cascavel (PR), enfrentou um atleta que naquele mesmo ano se tornou campeão mundial. “Eu estava acostumado a ganhar sempre no Brasil, estava já com um sequência boa de vitórias. Essa foi a primeira vez que eu vi alguém realmente predestinado. Eu me entreguei muito, mas vi a diferença. Depois da luta, perguntei ao meu pai se eu tinha futuro ou se era melhor buscar outra coisa. E a resposta que recebi foi que só dependia de mim.”

A competição também marcou a primeira grande discussão entre pai e filho no papel de treinador e atleta. "Algumas pessoas que viram de fora não sabiam que ele era meu pai, acharam que ele iria para cima de mim e ficaram assustados. Mas ali foi o olhar de pai. Eu me lembro que eu não fazia e não conseguia fazer o que ele estava me pedindo. E isso foi um divisor de águas. Foi ali que eu entendi o que eu queria e qual caminho precisava seguir”, disse.

Hoje, o atleta divide o tempo entre treinos de boxe, kickboxing e taekwondo, preparação física, faculdade, trabalho, aulas particulares e outras que ministra em projeto da prefeitura. "O maior desafio é manter o equilíbrio, inclusive com a alimentação. Eu sou um cara que gosta de comer muita besteira, de sair para comer uma parada legal. Mas não posso fazer isso sempre, preciso manter uma dieta. Até porque eu já enfrentei compulsão alimentar após períodos rigorosos de corte de peso."

A luta, para ele, é o significado de manual. “É um guia de como eu devo seguir minha vida. Na luta eu tive muitos ensinamentos que eu acho que nunca teria em outro lugar. Me ensinou sobre disciplina, frustração, ego, mentalidade, resiliência.”

 
 
 
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Um post compartilhado por Augusto???????? (@augustorm04)

Augusto conta que já pensou em desistir por diversas vezes. "Eu penso que treino tanto, faço tanto e mesmo assim, chego lá e ainda perco. Mas eu acho que é um sentimento que passa pela cabeça da maioria das pessoas. Passa pela cabeça de muita gente em diversas profissões, não só na luta. A gente precisa abdicar de muita coisa para chegar lá. E isso muitas vezes nos enfraquece. Por muitas vezes me pergunto 'será que estou no caminho certo?'", contou. “Não quero ser só mais um campeão que passou. Quero ser um nome lembrado nas futuras gerações.”

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postado em 28/02/2026 05:36
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