
A decisão do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), de manter uma área da Serrinha do Paranoá entre os imóveis públicos oferecidos como garantia em eventual operação financeira do Banco de Brasília (BRB), gerou reações de entidades ambientalistas da região. A presidente da Rede de Preservação e Desenvolvimento Sustentável da Serrinha do Paranoá (Preserva Serrinha), Lúcia Mendes, afirmou que a decisão desconsidera a sensibilidade ambiental da região e disse esperar que o governo reavalie a medida.
“Lamentamos que o governador não esteja aberto a reconsiderar essa decisão. Mas ainda esperamos poder convencê-lo”, afirmou. Segundo ela, há a percepção de que informações incompletas sobre a região podem ter sido repassadas ao chefe do Executivo. “Temos a impressão de que a Terracap não repassou informações completas e consistentes sobre a sensibilidade ambiental dessa região da Serrinha ao governador”, declarou.
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A ambientalista argumenta que a área foi identificada como sensível em estudos oficiais. De acordo com ela, o Zoneamento Ecológico e Econômico do Distrito Federal classifica a região como área que exige proteção devido a riscos ambientais, como perda de Cerrado nativo, erosões, contaminação do solo e comprometimento da recarga de aquíferos. “Basta olhar para os mapas do ZEE e identificar os riscos existentes em cada área”, disse.
Lúcia também contestou a afirmação de que não há nascentes na região. Segundo ela, estudos conduzidos em 2015 pela Universidade de Brasília (UnB), em parceria com o Governo do Distrito Federal (GDF) e entidades locais, mapearam cerca de 97 nascentes na Serrinha. Um diagnóstico mais recente, de 2025, também com participação do GDF, identificou mais de 119. “É um número que ainda pode ser maior”, afirmou.
Mesmo nas áreas onde não há nascentes aparentes, a vegetação do Cerrado desempenha papel fundamental para o equilíbrio hídrico, explica a presidente da entidade. “Nos interflúvios, temos a vegetação do Cerrado que protege o solo e auxilia na infiltração da água para abastecer o lençol freático. Toda intervenção que interfere na permeabilidade do solo provoca impactos na disponibilidade de água”, esclareceu.
Ela cita como exemplo os efeitos da urbanização em áreas próximas. Segundo Lúcia Mendes, a implantação do bairro Taquari I teria provocado redução de cerca de 30% na vazão de córregos da região. “Muitas nascentes do córrego Olho d’Água, hoje, estão secas ou se tornaram intermitentes, com água aflorando no solo apenas na época das chuvas”, relatou.
A presidente da Preserva Serrinha ressaltou, ainda, que a região integra a Área de Proteção Ambiental do Planalto Central, cujo plano de manejo classifica o local como zona de recarga de aquíferos e restringe o parcelamento urbano.
Para ela, a eventual ocupação da chamada Gleba A pode comprometer a infiltração de água no solo e afetar nascentes e córregos que deságuam no Lago Paranoá. “Oferecer a área da Serrinha para provável construção de qualquer empreendimento provocará uma impermeabilização que comprometerá a infiltração e a permanência das nascentes e, por consequência, dos córregos”, afirmou.
Lúcia Mendes também citou a biodiversidade da região como indicativo de sua importância ambiental. Ela lembrou o registro recente de uma onça parda com dois filhotes na Serrinha. “Um animal como esse precisa de áreas conservadas e diversas para sobreviver. É uma das provas da saúde do Cerrado nessa região”, completou.
Para a ambientalista, decisões sobre o futuro da área precisam considerar os impactos ambientais de longo prazo. “Dispor da Serrinha sem considerar os prejuízos que impactarão a produção e a disponibilidade de água para Brasília é comprometer o futuro da cidade. Sem água, não haverá vida”, concluiu.

Cidades DF
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