CB DEBATE

Antropóloga destaca papel da escola para prevenir violência contra mulheres

Lia Zazontta, da Universidade de Brasília (UnB) ressaltou uma formação para igualdade de gênero e alertou para violência estrutural no país

Lia Zanotta Machado, professora da UnB, defendeu educação na prevenção da violência contra a mulher -  (crédito: Marcelo Ferreira CB/DA Press)
Lia Zanotta Machado, professora da UnB, defendeu educação na prevenção da violência contra a mulher - (crédito: Marcelo Ferreira CB/DA Press)

A antropóloga Lia Zanotta Machado, professora emérita da Universidade de Brasília (UnB), defendeu o papel da educação como eixo fundamental na prevenção da violência contra mulheres durante o primeiro painel do CB Debate com o tema O Brasil — pelas Mulheres: formação para uma cultura de proteção, nesta terça-feira (24/3), que discutiu a escola como espaço de formação e conscientização.

Segundo a pesquisadora, o problema vai além dos casos mais extremos e exige uma mudança estrutural na forma como a sociedade compreende as relações de gênero. “A educação que contribua para a proteção da mulher precisa olhar não só para o feminicídio, mas para a violência cotidiana, que é muito mais ampla”, afirmou.

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Para Lia, a educação precisa ir além do conteúdo formal e incorporar valores de convivência e igualdade. “O que mais falta é ensinar a conviver e a ser. A escola precisa enfrentar questões como bullying, violência e desigualdade de gênero no dia a dia”, defendeu.

Durante a fala, a pesquisadora também destacou que o Brasil apresenta índices elevados de violência em comparação a países desenvolvidos. “As taxas de assassinatos de mulheres aqui se aproximam ou até ultrapassam o total de homicídios de homens e mulheres em países desenvolvidos. Isso mostra a dimensão do problema”, afirmou.

Para a professora, esse cenário está ligado a uma “cultura de longa duração”, que historicamente legitimou o controle masculino sobre as mulheres. “Durante muito tempo, leis e práticas sociais reforçaram a ideia de que os homens eram chefes de família e tinham autoridade sobre as mulheres. Isso ainda está presente na nossa memória social”, explicou.

Ela citou como exemplo avanços recentes, como a Lei Maria da Penha, que, segundo ela, “revolucionou a opinião pública”, mas não foi suficiente para reduzir de forma significativa os casos de violência. “Mudou a percepção, mas a violência continua. Ainda há uma ideia de que o homem pode ‘corrigir’ a mulher”, disse.

Além da violência, a antropóloga destacou desigualdades estruturais, como a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado. “As mulheres trabalham, em média, cerca de 10 horas a mais que os homens em tarefas domésticas e são as principais responsáveis pelo cuidado de crianças, idosos e pessoas com deficiência”, afirmou.

A pesquisadora também criticou a presença ainda limitada de políticas públicas e instituições de apoio às mulheres, especialmente fora dos grandes centros. “Temos cerca de 168 juizados especializados para um país com mais de 5 mil municípios. Muitas mulheres não denunciam porque não têm acesso às instituições”, afirmou.

Para ela, ampliar o debate e fortalecer a educação são caminhos essenciais para avançar. “Estamos diante de um problema imenso, mas também de uma grande possibilidade de mudança, se conseguirmos atuar desde a base, que é a educação”, concluiu.

Gratuito e aberto ao público, o CB Debate com o tema O Brasil — pelas Mulheres: formação para uma cultura de proteção, coloca em pauta o enfrentamento à violência contra a mulher a partir da educação e da atuação integrada entre instituições. O encontro ocorre no auditório do Correio Braziliense, com participação de autoridades, juristas, educadoras e representantes da sociedade civil. A proposta é ampliar o diálogo e incentivar a construção de estratégias conjuntas para fortalecer a cultura de proteção às mulheres no Distrito Federal.

 

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postado em 24/03/2026 11:59
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