A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência de inovação vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), anunciou nesta terça-feira (17/3), no Palácio do Itamaraty, em Brasília, os vencedores da etapa nacional do Prêmio Finep de Inovação. Em destaque estão projetos capazes de transformar setores da economia e impulsionar o desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil.
A cerimônia foi realizada no auditório Embaixador Wladimir Murtinho, no Palácio do Itamaraty, com a presença da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos; do presidente da Finep, Luiz Antônio Elias; do embaixador Laudemar Gonçalves de Aguiar Neto; do secretário executivo Luís Fernandes, do diretor de Inovação da FINEP, Elias Ramos, além de secretários e diretores do MCTI. Ao todo, 40 projetos concorreram na etapa nacional, após passarem pelas fases regionais que selecionaram 116 iniciativas vencedoras em todo o país.
Ao destacar a importância da retomada do prêmio após mais de uma década, a ministra Luciana Santos destacou os efeitos da inovação no desenvolvimento nacional. “Os projetos vencedores mostram que a ciência, tecnologia e inovação devem estar no centro de um Brasil mais justo, sustentável e soberano. A inovação hoje é tratada como política pública e ocupa o lugar central no nosso projeto de desenvolvimento”, afirmou.
Luciana chamou atenção para a valorização das mulheres na ciência. “A ciência tem, sim, o rosto da mulher também. A qualidade dos projetos que chegaram até aqui nos prova isso. Nosso objetivo é materializar em ações permanentes o cuidado com a questão de gênero, com iniciativas voltadas à inclusão, permanência e valorização de meninas e mulheres nas carreiras de ciência, tecnologia e inovação”.
Durante o evento, a ministra também destacou que até o fim de 2025, os investimos chegaram a R$ 44,3 bilhões em mais de 3 mil projetos ligados à Nova Indústria Brasil.
O presidente da Finep, Luiz Antônio Elias, ressaltou o impacto dos projetos apresentados. “Recebemos centenas de propostas disruptivas, capazes de mudar setores estratégicos da economia, gerar empregos qualificados, reduzir desigualdades e principalmente melhorar a qualidade de vida da nossa sociedade. O Prêmio cumpre justamente esse papel de dar visibilidade à criatividade, competência e a ousadia de seus empreendedores”.
Antes da cerimônia, a Finep e o Ministério promoveram, na Universidade de Brasília (UnB), mais uma etapa do programa Finep pelo Brasil. Durante o encontro, foram apresentados 13 editais que somam R$ 3,3 bilhões em investimentos. Entre os destaques está a chamada de Subvenção Econômica Regional, que destina R$ 100 milhões ao Centro-Oeste, voltados a empresas com faturamento anual de até R$ 90 milhões, sendo 30% reservados para micro e pequenas empresas.
Projetos premiados
Na área de saúde, a Ourofino Saúde Animal foi reconhecida pelo desenvolvimento contínuo de novos produtos farmacêuticos e biológicos voltados à saúde animal.
No Sul, a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul venceu com uma plataforma inédita de terapia gênica para tratar epilepsias refratárias e distúrbios do neurodesenvolvimento. Para o premiado neurocientista Jaderson Costa da Costa, do Instituto do Cérebro da PUCRS, o apoio da Finep foi essencial para viabilizar a pesquisa. “Isso é fundamental. Quando a gente está na fronteira do conhecimento, a concorrência é muito grande, a tecnologia é de altíssimo valor e há uma necessidade de um aporte de recursos significativos para que a gente possa ser competitivo e gerar conhecimento disruptivo”, afirmou.
Segundo ele, a proposta pode mudar a forma de tratar diversas doenças. “Estamos falando de uma plataforma para tentar corrigir mutações que envolvem doenças raras, autismo, epilepsia e transtornos do neurodesenvolvimento. Esse mesmo gene está envolvido em outras doenças, como o câncer”, explicou.
A coordenadora de pesquisa Gabriela Zaniratti destacou a honra de receber o prêmio. “É um reconhecimento que a gente compartilha com toda a equipe. A ciência não se faz sozinha, se faz com pessoas comprometidas, dedicadas, que trabalham juntas para transformar conhecimento em soluções que impactam a vida das pessoas”, disse.
Ela também explicou o funcionamento da inovação. “É uma plataforma modular e escalável. A gente começa com uma doença, mas ela pode ser aplicada a várias outras. Nosso objetivo é tratar a base da doença, a mutação genética que causa toda a cascata patológica. Hoje, muitas dessas patologias raras não têm tratamento além do paliativo. O nosso objetivo é ir além, é buscar a cura dessas doenças.”
Sobre a presença feminina na ciência, a pesquisadora destacou o sentimento de felicidade. “É uma sensação maravilhosa. Quando uma mulher chega ao topo e é reconhecida, abre portas para outras que também têm esse sonho e passam a ver que é possível.”
Na região Norte, o destaque foi o projeto de um “barco voador”, desenvolvido pela Barco Voador Engenharia e Desenvolvimento, voltado à melhoria da logística na Amazônia. Representante da iniciativa, Túlio Duarte destacou o papel do financiamento público. “O apoio da Finep é um diferencial imenso. Estamos desenvolvendo um novo modal de transporte extremamente eficiente, capaz de conectar a região amazônica e impulsionar o desenvolvimento econômico. Tem cidades na Amazônia que você leva mais de 10 dias para chegar de barco. Então, a gente espera que esse projeto ajude a solucionar essa problemática e transforme a vida das pessoas”, afirmou.
Ao Correio, o diretor executivo do projeto, Lucas Guimarães, explicou o funcionamento da tecnologia. “Embora se pareça com um avião, é considerado uma embarcação, porque voa a cerca de 5 metros da água, utilizando o efeito solo, o que o torna até 40% mais eficiente”. Segundo ele, o veículo pode atingir 150 km/h, transportando até 10 pessoas ou uma tonelada de carga.
Na área de transformação digital, a empresa Nuclearis Sistemas em Medicina Nuclear desenvolveu uma plataforma de biobancos digitais com uso de inteligência artificial para apoiar diagnósticos e a medicina personalizada.
Outros trabalhos incluem o desenvolvimento de hidrogênio verde pela Clark Tecnologia Química, um satélite nacional de alta resolução da Visiona Tecnologia Espacial, terapias inovadoras baseadas na biodiversidade brasileira pela Nintx, e um centro de inovação em Pernambuco liderado pelo Porto Digital.
Na categoria de infraestrutura de pesquisa, a Universidade Federal de Minas Gerais foi premiada por um projeto que desenvolve tecnologias ópticas para diagnóstico precoce de doenças como o Alzheimer.
A premiação especial do dia foi de destaque feminino concedida à Profª Dra. Mar Campos Valadares, pelo projeto Cell for Vision, que utiliza células-tronco e bioimpressão 3D para tratamentos oftalmológicos acessíveis via SUS. Ela foi premiada com a medalha Niède Guidon, que recebe esse nome em homenagem à arqueóloga, cuja trajetória foi dedicada à preservação ambiental e à pesquisa no Parque Nacional da Serra da Capivara.
