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Praça Jornalista Paulo Pestana celebra um cronista e muitas saudades

Inauguração de praça em homenagem a Paulo Pestana, na Quituart, no Lago Norte, reúne amigos, família e o alto escalão do governo para celebrar o jornalista e colaborador do Correio Braziliense que fez da convivência sua maior obra-prima

Há lugares em Brasília que parecem marcados no tempo, onde a política e a boemia se misturam sem pedir licença. A Quituart, no Lago Norte, é um desses refúgios que, por décadas, teve como símbolo a presença constante do jornalista Paulo Pestana, que morreu aos 66 anos em 2024. Nessa quarta-feira (25/3), o reduto ganhou contornos oficiais com a inauguração de uma praça com o nome do cronista, na QI 9/10. Foi ali que Pestana ajudou a escrever não apenas crônicas memoráveis no Correio Braziliense, mas os rumos da própria capital.

Para o governador Ibaneis Rocha (MDB), a entrega da praça Jornalista Paulo Pestana foi um ato de saudade e reconhecimento. Com a voz embargada, ele não escondeu a dependência intelectual e emocional que nutria pelo amigo. "Paulo conseguia entender a alma do candidato. Se tem uma coisa que me traz insegurança, hoje, quando penso em uma campanha, é a falta dele", confessou.

Ibaneis lembrou que a jornada de ambos começou lá atrás, na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), e se consolidou em 2017, quando, sob a "batuta" de Pestana, o sonho do Palácio do Buriti começou a ganhar forma. "Inspirem-se na história do Paulo. Ética, amizade, trabalho, simplicidade e humildade são sinônimos do nome dele. Caminhei ao lado de um dos homens mais corretos que pude conhecer", declarou.

Luis Nova/Esp.CB - Paulo Pestana morreu em 2024 e marcou gerações de jornalistas, como um mestre e amigo

Mestre do cotidiano

Zelinda Pestana, companheira de uma vida de 42 anos de Paulo, contemplava a nova praça com o olhar de quem vê um sonho antigo sair do papel. Para ela, o espaço é a extensão natural da sala de estar da família. "Paulinho deixou boas histórias; era um mestre em escrever sobre o cotidiano. Esta praça é o começo da concretização de um sonho dele: ver a Quituart devidamente regularizada e reconstruída", afirmou.

A viúva relembrou as tardes intermináveis no local, onde o tempo parecia não reger as conversas. "Dessa feirinha ninguém saía, porque você vinha cedo e, quando se despedia, chegava outro amigo, e o papo recomeçava", completou Zelinda. O filho Pedro Pestana reforçou essa imagem do pai como um 'arquiteto de ideias' que preferia a tranquilidade dos bastidores ao brilho dos holofotes.

"Ele sempre trabalhou com discrição, nunca no palanque. Era a pessoa que dava os conselhos, o intelectual que trazia a solução", descreveu. Pedro recordou os 28 anos de convivência da família no local, entre transmissões de futebol e embates intelectuais sobre arte e literatura. "Ter essa praça aqui é uma forma de manter esse legado e deixar explícito que o plano continua", disse. 

O "consultor" da Quituart

A praça não é apenas um tributo nominal; é uma intervenção urbana que muda a cara do Lago Norte. Fernando Leite, presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), detalhou o esforço para transformar uma área degradada em um espaço de convivência de 4 mil metros quadrados, com 147 vagas de estacionamento e obras de drenagem. "Foi um pedido direto do governador. Levamos nove meses para entregar um local, que agora tem espaço para crianças, eventos ao ar livre e segurança para as famílias. É a obra que agrada à população", explicou.

Fotos: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - Zelinda com o filho Pedro e a nora, Yasmin: emoção durante a homenagem

Para os comerciantes locais, no entanto, a obra tem um rosto. Marco Túlio Ortiga, o Tuim, proprietário do Butiquim do Tuim, não conteve as lágrimas ao falar do compadre. "Se hoje estou aqui, é por causa dele. Ele me perguntou: 'Por que você não abre um bar na cooperativa?'. E virou o Butiquim do Tuim por insistência dele", contou. Tuim lembra que Pestana era o consultor informal da cooperativa da Quituart, alguém a quem todos recorriam para sanar dúvidas sobre política, música ou sobre a vida.

O sentimento é compartilhado por Rosângela Rabelo Maciel, a Tia Rô, cujo restaurante serviu de cenário para reuniões que mudaram o DF. "Ele era um ser humano extraordinário, um amigo e irmão que puxava a orelha quando precisava e dava parabéns na hora certa", afirmou. Sulamita Perfeito, presidente da Quituart, acrescentou que a praça resolve problemas históricos, como as inundações no estacionamento que afastavam clientes.

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - Marco Túlio Ortiga, do restaurante Butiquim do Tuim: amizade e conselhos

Legado

No Correio, Pestana deixou uma marca indelével como editor e cronista. "Bom chefe, bom amigo, ser humano de grande valor. Paulinho era profundo conhecedor de música, do jazz ao rock,, passando pela MPB. Um crítico musical refinado. Um homem do seu tempo, que gostava das reuniões em família com Zelinda, companheira de quatro décadas, dos filhos e netos. Entendida de política como poucos, , dos segredos e dos bastidores, sempre discreto e acertivo", destacou Ana Dubeux, chefe de Redação do Correio.

"Era um mestre, marcou minha geração com ensinamentos e sempre enfatizou a importância do jornalismo humanista. Um verdadeiro intelectual", disse o editor de Cidades e de Cultura do Correio, José Carlos Vieira.

Divulgação/Ana Lúcia Moura - Quituart relembrou a importância de Pestana para o espaço em 2024

Presente à cerimônia, Miguel Jabour, diretor de Relações Institucionais do jornal, descreveu a convivência como um aprendizado contínuo. "A relação foi de mestre e aluno. O Paulinho jogava em todas as posições, era um bom técnico e sabia escalar o time como ninguém", avaliou.

A dor da ausência também marcou a fala de Weligton Luiz Moraes, secretário de Comunicação do DF e amigo de longa data. "É difícil imaginar que fizemos o curso de jornalismo juntos, estudamos juntos e vivemos vários momentos de alegria. Eu, sinceramente, não gostaria de estar aqui fazendo essa homenagem; gostaria que fosse outro momento, uma nova caminhada junto com o governador, uma pauta diferente", lamentou o secretário.

Paulo Pestana, o homem que sabia a capa de cada disco de jazz e o desfecho de cada trama política antes mesmo de ela acontecer, agora batiza o chão que tanto pisou. Como disse Miguel Jabour, ele não partiu; apenas mudou-se definitivamente para a frente de casa, onde o café é quente, a cerveja é gelada e as histórias nunca terminam.

 


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