Celebração

Via-Sacra reúne 100 mil fieis em espetáculo de devoção a céu aberto

Encenação da Via-Sacra no Morro da Capelinha reúne 110 mil espectadores para conferir o maior espetáculo cristão do Distrito Federal

 Via Sacra do Morro da Capelinha. -  (crédito:  Ed Alves/CB/D.A Press)
Via Sacra do Morro da Capelinha. - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

O silêncio que costuma habitar o Morro da Capelinha deu lugar, nesta sexta-feira (3/4), a um coro de orações, passos descalços e o som metálico das armaduras dos centuriões. Sob um tempo abafado que testou a resistência de milhares de fiéis, a tradicional Via-Sacra de Planaltina reafirmou sua posição como o maior espetáculo de fé a céu aberto do Distrito Federal, reunindo 100 mil espectadores na Sexta-feira da Paixão.

Muito antes de as luzes do palco se acenderem para encenar os últimos passos de Cristo, o morro havia sido conquistado por promessas: joelhos feridos contra o solo rústico, jejuns rigorosos e olhares marejados de quem subiu a ladeira não apenas para assistir a uma peça, mas para agradecer pela própria sobrevivência ou pela cura de um ente querido.

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Entre o cheiro de velas queimando no topo e o movimento efervescente dos ambulantes na base, a celebração de 2026 uniu gerações em um roteiro de entrega. Enquanto atores se transformavam nos bastidores para dar vida à narrativa bíblica, o público escrevia sua própria história de devoção nas trilhas íngremes de Planaltina.

Da adolescente que sacrificou o conforto pelo pai à idosa que celebrou a vitória sobre o câncer, o morro transformou-se em um mosaico de gratidão, onde a dor da subida pareceu pequena diante do alívio do recomeço.

Antes do espetáculo iniciar, entre pincéis que desenham as marcas da Paixão e o ajuste final das túnicas, Rafael Gonçalves, 29 anos, intérprete de Jesus Cristo pelo terceiro ano consecutivo, mostrou o processo de caracterização intenso, com três maquiadores se revezando para reproduzir as feridas do calvário no corpo do protagonista. Ao Correio, o ator afirmou que o papel carrega uma dimensão espiritual que impacta o público. "As pessoas veem além do trabalho, veem realmente a presença de Deus. É uma responsabilidade grande. Temos que tentar ser Jesus também no dia a dia, por meio das nossas ações e da caridade. A fé do público nos ensina e dá a energia necessária para cumprir essa missão", refletiu.

Na missa prévia à encenação presidida pelo cardeal arcebispo de Brasília, Dom Paulo Cezar Costa, a governadora Celina Leão destacou o caráter suprarreligioso da celebração. "É uma festa que tem muita fé, realizada há mais de 30 anos, onde o povo relembra aquele que deu a vida por nós. Quem nunca veio, deveria vir. Não é sobre religião ou igrejas, mas sobre aquele que está acima de todo nome", afirmou Celina, que, antes, esteve no evento "Família ao pé da cruz", que reuniu mais de 70 mil pessoas na Arena BRB Mané Garrincha.

 Celina Leão na Via Sacra de Planaltina
A governadora Celina Leão exaltou a fé do povo do DF (foto: George Gianni/Agencia Brasilia)

Gratidão

O Morro da Capelinha amanheceu com fiéis firmes em suas promessas e orações. Alguns com pedidos; outros agradecendo pelas graças alcançadas ao longo do último ano. E, para a fé, não há idade.

Heloísa Vitória Pereira, de 14 anos, decidiu subir o morro de joelhos, em oração pelo pai. Há mais de 10 anos, ele enfrenta uma luta contra os próprios vícios, o que motivou a jovem a fazer a promessa. "Eu amo muito o meu pai. Se pudesse, daria minha vida por ele", emocionou-se a adolescente, com ataduras nos joelhos.

Nas mãos, ela carregava um terço. As rezas se alternaram entre Pai-Nosso e Ave-Maria, enquanto pedia pela saúde do pai. Foi a primeira vez que Heloísa fez o percurso dessa forma. Inicialmente, pensou em subir caminhando, mas decidiu intensificar o sacrifício: iniciou jejum às 7h com objetivo de mantê-lo até o meio-dia.

Houve mães pedindo bênçãos e agradecendo pela vida dos filhos. Um mês após a recuperação do filho, Tatiane Pacheco, 43, não foi ao Morro da Capelinha para pedir, mas para cumprir uma promessa. Natural da Bahia, ela vive atualmente em Arapoanga e, há pouco mais de 30 dias, orava pela vida do jovem, de 21 anos, que estava entubado após convulsões severas.

Após passar por hospitais público e privados, a família enfrentou um período de incertezas. "É muito difícil para uma mãe perguntar a um médico se o seu filho vai sobreviver e receber uma resposta incerta", relembrou. Durante 15 dias, ela manteve uma rotina intensa de orações, pedindo que o filho saísse vivo e recuperado.

Segundo Tatiane, a mudança veio logo após a promessa. No dia seguinte, recebeu a notícia de que o quadro apresentava melhora. "Ele não estava mais entubado, falava comigo e melhorou de forma progressiva. Por isso, vim pagar minha promessa: caminhei descalça até o Morro da Capelinha e subi o percurso de joelhos", contou.

Mãe de dois filhos, ela disse que duvidou da própria capacidade de cumprir o que prometeu. "Pedi a Deus e a Nossa Senhora pela cura dele. Fiz a promessa e, no dia seguinte, ele já não estava mais entubado", afirmou, emocionada.

No topo do Morro da Capelinha, devotos rezaram em meio à labareda de fogo e velas brancas, em frente à imagem de Nossa Senhora. Entre lágrimas e preces, os agradecimentos intensificaram o clima de diligência. Muitos seguiram ajoelhados em meio ao calor, após longas caminhadas, feitas com os pés descalços, resistindo às íngremes subidas até a capela.

Preces pela saúde levaram os fiéis aos montes, acompanhados de amigos e familiares. Jovens, adultos, crianças, e até bebês fizeram parte da paisagem, carregada de simbolismo. Joana Neris, 65, fez uma curta pausa para retomar o fôlego, rodeada de mulheres de três gerações: filha, netas e bisneta. Moradora de Planaltina, ela pagava uma promessa feita no ano de 2025, após enfrentar o câncer pela segunda vez.

"Pedi a Deus para continuar viva, e acompanhar o crescimento das minhas netas e bisneta", relatou emocionada. O primeiro câncer veio em 2023, mas foi descoberto logo no início. O segundo, a deixou frágil. Por dias, a idosa não conseguia se alimentar, devido aos fortes sintomas da quimioterapia e do câncer, que foi retirado da região do intestino.

Há cinco meses, ela rezou pela própria vida e prometeu subir o morro. Frequentadora do local há 40 anos, após o câncer, Joana não tinha mais forças para realizar a caminhada. Ao longo do tratamento, as preces sustentaram o psicológico dela, que teve melhoras graduais e, hoje, não sofre mais com a condição.

O ambulante Guilherme Augusto Souza Braga, 21, deslocou-se da Cidade Ocidental (GO) à Planaltina, às seis da manhã, para trabalhar. Nas proximidades do morro, sentiu que precisava realizar o sacrifício, e pôs-se de joelhos para subir até a capela, pela primeira vez. "No ano passado, eu sofri um acidente de moto. Meu joelho abriu, tomei 150 pontos. Nos últimos seis meses, me recuperei", contou o jovem.

A experiência deu a ele senso de propósito, algo que intensificou a sua fé. Sem ataduras, o rapaz chorava durante a subida, mas entendia o ato como um sacrifício que conversa profundamente com suas crenças.

Infraestrutura

Para garantir a tranquilidade dos fiéis, o Governo do Distrito Federal (GDF) operou sob o Protocolo de Operações Integradas (POI). A estratégia centralizou o atendimento na Cidade da Segurança Pública, com monitoramento em tempo real. A Polícia Militar (PMDF) atuou com unidades especializadas, como Cavalaria e Batalhão de Trânsito, realizando revistas em pontos estratégicos. O público contou com a Sala Lilás Itinerante para apoio a mulheres e uma unidade para identificação de crianças. O Corpo de Bombeiros (CBMDF) esteve com 215 militares e 25 viaturas prontos para atendimentos e salvamentos no terreno íngreme.

 

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postado em 04/04/2026 07:01
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