“Um gesto do governo federal seria muito positivo para Brasília, para mostrar que se fala uma coisa e se faz o que se fala, sem revanchismo”, declarou a governadora do Distrito Federal, Celina Leão, ao comentar as tratativas com a União para viabilizar uma solução para o Banco de Brasília (BRB). Durante a agenda oficial, Celina revelou ter mantido conversas com o governo federal, e fez um apelo direto para que a Caixa Econômica Federal colabore com a recuperação do banco.
Nessa quarta-feira (1º/4), a governadora afastou dirigentes do BRB que teriam se envolvido nas negociações para a aquisição do Banco Master pela instituição. Os nomes foram apontados no relatório de auditoria da Kroll e da banca Machado Meyer Advogados, contratada pelo banco estatal.
Em nota, Celina disse que determinou o afastamento dos dirigentes como medida necessária para garantir transparência nas apurações. “A decisão não antecipa qualquer julgamento e respeita o direito ao contraditório, mas assegura que as investigações ocorram com independência e responsabilidade. O compromisso do Governo do Distrito Federal é com a verdade dos fatos, a proteção das instituições e a confiança da população”, completou.
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Além disso, a governadora confirmou a retirada da Serrinha do Paranoá (Gleba A) da lista de imóveis destinados à capitalização do BRB. A proposta anterior previa a transferência da área, de 716 hectares, para a instituição como forma de reforço patrimonial. No entanto, o Executivo local recuou da medida e anunciou que o espaço será transformado em um parque de preservação ambiental.
A decisão contraria a posição do ex-governador Ibaneis Rocha, que havia resistido à exclusão da área, mesmo diante da sinalização do presidente do BRB, Nelson de Souza, de que a gleba não deveria integrar a lista de ativos. Segundo a governadora, a mudança foi motivada por critérios ambientais e também por avaliação de mercado. Ela argumenta que a manutenção do terreno no fundo imobiliário poderia provocar “depreciação de preço” e desviar o foco da solução para a crise do banco. O Instituto Brasília Ambiental (Ibram) e a Secretaria de Meio Ambiente foram acionados para definir a poligonal do futuro parque, cujo decreto de criação deve ser publicado nos próximos dias.
Celina anunciou o nome de Valdivino Oliveira para assumir a Secretaria de Economia. Com perfil técnico e histórico na elaboração do Fundo Constitucional, Valdivino terá a missão de conduzir cortes de contratos considerados desnecessários e reajustar o orçamento do DF.
Proteção
Presidente da Associação Preserva Serrinha, Lúcia Mendes avaliou como positiva a sinalização do GDF em transformar a área em unidade de conservação, mas defendeu maior clareza sobre o projeto. "Sem dúvida, o posicionamento da governadora é bem-vindo. Precisamos agora saber qual será a categoria e qual será a área incluída na poligonal do parque que está sendo cogitado", afirmou.
Ela cobrou a participação dos moradores e ambientalistas no processo. "Esperamos que o GDF considere a participação da sociedade civil, das entidades e institutos que pesquisam o Cerrado, nas tratativas de definição das unidades de conservação que precisam ser criadas para proteger as nascentes e as áreas de recarga da Serrinha. Estamos à disposição do governo para esse diálogo", acrescentou.
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Lúcia demonstrou preocupação com o uso de áreas públicas como estratégia para socorrer o Banco de Brasília (BRB). "Ficamos na expectativa de que haja um reposicionamento do GDF em relação às áreas incluídas na tentativa de salvação do BRB. Usar o patrimônio de Brasília sem que se tenha informações suficientes sobre o tamanho do problema não nos parece uma ação responsável", disse.
Segundo ela, é necessário cautela para evitar prejuízos à cidade. "Esperamos que essa estratégia seja revista, com mais cuidado e atenção ao patrimônio público. Precisamos salvar o BRB, mas não às custas dos interesses da cidade", ressaltou.
Planalto resiste
Segundo interlocutores do governo federal, mesmo após as conversas com o Ministério da Fazenda, não há previsão de intervenção direta da União nem de socorro via bancos públicos, como Caixa ou Banco do Brasil, para enfrentar a crise do BRB.
Uma das alternativas em análise é a eventual aquisição de carteiras da instituição por esses bancos, desde que as operações sejam consideradas financeiramente viáveis. A leitura na área econômica é de que a solução deve partir do próprio Distrito Federal, que já formalizou um pedido de empréstimo de R$ 4 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como parte da estratégia de capitalização do banco.
O FGC indicou abertura para avançar nas negociações, mas condicionou o andamento à entrega de informações complementares. O impasse, porém, está nas restrições fiscais do DF. Sem capacidade de pagamento considerada suficiente, o governo distrital não consegue obter a garantia do Tesouro Nacional, o que limita o acesso a crédito em condições mais vantajosas, como juros mais baixos.
Capitalização
Nelson de Souza fixou 30 de maio para finalizar todos os processos pendentes e o rito de capitalização no prazo de 180 dias, a contar da data de entrega do plano de capitalização da instituição ao Banco Central, em 6 de fevereiro. Sobre o empréstimo de R$ 4 bilhões pedido pelo então governador Ibaneis Rocha ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), na semana passada, Souza disse que as tratativas estão em andamento e que está otimista quanto à liberação dos recursos.
O atraso na apresentação do balanço financeiro do Banco de Brasília (BRB) encontra sua explicação, entre outras razões, pelo rigor técnico do processo de auditoria.
A auditoria independente externa, responsável por assinar e validar os balanços, solicitou uma ampliação do escopo em relação ao relatório produzido pelo escritório Machado Meyer. Esse movimento é crucial para o processo de "confronto": ao receber os dados da investigação forense, a auditoria cruza as informações para verificar se haverá alterações nos números ou no enquadramento de pessoas envolvidas.
Apesar da espera, o ambiente é de estabilidade institucional, garante o presidente do banco, Nelson de Souza.
"Agora, com a entrega do relatório da auditoria forense, o processo ganha uma camada adicional de segurança com o shadow (acompanhamento espelhado) da Grant Thornton", explicou.
Segundo Nelson, o passo seguinte será marcado por um périplo institucional para garantir total transparência junto dos órgãos de controle. O comando da instituição deve apresentar os resultados e esclarecer os pontos auditados em uma agenda que percorre a Polícia Federal, o Banco Central, o Tribunal de Contas da União (TCU), e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), além de prestar contas à Procuradoria-Geral da República e ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).
Assembleia e balanço
A princípio, o prazo final para que o BRB entregasse os balanços do segundo semestre de 2025 se encerraria na última terça-feira, dia 31 de março. O banco decidiu adiar a divulgação dos balanços e informou a medida ao mercado e aos acionistas por meio de Fato Relevante divulgado na terça-feira, à noite. De acordo com o comunicado, a divulgação das demonstrações financeiras referentes ao terceiro e ao quarto trimestres de 2025 foi adiada devido aos desdobramentos da Operação Compliance Zero, da PF, que investiga as fraudes no Banco Master, liquidado em 18 de novembro de 2025 pelo BC.
Nos documentos, além de informar o adiamento da divulgação dos balanços, o Conselho de Administração convocou os acionistas para uma assembleia extraordinária em 22 de abril. A assembleia estava marcada, a princípio, para o dia 18 de março, mas também foi adiada após a justiça conceder e logo em seguida derrubar uma liminar que suspendia os efeitos da lei de capitalização do BRB.
Serrinha do Paranoá
