"Tudo o que a gente tem está aqui dentro. É o nosso único ganha-pão, um trabalho árduo de terça a domingo. Mas vamos voltar com força total." O desabafo é de Leonardo Teixeira, 45 anos, dono da Do Vale Multimarcas. Ele faz parte do grupo de lojistas que, na manhã dessa terça-feira (12/5), retornou ao Bloco C da Feira dos Importados de Brasília (FIB), não para vender, mas para encarar o que restou de anos de investimento após um incêndio que destruiu 27 lojas.
Leonardo mantinha um complexo de sete lojas integradas, vendendo roupas e calçados há 18 anos no local. O prejuízo, segundo ele, ultrapassa os R$ 400 mil. "O computador do estoque derreteu, não sobrou nada. Mas aqui somos uma família. Amigos ofereceram espaço em suas bancas para eu trabalhar. Vamos nos reerguer juntos", afirmou, com um otimismo que destoa do cenário de destruição ao redor.
O rastro do incêndio, que começou na madrugada de segunda-feira, ainda era visível. O cheiro forte de fumaça impregnou o ar do Bloco C, onde tapumes isolavam o epicentro do fogo. Sem energia elétrica no setor atingido, o silêncio só é quebrado pelo som de marteladas e pelo vai e vem de eletricistas. Comerciantes circulavam com lanternas, tateando o escuro para avaliar se a fuligem ou o calor — que atingiu 1.000°C — comprometeram estoques que escaparam das chamas diretas.
Para Geovana Temp, 54, a perda foi parcial, mas não menos dolorosa. Dona de uma banca de bordados computadorizados, ela viu o calor estourar vidros e danificar máquinas de alta precisão. "Somente uma dessas máquinas custa R$ 50 mil. O prejuízo já foi causado, e o impacto emocional de receber essa notícia não passa. Não consigo comer nem dormir", lamentou. Além do próprio negócio, Giovana alugava um espaço anexo para outro lojista de roupas, que teve perda total. "Era o complemento do meu sustento que se foi."
Estrutura e apoio
A Cooperativa dos Empresários da Feira dos Importados (Cooperfim) assumirá os custos da reconstrução das 27 lojas totalmente destruídas, repetindo o modelo adotado em 2022 após um incêndio no Bloco B. "A ideia é agilizar a entrega e reduzir custos com um fornecedor único", explicou a assessoria da feira.
Além da obra, o vice-presidente da feira, Absalão Calado, suspendeu a cobrança das taxas mensais para os lojistas atingidos. "A taxa é o mínimo diante do prejuízo que tiveram. Vamos suspender até que tenham uma solução e voltem a trabalhar", garantiu. Enquanto as lojas permanentes não ficam prontas, a administração planeja instalar stands provisórios nos corredores centrais para que quem ainda tem mercadoria possa continuar vendendo.
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No aspecto técnico, o calculista Welder Silva de Miranda avaliou com otimismo a segurança do prédio. "O fogo foi muito localizado, e a geometria das bancas, com seus depósitos superiores, terminou protegendo o teto. Não há risco estrutural", afirmou. Ele estima que a recuperação das tesouras metálicas e da cobertura seja concluída em até 15 dias. Miranda ressaltou que a setorização elétrica feita em 2025 foi o que permitiu que o restante da feira — que possui 24 mil m² — funcionasse normalmente nessa terça.
Apesar do isolamento de parte do Bloco C, o movimento de clientes nos demais setores seguiu o fluxo habitual, embora o assunto fosse onipresente. O corretor autônomo João Machado, 44, cliente fiel há 12 anos, manifestou preocupação com a segurança. "A gente espera que consertem logo, porque eles estão perdendo dinheiro. Tem que aumentar a vigilância e a segurança, que sempre é pouca", opinou.
Já o contador Ancelmo Borges, 64, que visitava a feira para um conserto de notebook, destacou a importância da prevenção individual. "É triste passar aqui e sentir esse cheiro. O conselho que deixo para quem trabalha aqui é se precaver com seguros. Não se pode deixar apenas à sorte. Tudo é possível acontecer."
A administração da feira defende que os sistemas de prevenção funcionaram, mas admite que o projeto total de combate a incêndio ainda está em andamento. Atualmente, a feira conta com uma brigada 24 horas e 450 brigadistas voluntários treinados. "O projeto é faseado pelo custo alto. Finalizamos a subestação e o cabeamento em dezembro. As próximas etapas incluem sprinklers e sistemas de CO2", informou a Cooperfim. No combate ao fogo, o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) utilizou os reservatórios da própria feira, que captam 240 mil litros de água.
Iara Monteiro, 43, dona da Lara Calçados e feirante há 23 anos, recordou tempos mais difíceis. "Sou do tempo em que não tinha teto e era muita gambiarra. Melhorou muito, mas o susto de ontem (segunda-feira) foi desesperador. Pensei que fosse o meu corredor", contou. Ela agora precisa trocar os conectivos e a vitrine, que derreteram com o calor. "A feira resolve os problemas rápido, mas tragédias assim são fatalidades que nos deixam em luto pelos amigos".
A Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros trabalham com as imagens do circuito interno para identificar o ponto exato de origem das chamas.
