Podcast do Correio

"Criamos uma sociedade muito individualista", avalia Frei Vicente

Aos 80 anos, Frei Vicente, diplomata da embaixada da Ordem de Malta no Brasil, pede que as pessoas mantenham a paz durante as eleições e diz que mídias sociais estão sendo tomadas por propagandistas do ódio

As jornalistas Denise Rothenburg (C) e Sibele Negromonte conversam com o Frei Vicente no Podcast do Correio -  (crédito:  Reprodução)
As jornalistas Denise Rothenburg (C) e Sibele Negromonte conversam com o Frei Vicente no Podcast do Correio - (crédito: Reprodução)

Nascido apenas oito dias após o fim da Segunda Guerra Mundial, na então Alemanha Oriental, Frei Vicente, nome brasileiro de Volker Egon Bohne, atua como diplomata da Embaixada da Ordem de Malta no Brasil. Aos 80 anos, ele segue ativo com uma série de ações realizadas em nome da organização religiosa em território brasileiro. "Nos 50 anos da Cruz de Malta em Brasília, nosso trabalho foi majoritariamente voltado às creches. Mas, há quatro anos, começamos também uma programação para o desenvolvimento profissional de mulheres no DF", contou ao Podcast do Correio. Às jornalistas Denise Rothenburg e Sibele Negromonte, o frei falou sobre a história dele com a religião e a respeito dos projetos em curso na capital.

Aos 11 anos, ele cruzou a fronteira para a Alemanha Ocidental e, mais tarde, com 19, conheceu um seminário de franciscanos em São Paulo que lhe deu a oportunidade de vir ao Brasil. "Concluí o ensino médio aqui. Também já fui para Santa Catarina, e fiz meu ensino superior em Petrópolis, no Rio de Janeiro", disse. O frei só veio à capital federal em 1996, quando era presidente da Editora Vozes e a empresa precisava de um representante em Brasília. Ao chegar, conheceu a Ordem de Malta e se juntou à organização.

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Frei Vicente relembra que, originalmente nomeado de Ordem de São João, o grupo atravessou a Europa até definir a sede na Ilha de Malta, que deu o nome atual à instituição. "Somos uma ordem que tem status de Estado, mas, quando ela veio para Brasília, não se estabeleceu no mesmo lugar das demais embaixadas internacionais. O motivo disso é que nós somos um Estado totalmente voltado ao serviço social, sem quaisquer funções econômicas ou políticas", explicou.

Ao todo, a Cruz de Malta possui seis creches no DF — duas na Asa Norte, três em Samambaia e uma em Ceilândia. "São aproximadamente 1,3 mil crianças que estão sob nosso atendimento em Brasília. A maioria vem de situações de vulnerabilidade social quando são acolhidas", relatou. Frei Vicente antecipou que uma nova unidade, em São Sebastião, está em construção e deve atender cerca de 300 crianças, tornando-se a maior creche da Cruz de Malta no DF. O espaço deve ser utilizado ainda para a formação profissional de mulheres.

Mesmo com tantos afazeres na Cruz de Malta, o frei é conhecido por sua presença aos domingos nas missas do Santuário Santo Antônio, na 911 Sul. "Comecei a realizar missas lá 25 anos atrás, em 2001. Apesar disso, eu não moro lá, moro na embaixada, que fica na Asa Norte", assinalou. Frei Vicente é popular por suas homilias, leituras explicativas realizadas para ligar os ensinamentos de uma missa à vida prática dos fiéis. Cinquenta das homilias do frei estão disponíveis pelo Spotify. "As pessoas escutam porque querem ouvir. Eu apenas transmito o que existe dentro de mim e, se isso cria empatia, é porque compartilhamos uma dor em comum", analisou.

Quando questionado a respeito de uma passagem de suas homilias na qual dizia que o DF "não parecia uma sociedade cristã" devido à desigualdade social presente na região, o frei respondeu: "Independentemente do governo, acredito que esse não seja um problema a ser resolvido por instituições. A solução para isso está na ideologia incorporada dentro de cada um de nós". Ele associou a desigualdade socioeconômica ao processo conturbado de industrialização no país. "Criamos uma sociedade muito individualista. Não podemos esquecer do aspecto social", afirmou.

O frei também comentou a respeito de conflitos interpessoais no período de eleições, ressaltando a importância de relevar as brigas e manter a paz em meio à família: "Não se deixe ser usado por essas brigas. Todas elas são fabricadas", enfatizou. Ele comparou os conflitos políticos com o ódio movimentado por Joseph Goebbels, ministro da Alemanha nazista: "De novo as mídias sociais estão sendo tomadas por pessoas propagandistas do ódio. É preciso não se deixar afetar por esse conteúdo. Precisamos de mais cuidado com a informação divulgada", concluiu.

Assista ao podcast

*Estagiário sob supervisão de Malcia Afonso

 

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postado em 18/06/2026 04:00
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