Foi lançado, na manhã desta sexta-feira (12/6), o Panorama da Violência Contra as Mulheres no Distrito Federal, que busca entender por que homens continuam mantando mulheres no DF. O estudo, feito pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF), em parceria com a Secretaria da Mulher, traz um retrato inédito sobre as diferentes formas de violência de gênero e os fatores que contribuem para sua perpetuação.
A pesquisa teve dois objetivos centrais: mensurar a violência contra a mulher no DF e compreender as motivações de homens condenados por feminicídio contra parceiras. O levantamento entrevistou 5.093 pessoas em diferentes regiões do Distrito Federal. Destas, 1.541 mulheres responderam a um questionário detalhado sobre experiências de violência. Paralelamente, 39 homens condenados por feminicídio participaram, de forma voluntária, de entrevistas realizadas dentro do sistema prisional.
A governadora Celina Leão (PP) destacou que a pesquisa surgiu da necessidade de produzir dados oficiais capazes de orientar políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero. Segundo ela, embora existam levantamentos realizados por organizações da sociedade civil, faltavam estatísticas institucionais que permitissem compreender a dimensão do problema e direcionar ações governamentais. "A institucionalização de pesquisas públicas dá um caminho, um rumo do que está acontecendo e de como enfrentar esse desafio", afirmou.
Celina explicou que a iniciativa busca ampliar a compreensão sobre os aspectos psicológicos, sociais e comportamentais envolvidos na violência contra a mulher. "Nós fomos ao complexo penitenciário para ouvir os agressores, compreender os perfis, os contextos e as motivações que levaram esses homens à violência", disse. Para garantir a continuidade do levantamento, Celina anunciou que assinará um decreto institucionalizando a pesquisa, que passará a ser realizada a cada dois anos na capital federal.
Resultados
De acordo com os resultados, 44,8% das mulheres reconheceram diretamente terem sido vítimas de violência, mas o percentual sobe para 77,6% quando são consideradas situações identificadas por meio de mecanismos indiretos desenvolvidos pelos pesquisadores.
Uma das inovações do estudo foi justamente ampliar a identificação dos casos. “Nem sempre o homem que pratica a violência reconhece, nem sempre a mulher que sofre a violência se sente à vontade para dizer que sofreu uma violência. Então foram criados mecanismos dentro do instrumento de pesquisa para fazer essa identificação”, afirmou o presidente do IPEDF, Manoel Clementino.
A pesquisa ampliou para 28 as tipificações de violência analisadas, todas compatíveis com a Lei Maria da Penha. Entre elas, a violência moral apareceu como a mais recorrente, relatada por 62,1% das mulheres, seguida da violência psicológica. Os resultados mostram ainda que 21,5% das entrevistadas sofreram violência nos últimos 12 meses.
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Outro dado que chamou atenção foi a permanência das vítimas em relacionamentos abusivos. Entre as mulheres que relataram violência recente, 15,4% continuavam casadas, namorando ou convivendo com o agressor.
Segundo Clementino, a dependência financeira foi apontada como o principal fator para a manutenção dessas relações. “Por isso a importância das ações de governo no sentido de permitir que a mulher tome suas iniciativas sem depender financeiramente do parceiro”, destacou.
O levantamento revelou desconhecimento sobre algumas formas de violência previstas na legislação. A violência patrimonial, quando o parceiro controla recursos financeiros, cartões bancários ou impede o acesso da mulher ao próprio dinheiro, foi a mais relativizada pelos entrevistados. “As pessoas não entendem isso como uma forma de violência. A sociedade conhece mais a violência física, sexual e moral, mas a violência patrimonial é pouco divulgada e pouco conhecida”, explicou o presidente do instituto.
Trajetórias violentas
Na etapa qualitativa, realizada com homens condenados por feminicídio, os pesquisadores identificaram trajetórias marcadas por ambientes familiares violentos, presença de castigos físicos, modelos rígidos de autoridade paterna e crenças tradicionais sobre papéis de gênero.
Segundo o estudo, muitos dos entrevistados associavam a masculinidade à obrigação de ser provedor da família e viam comportamentos como ciúme e controle como demonstrações legítimas de afeto. As entrevistas também indicaram que episódios de violência costumam ocorrer de forma gradual, sendo precedidos por conflitos relacionados a sentimentos de desrespeito à chamada “honra masculina”, além de problemas financeiros, familiares e uso frequente de álcool e drogas.
Para Clementino, compreender essas motivações é fundamental para a formulação de políticas públicas voltadas não apenas à proteção das mulheres, mas também à prevenção da violência. “Esses ambientes traumáticos e violentos contribuem para a reprodução do comportamento futuro dos agressores. São fatores que precisam ser trabalhados na cultura de formação dos homens para que não resultem em violência no futuro”, ressaltou.
