
Mulheres têm buscado meios para se proteger e se sentir mais confiantes no cotidiano. Entre as alternativas, estão aulas de defesa pessoal, como krav maga e jiu-jitsu, que vêm atraindo interessadas em aprender técnicas de autoproteção, identificar situações de risco e desenvolver maior preparo para enfrentar possíveis atos de violência.
A policial militar Bruna Bacelar, 38 anos, pratica jiu-jitsu há nove anos. A modalidade entrou na vida dela após uma experiência traumática. “Eu fui assaltada e senti a necessidade de buscar algum meio de me defender. À época, eu já era policial e, mesmo assim, fui um alvo ‘fácil’. Apanhei muito e senti que precisava saber mais pra me defender”, relembra.
O convite para iniciar no esporte veio de um colega de trabalho, professor de jiu-jitsu. “Meu intuito sempre foi aprender a me defender. Nunca foi tanto evoluir no esporte, mas isso acabou acontecendo ao longo do tempo”, diz. Há 12 anos na Polícia Militar (PMDF), Bruna passou a integrar o Projeto Arte Pela Segurança, do 3º Batalhão da Asa Norte, que tem o intuito de usar atividades esportivas como instrumento de fortalecimento da autoconfiança, da disciplina e da aproximação entre a corporação e a comunidade.
Como instrutora das turmas de jiu-jitsu do projeto, Bruna destaca a relevância de oferecer às mulheres conhecimentos básicos de defesa pessoal. “É muito importante que a gente tenha pelo menos o mínimo de noção para conseguir sair de uma situação de perigo”, explica. “O mundo está muito perigoso para a mulher. É importante aprender a se defender e encontrar meios de não se tornar vítima de roubos, de agressões ou até de estupros que, infelizmente, são situações que acontecem”, completa.
De acordo com a policial, a maioria das alunas procura as aulas motivada pelo desejo por mais segurança. No treinamento, a proposta vai além da técnica. “A gente busca conforto no desconforto. Estamos sempre ensinando as meninas que elas precisam aprender a sair desses momentos difíceis com segurança e técnica”, enfatiza.
Assista ao vídeo sobre as aulas de jiu-jitsu
Confiança
Lilian Moraes, 45, servidora da Secretaria de Educação do DF, começou a fazer krav Maga há seis anos. “Eu me sentia, às vezes, muito exposta, muito indefesa, e precisava de alguma coisa que me desse mais segurança”, relata.
Mãe de três filhos, ela considera a prática especialmente importante para as mulheres diante dos desafios relacionados à segurança no cotidiano. “Eu acho que é essencial. No mundo em que a gente vive hoje, a mulher precisa saber o que fazer se estiver em uma situação de perigo ou de insegurança”, destaca, acrescentando que os benefícios são percebidos nas primeiras aulas. “É uma mudança de postura, de comportamento e de segurança. À medida que a gente vai praticando e adquirindo mais habilidades, vamos nos sentindo mais seguras e mais confiantes”, diz.
Para Laís Campos Reis, 31, a modalidade oferece uma preparação que vai além das técnicas de defesa pessoal. “O krav maga traz essa visão global, de conseguir identificar ameaças, ter um outro olhar e contar com as ferramentas necessárias para se defender de forma rápida, caso alguma coisa aconteça”, explicaa. A servidora pública conta que a prática desempenha um papel importante no fortalecimento da segurança feminina diante de diferentes formas de violência. “As mulheres são muito visadas por criminosos e em situações de violência, até doméstica. É muito importante conseguir ter as ferramentas e os meios necessários para se defender e identificar situações perigosas e se precaver antes mesmo que aconteçam”, avalia.
Ambas são alunas do professor do Centro de Krav Maga do Sudoeste Rodrigo Neri, 37, formado pela Federação Sul-Americana da modalidade. A metodologia da aula é baseada em situações reais de violência que podem ocorrer no dia a dia. “Tudo o que o aluno aprende vai ser usado em uma agressão real, e não em uma competição ou torneio”, afirma.
Segundo ele, os treinamentos abordam desde tentativas de socos e agarrões até formas de reação diante de diferentes ameaças, sempre priorizando respostas práticas e objetivas. “Eu não tenho como falar para uma pessoa não reagir a uma agressão física grave, porque isso é natural. O krav maga trabalha em cima de movimentos que você já teria, mas de forma melhorada e mais segura”, detalha.
De acordo com o professor, a procura feminina pela modalidade cresceu significativamente nos últimos anos. “Quando comecei a dar aula, em 2011, tínhamos aproximadamente uma mulher para cada 10 alunos. Hoje, em algumas turmas, cerca de 90% dos participantes são mulheres”, completa.
Assista ao vídeo sobre as aulas de krav maga
Mulheres mais seguras
Com mais de 15 anos de experiência em defesa pessoal, a especialista Vanessa Ribeiro, 51, criou o Projeto Defesa das Mulheres, depois de identificar o que, na avaliação dela, é uma lacuna nas políticas públicas voltadas à prevenção da violência. “O governo investe muito em ações para depois que a mulher é vítima de violência, mas o investimento em prevenção ainda é muito pequeno diante do impacto que ela pode gerar”, assinala.
Formada pela Federação Sul-Americana de Krav Maga, Vanessa atua principalmente em escolas e regiões de vulnerabilidade social, abordando desde cuidados cotidianos até a identificação de relacionamentos abusivos. “Ensinamos desde qual o lugar mais seguro para sentar em um ônibus ou carro de aplicativo até como identificar um relacionamento abusivo”, explicou.
Como complemento desse trabalho, ela desenvolveu uma cartilha de prevenção à violência contra meninas e mulheres, distribuída pelo Ministério das Mulheres e pela Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, que alcançou mais de 20 mil mulheres em todo o país. A publicação reúne orientações práticas sobre segurança, direitos e sinais de violência. “Falamos de atitudes que parecem simples, mas que salvam vidas, como não aceitar bebidas de estranhos, ter atenção ao ambiente e reconhecer sinais de controle ou abuso em um relacionamento. Sempre na tentativa de deixar essas mulheres em segurança”, conclui.

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