
A morte de Maria Vitória de Sousa Machado, de 5 meses, após uma extubação acidental durante a transferência do Hospital Regional de Planaltina (HRP) para o Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB), ampliou a sequência de casos que têm levantado questionamentos sobre a rede pública de saúde do Distrito Federal. O episódio ocorreu em 6 de julho, dia em que a bebê deu entrada no HRP em estado grave, com diagnóstico de covid-19 e suspeita de bronquiolite.
O caso é investigado pela 16ª Delegacia de Polícia (Planaltina). Nesta quinta-feira (16/7), o secretário de Saúde do Distrito Federal, Juracy Cavalcante, participou de uma coletiva de imprensa para comentar esse e outros episódios recentes relacionados ao atendimento na rede pública de saúde (leia abaixo). Segundo ele, a apuração é conduzida com rigor.
"Hoje, o transporte sanitário é terceirizado e, caso se confirme a suspeita de extubação acidental durante o trajeto, tomaremos as providências para uma possível rescisão do contrato com a empresa responsável", afirmou. "Mais uma vez, reforço que todas as suspeitas de negligência ou imperícia estão sendo rigorosamente apuradas", completou.
Relato
Segundo a mãe da bebê, Samantha de Sousa, Maria Vitória chegou ao hospital por volta das 8h com tosse intensa e saturação de oxigênio em 30%. Após exames, entre eles um raio-X, a equipe médica diagnosticou a infecção por covid-19 e suspeitou de bronquiolite. De acordo com o relatório médico, ao qual o Correio teve acesso, o quadro foi inicialmente estabilizado e a saturação subiu para 95% com o uso de máscara de oxigênio. Durante o atendimento, porém, a criança sofreu uma parada cardiorrespiratória e foi reanimada e entubada.
Diante da gravidade do quadro, a equipe médica providenciou a transferência para uma unidade de terapia intensiva (UTI). "Meu sogro e meu marido correram atrás para conseguir a vaga o mais rápido possível. Conseguimos já à noite", contou Samantha. Segundo a tia da bebê, Clau Alves, após a confirmação da vaga no Hospital da Criança, a família teve que buscar uma ambulância com UTI móvel. "Era uma corrida contra o tempo para ela sobreviver", relatou.
A mãe conta que acompanhou a filha durante todo o trajeto até o Hospital da Criança e que a extubação ocorreu enquanto ela realizava o cadastro da bebê na recepção. "Fiquei cerca de 20 minutos na recepção. Quando entrei, o médico pediu que eu esperasse e eu já entrei em desespero. Depois, ele me disse que minha filha tinha sofrido uma parada cardiorrespiratória, que a equipe passou 26 minutos tentando reanimá-la, mas ela não resistiu. Em seguida, informou que deveríamos retornar ao Hospital de Planaltina", lembrou.
Ainda segundo Samantha, ao buscar esclarecimentos sobre o que havia ocorrido, um dos profissionais da UTI móvel informou sobre a extubação acidental. "Perguntei ao médico da ambulância o que tinha acontecido, e ele me disse que houve uma extubação acidental e que a equipe não conseguiu entubá-la novamente", lamentou.
Relatório médico
Conforme o relatório médico, Maria Vitória era portadora de broncodisplasia, doença pulmonar crônica que acomete recém-nascidos prematuros, e fazia uso contínuo de oxigênio em casa.
O documento, ao qual o Correio teve acesso, informa que a bebê chegou ao Hospital da Criança em estado grave, porém com sinais vitais preservados. Ainda de acordo com o relatório, durante a transferência para outro leito, Maria Vitória teria sido "acidentalmente extubada, evoluindo para parada cardíaca e morte". O registro foi elaborado pelo médico responsável pelo atendimento e contém o relato da mãe da criança.
Após o óbito, o corpo foi encaminhado de volta ao Hospital Regional de Planaltina para emissão da documentação necessária e, posteriormente, levado ao Serviço de Verificação de Óbito (SVO).
Outros casos sob suspeita
O secretário de Saúde do DF, Juracy Cavalcante, afirmou que as duas mortes maternas registradas no Hospital Regional de Samambaia (HRSam) apresentaram causas distintas e que, segundo a análise preliminar da pasta, todos os protocolos assistenciais foram seguidos pelas equipes médicas.
No caso de Maria Graciane Andrade Alves, de 36 anos, que morreu na última sexta-feira, ele explicou que durante a evolução do trabalho de parto, a equipe indicou a realização de uma cesariana. "Ela apresentou um quadro de atonia uterina, quando o útero não consegue se contrair adequadamente após o nascimento do bebê, o que provocou uma hemorragia. Todas as manobras previstas em protocolo foram realizadas, incluindo a histerectomia, mas ela evoluiu com uma hemorragia maciça que não respondeu ao tratamento e, infelizmente, veio a óbito", afirmou.
Sobre a morte de Maria Aparecida Caldino dos Santos, de 25 anos, ocorrida na segunda-feira, Juracy informou que a gestante deu entrada no hospital já em trabalho de parto. Ele relatou que a equipe identificou um sangramento nasal na gestante, o que levantou a suspeita de um distúrbio de coagulação. "Assim que ela apresentou esse sangramento, os médicos solicitaram exames laboratoriais e mantiveram o acompanhamento do parto. A criança nasceu em ótimas condições. No entanto, logo após o parto, a paciente apresentou uma hemorragia intensa. Os exames confirmaram um distúrbio grave de coagulação de difícil reversão, que ocasionou o óbito", disse.
Em relação ao óbito de Vilmar Pereira da Silva, de 49 anos, em 20 de junho, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Recanto das Emas, a presidente do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF), Eliane Brandão, afirmou que a apuração está em fase final. Segundo ela, o procedimento tramita na esfera administrativa disciplinar. "O instituto encaminhou o caso às comissões de ética da enfermagem e da medicina para que os fatos sejam analisados pelos respectivos conselhos profissionais. Além disso, seguimos à disposição da Polícia Civil para prestar todos os esclarecimentos necessários", afirmou.
No caso de Rodrigo Resende do Prado, de 48 anos, que morreu na recepção do Hospital de Base, no último domingo, Eliane disse que acompanha pessoalmente as investigações. De acordo com a presidente, o IgesDF realiza a análise das imagens do circuito interno, dos prontuários e dos depoimentos dos profissionais envolvidos. "A Controladoria Interna instaurou uma apuração para analisar todos os dados do caso. Diversas oitivas foram realizadas para que possamos chegar a um desfecho o mais preciso possível e adotar todas as medidas administrativas cabíveis. O mesmo rigor está sendo aplicado aos dois casos", destacou.
Seca favorece o avanço de doenças
O período de estiagem no Distrito Federal, marcado pela baixa umidade do ar e pelas temperaturas mais altas, tem aumentado a preocupação de médicos com a maior circulação de vírus respiratórios, especialmente os causadores da bronquiolite e da covid-19. O cenário exige atenção redobrada, principalmente com crianças pequenas, idosos e pessoas com doenças crônicas, grupos mais vulneráveis às complicações dessas infecções.
Segundo o pneumologista Fabrício Sanches, do Hospital Santa Lúcia, o clima seco cria condições favoráveis para a disseminação dos vírus e reduz a capacidade natural de defesa do organismo. "A baixa umidade relativa do ar compromete as defesas das vias respiratórias, tornando o muco mais espesso e reduzindo a eficiência do mecanismo de limpeza natural dos pulmões. Além disso, favorece a formação de aerossóis menores, que permanecem suspensos no ar por mais tempo e aumentam o risco de transmissão dos vírus", explica.
A bronquiolite, causada principalmente pelo vírus sincicial respiratório (VSR), costuma atingir crianças menores de 2 anos e pode evoluir rapidamente para quadros graves. Entre os principais sintomas estão tosse persistente, coriza, chiado no peito, dificuldade para respirar, febre e recusa para se alimentar. "Quando a criança apresenta respiração acelerada, esforço para respirar, lábios arroxeados, sonolência excessiva ou deixa de se alimentar, é fundamental procurar atendimento médico imediatamente", alerta o especialista.
Nos idosos, os sinais costumam ser diferentes e podem incluir tosse com catarro, falta de ar, febre, dor de garganta e cansaço mesmo em atividades simples. De acordo com Fabrício Sanches, pessoas acima de 70 anos e pacientes com doenças cardíacas, pulmonares ou diabetes apresentam maior risco de desenvolver complicações. "Falta de ar em repouso, confusão mental, dor no peito, febre persistente ou piora de doenças já existentes são sinais de alerta que exigem avaliação médica urgente", afirma.
Além da atenção aos sintomas, os especialistas reforçam que algumas medidas simples ajudam a reduzir o risco de infecção durante a seca. Manter os ambientes umidificados, beber bastante água, lavar as mãos com frequência, evitar aglomerações e manter os espaços ventilados são cuidados importantes para preservar a saúde respiratória. "É essencial manter a vacinação em dia. As vacinas contra a gripe estão disponíveis anualmente para crianças e idosos, e já existem imunizantes contra o vírus sincicial respiratório indicados para a população idosa", destaca o pneumologista.

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