Vida urbana

Em busca de pertencimento: quando os encontros vão além das redes sociais

Da praça ao clube do livro, espaços de convivência fazem diferença para a saúde mental e vida em comunidade. Criado pelo sociólogo Ray Oldenburg, o conceito de terceiros lugares ajuda a entender os impactos da falta desses ambientes

 22/07/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Dança do ventre aluna Sophia Elizabeth -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
22/07/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Dança do ventre aluna Sophia Elizabeth - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Praças, parques, projetos culturais, bibliotecas, cafeterias, bares e feiras são alguns exemplos dos chamados "terceiros lugares". O conceito foi cunhado pelo sociólogo Ray Oldenburg, em 1989, que significa espaços onde há socialização e construção de vínculos de comunidade, que vão além da casa, o 1º lugar, e o trabalho, 2º lugar.

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Em um contexto de mudança desses espaços de convivência, cresce, também, a preocupação com a solidão e o enfraquecimento das conexões sociais. Uma pesquisa realizada pela Gallup Inc e a Meta intitulada Estado das conexões sociais mostra que, entre os sete países investigados, o Brasil é onde menos pessoas se sentem bastante ou relativamente conectadas, emocionalmente, com os outros — com 47% relatando pouca ou nenhuma conexão.

Em sua tese, Oldenburg argumenta que os terceiros lugares estão acabando, e as causas identificadas por ele são o urbanismo, a falta de mobilidade urbana e o acesso a espaços sendo definido pelo consumo. A designer Mariana Desconsi, de 30 anos, por exemplo, é natural de Santa Rosa (RS) e descreve que a experiência de viver na capital mudou bruscamente a forma como ela se conecta com as pessoas.

"Um terceiro espaço na minha antiga cidade eram as próprias ruas. Só de sair de casa, circular, você encontrava outras pessoas, via o que estava acontecendo na cidade", conta a gaúcha. Algo que, em Brasília, tornou-se difícil para a jovem, que precisa se deslocar por quilômetros até chegar aos pontos de encontro desejados.

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Segundo a antropóloga e cientista social Laura Tameirão, essa dificuldade de acesso não é acidental, nem uma questão de escolha individual: é estrutural. De acordo com a especialista, o acesso a espaços de lazer e cultura é historicamente negado às minorias. "A privatização do espaço público faz com que as camadas mais vulnerabilizadas da população tenham seu tempo livre e acessos negados", destaca Tameirão. 

A especialista conecta esse cenário a debates como a escala de trabalho 6x1 e o direito à cidade por meio do passe livre em transportes públicos. "Como eu vou criar relações além do trabalho se tenho apenas um dia de descanso e não posso pagar para acessar um direito de circular pela cidade, que deveria ser assegurado?", questiona. Para Laura, é a mobilidade urbana que amarra essas pautas — e sua ausência é a barreira que segrega as pessoas em seus próprios espaços.

Karla Xavier, de 51 anos, precisou buscar os terceiros lugares após sentir a falta deles. Fisioterapeuta, ela frequenta espaços como o Choro no Parque da Cidade e a Feira da Praça 13, e é assídua em sua prática de Canoa Havaiana e no clube do livro que tem com amigos. Mas não foi sempre assim: durante muito tempo, sua rotina era da casa para o trabalho e encontros sociais ocasionais. "Achava que a vida era aquilo mesmo. Faltava tudo isso que vivo agora, que me alegra e deixa minha vida mais interessante", ressalta. 

O sofrimento psíquico da solidão

Segundo dados do levantamento realizado pela Market Analysis com a ONG Family Talks, quatro em cada 10 brasileiros se sentem solitários, com um recorte: o grupo que mais relata solidão são mulheres jovens de baixa renda. O estudo também aponta que a tecnologia retroalimenta a sensação de isolamento. Entre os que relatam estresse digital alto, 61,2% são solitários.  

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Na perspectiva da psicóloga clínica e psicanalista Luiza Souto, esses sentimentos decorrentes da falta de espaços para além da própria casa e do trabalho podem desencadear em sofrimento psíquico. Souto explica que estar com o outro e se sentir pertencente a uma comunidade e a um espaço é necessário para a sobrevivência:  "Precisamos de outras pessoas. Estar incluído é uma maneira de nos fortalecer enquanto sujeito".

A professora de psicologia Monik Moneiro salienta que, hoje, muitas identidades de "tribos urbanas" se perderam, gerando uma crise de subjetividade nos sujeitos. Ela afirma que é extremamente comum na prática clínica queixas de falta de identificação com grupos e lugares, assim como sentimentos de inadequação em espaços fora do trabalho e de casa. 

Para Sophia Elizabeth Vieira, de 22 anos, é fácil perceber as diferenças no quesito qualidade de vida. Ela decidiu adotar a dança do ventre como hobbie, em 2024 e, agora, em horários nos quais estaria "rolando" diferentes feeds, em redes como o Instagram ou o TikTok, está praticando movimentos e aprendendo coreografias no estúdio de dança Zahra Oásis, na Asa Sul

Assistente analítica e midiática, ela trabalha pela manhã e frequenta as aulas à noite. A dança do ventre não apenas mudou a rotina da Sophia, como também teve impacto na autoestima dela. "Já tive muita insegurança com a aparência, com o meu corpo. Ao me inscrever para as aulas do estúdio, percebi o quanto mulheres com diferentes corpos arrasam na dança. Isso me deu maior sensação de autonomia", assinala a jovem. 

Ao menos duas vezes por semana, Sophia separa uma parte do dia para um lado diferente dela mesma. "Antes era muito comum eu chegar até 11 horas de tela, seja em casa ou seja no trabalho", compartilha Sophia.

Laura Tameirão destaca o espaço ocupado pela internet atualmente a partir da falta de um terceiro lugar físico. As redes sociais são um "lugar-outro", de possível continuidade e estruturação das relações. Para a especialista, o problema se concretiza quando elas se tornam o lugar único de interações sociais: "Isso gera distanciamento das outras esferas da sociedade e reproduz mundos e formas de vida mais individualistas. Por causa dos algoritmos, o mundo digital é um ambiente mais fácil de existir", explica. 

Apesar desse cenário de escassez, a especialista destaca que toda forma de resistência carrega um caráter de adaptação, motivada pela própria necessidade de sobrevivência. Existem práticas urbanas que reinventam o uso dos espaços públicos — o skate, os esportes coletivos — e também uma dimensão de ocupação e reapropriação por meio de festas, como carnaval, festas juninas e bumba-meu-boi. São formas de ocupar o terceiro lugar que a cidade por vezes nega, como observou Ray Oldenburg na década de 1980.

*Estagiária sob a supervisão de Eduardo Pinho

 


  •  22/07/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Dança do ventre aluna Sophia Elizabeth
    22/07/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Dança do ventre aluna Sophia Elizabeth Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Parque da Cidade é um dos terceiros lugares frequentados por Karla Xavier
    Parque da Cidade é um dos terceiros lugares frequentados por Karla Xavier Foto: Davi Pereira/CB/D.A Press
  •  22/07/2026 Davi Pereira/CB/D.A Press Karla Xavier, frequenta o parque da cidade como terceiro lugares.
    22/07/2026 Davi Pereira/CB/D.A Press Karla Xavier, frequenta o parque da cidade como terceiro lugares. Foto: Davi Pereira/CB/D.A Press
  •  22/07/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Dança do ventre aluna Sophia Elizabeth
    22/07/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Dança do ventre aluna Sophia Elizabeth Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  •  22/07/2026 Davi Pereira/CB/D.A Press Karla Xavier, frequenta o parque da cidade como terceiro lugares.
    22/07/2026 Davi Pereira/CB/D.A Press Karla Xavier, frequenta o parque da cidade como terceiro lugares. Foto: Davi Pereira/CB/D.A Press
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postado em 26/07/2026 06:00
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