Esta é minha direção

Redes de apoio e qualificação mudam a vida de motoristas e entregadoras

Na última reportagem da série do Correio, histórias de apoio mútuo e programas gratuitos de qualificação mostram como a cooperação gera oportunidades para motoristas e entregadoras do DF

Carolina Souza criou o coletivo Moto Brabas, que tem 200 mulheres -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
Carolina Souza criou o coletivo Moto Brabas, que tem 200 mulheres - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

A rotina de Carolina Souza, como a de tantas outras mulheres, é "um corre atrás do outro". Aos 45 anos, ela tem dois empregos e é quem sustenta a família. Moradora de Valparaíso de Goiás, trabalha como motofretista no Distrito Federal e toca a própria confeitaria no Entorno. "Eu era comerciante no Guará, vendia marmitas, mas, com a pandemia, meu negócio quebrou. Foi quando decidi me tornar motogirl de aplicativo. De manhã, era motofretista e, à tarde, entregava lanches", relembra. Há dois anos, o cotidiano mudou. Carolina sofreu um grave acidente no trânsito, enquanto voltava para casa, e, após se recuperar, manteve apenas o primeiro emprego, com carteira assinada.

"Tenho sete parafusos e duas placas na clavícula, o que me impedia de passar muitas horas pilotando a moto. Busquei outra opção, pois tenho um filho e, como meu esposo sofre com insuficiência cardíaca severa, impossibilitado de trabalhar, não posso parar", relata. Carolina abriu um delivery de dindin gourmet em sua casa e, devido ao ofício de motofretista, aumentou o empreendimento e conseguiu inaugurar a própria confeitaria. "O transporte, porém, ainda é minha maior paixão", ressalta. Não bastando manter os diferentes papéis que exerce em sua rotina, ela apostou em mais uma missão, da qual muito se orgulha: criou o coletivo Moto Brabas, que reúne mais de 200 motogirls entregadoras do DF. 

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Por meio de um grupo no WhatsApp, as trabalhadoras compartilham os desafios e as conquistas de rodar sobre duas rodas na capital federal. "A gente (as mulheres) se sentia como peixes fora d'água no meio de tantos entregadores". As demandas entre as motogirls e os motociclistas, segundo Carolina, nem sempre são as mesmas. "O nosso grupo é um espaço seguro para podermos desabafar, pedir ajuda ou só falar sobre o dia. Quando alguma de nós se acidenta ou tem problema com o aplicativo, por exemplo, nos mobilizamos para auxiliar", explica.  

  • Carolina Souza criou o coletivo Moto Brabas, que tem 200 mulheres
    Carolina Souza criou o coletivo Moto Brabas, que tem 200 mulheres Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Carolina Souza criou o coletivo Moto Brabas, que tem 200 mulheres
    Carolina Souza criou o coletivo Moto Brabas, que tem 200 mulheres Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Carolina Souza criou o coletivo Moto Brabas, que tem 200 mulheres
    Carolina Souza criou o coletivo Moto Brabas, que tem 200 mulheres Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Carolina Souza criou o coletivo Moto Brabas, que tem 200 mulheres
    Carolina Souza criou o coletivo Moto Brabas, que tem 200 mulheres Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Carolina Souza criou o coletivo Moto Brabas, que tem 200 mulheres
    Carolina Souza criou o coletivo Moto Brabas, que tem 200 mulheres Minervino Júnior/CB/D.A.Press

Carolina também é habilitada para conduzir ônibus, vans e micro-ônibus. Pelo Departamento de Trânsito (Detran-DF), fez gratuitamente o Curso Especializado de Condutor de Veículo de Emergência (CVE) e, este ano, inscreveu-se para tirar a categoria E da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) pelo Programa Mais Motoristas, do Serviço Social do Transporte (Sest) e do Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Senat).

O projeto, que financia a mudança da CNH e promove capacitações, estabeleceu, a partir deste ano, prioridade para as mulheres, tanto no período de inscrições quanto no processo de convocação. "Avisamos sobre a oportunidade no grupo das Moto Brabas e ajudamos umas às outras a se cadastrarem. Agora, resta torcer e esperar o resultado", diz a idealizadora do coletivo.  

Dados do Sest Senat mostram que, no primeiro semestre de 2026, mais mulheres se matricularam nos cursos relacionados a transporte de cargas (que inclui as modalidades presencial, EaD e de palestras) do que no ano de 2025 inteiro no DF — 497 contra 443. 

Essa é a terceira e última reportagem da série do Correio Esta é minha direção, que falou sobre os avanços, os riscos diários e os gargalos de infraestrutura vivenciados pelas mulheres no setor de transportes do país. Nesta edição, mostramos como a organização coletiva, a busca por qualificação profissional e as iniciativas de apoio mútuo estão transformando a realidade das condutoras e abrindo novos caminhos.

CID-Mulheres SEST-SENAT
Nas edições de 2023 e 2025, o Programa Mais Motoristas entregou 2 mil CNHs a mulheres (foto: Valdo Virgo)

Brabas

O coletivo formado por Carolina foi a principal inspiração para a dissertação de mestrado Meu capacete já viu muitas lágrimas: o trabalho feminino plataformizado a partir das experiências do coletivo Moto Brabas, escrita pela socióloga e doutoranda Kethury Magalhães.

Conforme a pesquisa, o grupo é composto majoritariamente por mulheres negras periféricas, com grau de escolaridade médio ou superior, entre 26 e 33 anos, que cumprem jornadas de 70h a 90h, por seis dias semanais. "O que as une é o fato de estarem envolvidas em uma atividade altamente masculina, precarizada e, ainda assim, todos os dias escolherem aquele ofício porque gostam. Encontram prazer, mesmo com todas as adversidades", afirma a pesquisadora. 

Para a diretora-executiva nacional do Sest Senat, Nicole Goulart, o setor de transportes só tem a ganhar com a maior participação de mulheres. "A atuação delas amplia a disponibilidade de mão de obra qualificada em um momento em que o transporte enfrenta dificuldades para contratar profissionais, contribui para ambientes mais diversos e fortalece a inovação nas empresas. Mais do que uma pauta de diversidade, trata-se de uma estratégia para aumentar a competitividade do setor", enfatiza.

Nicole acrescenta que essa transformação depende de um conjunto de ações. "É preciso investir em qualificação técnica, criar ambientes de trabalho seguros, adaptar a infraestrutura, ampliar as oportunidades de desenvolvimento profissional e dar visibilidade às mulheres que já constroem carreiras de sucesso no transporte", diz.

O Programa Mais Motoristas, por exemplo, mantém uma parceria com a Auto Viação Marechal, uma das empresas de transporte coletivo do DF, que também disponibiliza o Programa de Aperfeiçoamento em Dirigibilidade, desenvolvido exclusivamente para elas, e reserva percentual de vagas para mulheres nos processos seletivos internos de formação de motoristas e manobristas. Atualmente, a empresa tem 410 mulheres no quadro de colaboradores, das quais 21 atuam como motoristas — há quatro anos, eram apenas 10. 

  • Tatiana Keller deixou a enfermagem para ser motorista de ônibus
    Tatiana Keller deixou a enfermagem para ser motorista de ônibus Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Tatiana Keller deixou a enfermagem para ser motorista de ônibus
    Tatiana Keller deixou a enfermagem para ser motorista de ônibus Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Tatiana Keller deixou a enfermagem para ser motorista de ônibus
    Tatiana Keller deixou a enfermagem para ser motorista de ônibus Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Tatiana Keller deixou a enfermagem para ser motorista de ônibus
    Tatiana Keller deixou a enfermagem para ser motorista de ônibus Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Tatiana Keller deixou a enfermagem para ser motorista de ônibus
    Tatiana Keller deixou a enfermagem para ser motorista de ônibus Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Tatiana Keller deixou a enfermagem para ser motorista de ônibus
    Tatiana Keller deixou a enfermagem para ser motorista de ônibus Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Independência

Uma das profissionais que participam é Tatiana Keller, 45. Ela começou na empresa como cobradora e passou quase dois anos na função até surgir a oportunidade de ingressar em um dos projetos de formação. Ela ficou por mais de um ano na equipe de manobra, foi para a condução de veículos menores e, hoje, é motorista efetiva de ônibus convencionais.

"É um preparativo bem minucioso, porque carrego em torno de 180 passageiros na primeira viagem. Por dia, são quase 500. Então, preciso ter segurança para poder trabalhar corretamente", conta a moradora de Luziânia (GO).

Embora enfrente uma rotina puxada e desafios pontuais no trânsito urbano, a motorista não esconde o orgulho que sente ao assumir o comando do ônibus. Formada em enfermagem, Tatiana optou por seguir a paixão pela direção, motivada tanto pela realização pessoal quanto pelo equilíbrio que a carga horária de seis horas lhe proporciona para criar as duas filhas.

"Muitas pessoas me perguntam por que fui ser motorista. Amo o que eu faço. E sinto ainda mais satisfação em saber o quanto me dediquei para ocupar esse posto. O sentimento é de dever cumprido", celebra.

A presença no pátio e nas linhas da capital é marcada por um forte ambiente de incentivo, que rompe com os antigos estigmas masculinos do setor. "A motivação, inclusive dos colegas homens, nos faz sentir valorizadas. Quando estamos dirigindo, também há passageiros que se surpreendem ao ver uma mulher no volante e comentam o quanto acham bacana esse progresso. Modéstia à parte, muitos dizem que dirijo muito bem e sou cuidadosa", comenta Tatiana, que não se esquece do cuidado pessoal. Nas pausas, retocar a maquiagem é rotina.

Sarah Efigência passou a atuar como motorista de transporte escolar após fazer curso do Detran
Sarah Efigênia passou a atuar como motorista de transporte escolar após fazer curso do Detran (foto: Arquivo pessoal)

Capacitação

No âmbito das políticas públicas de incentivo, o Detran-DF mantém, desde outubro de 2023, o projeto Mulheres que Dirigem Vão Mais Longe, que capacitou 420 profissionais em cursos gratuitos voltados para veículos de emergência, transporte escolar, coletivo e motofrete. 

"Nas formações, elas demonstram um interesse real pelo conhecimento, participam ativamente das atividades propostas, argumentam e querem saber de possibilidades reais de trabalho. Não posso afirmar que tudo isso é recíproco nos homens", assinala Creuseni Aparecida Pereira de Assis, analista e professora da Escola Pública de Trânsito do órgão, ressaltando o engajamento e a busca ativa das alunas por espaço nas pistas da capital.

A transformação profissional, motivada pelo projeto do Detran, bateu à porta de Sarah Efigênia, 33, enquanto ela trabalhava como frentista em um posto de combustível. Mãe solo de dois filhos — de 7 e 13 anos —, ela pagava aluguel e buscava uma alternativa para superar os limites do salário mínimo. Ao saber pela internet sobre as capacitações gratuitas, inscreveu-se nos cursos de transporte coletivo, escolar e de emergência.

A qualificação abriu portas imediatas: logo após concluir as aulas, Sarah conquistou a oportunidade de assumir o volante de micro-ônibus e ônibus escolares em 12 escolas do Paranoá e do Itapoã, onde transporta diariamente dezenas de estudantes entre 11 e 15 anos.

"A virada de chave no volante não só melhorou minha renda, como devolveu tempo para conviver com meus filhos. Na antiga rotina, eu trabalhava na escala 6x1 sem horários fixos. A vida se resumia a dormir, acordar e ir trabalhar. Não conseguia acompanhar o crescimento das crianças", recorda. 

Sobre a capacitação, ela elogia. "O curso me tirou o medo, eu me qualifiquei e conquistei uma profissão. A gente ganha uma bagagem prática que levanta nossa autoestima. Agora tenho mais tempo, o salário é melhor e consigo estar com meus filhos. Eu me sinto vitoriosa", comemora.

Cursos

As opções de formações gratuitas abertas ao público mencionadas na reportagem podem ser conferidas nos sites dos organizadores:

 

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postado em 27/07/2026 04:00 / atualizado em 27/07/2026 10:42
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