Eleições 2026

Candidatos a vice têm papel estratégico nas chapas majoritárias

Muito além de uma substitução legal em eventual ausência, a escolha do segundo nome na chapa majoritária define alianças políticas estratégicas, chega a setores que o titular não alcança e pode garantir a governabilidade do futuro mandato

A escolha do nome que virá como vice costuma ser uma das decisões mais estratégicas na formação das chapas -  (crédito: Caio Gomez)
A escolha do nome que virá como vice costuma ser uma das decisões mais estratégicas na formação das chapas - (crédito: Caio Gomez)

Candidatos e candidatas ao Executivo concentram a maior parte da atenção durante as campanhas eleitorais, mas a escolha do nome que virá como vice costuma ser uma das decisões mais estratégicas na formação das chapas majoritárias. Além de representar um eventual sucessor em caso de afastamento do titular, a segunda figura pode ampliar alianças partidárias, atrair segmentos específicos do eleitorado e fortalecer a governabilidade de um futuro mandato. Com as articulações para as eleições de 2026 finalizadas, partidos e lideranças políticas intensificam a divulgação das chapas, para propagar os nomes por trás das candidaturas como vices ao eleitorado. Especialistas ouvidos pelo Correio avaliam que a escolha pode influenciar tanto o desempenho nas urnas quanto a capacidade de articulação de um eventual governo.

Para o doutor em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB) Leonardo Rodrigues de Morais, o candidato a vice exerce um papel estratégico na composição das chapas, mas sua influência sobre o resultado das urnas é limitada. "A influência do vice na chapa não é decisiva. Ele exerce apenas um efeito marginal sobre os votos totais do candidato principal", afirma. Segundo o especialista, a escolha costuma buscar a complementação do perfil do titular. "O vice acaba agregando aquilo que falta no titular: legitimidade, confiança de um setor específico ou ampliação de palanque. Nesse sentido, é mais um reforço estratégico pontual do que um fator decisivo isolado", avalia.

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Ao tratar dos critérios utilizados pelos partidos, Morais destaca que fatores eleitorais e geográficos têm maior peso do que aspectos como diversidade ou diferenças ideológicas. O cientista político acrescenta que também é comum buscar equilíbrio regional e geracional entre os integrantes da chapa. "A maioria dos vices, apesar de ser de sigla diferente, evita romper o alinhamento ideológico da chapa, para não gerar atrito de governo", observa.

Na avaliação do especialista, a polarização política também ampliou a importância estratégica do vice. "Quanto mais os dois polos da disputa se radicalizam, mais o vice vira o único espaço disponível para sinalizar moderação", pontua, citando como exemplo a escolha de Geraldo Alckmin para compor a chapa presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, que saiu vitoriosa em 2022 e busca o repetir o êxito na campanha à reeleição. 

Imagem pública

Fazer o vice ser conhecido e aceito pelo eleitorado também é fator decisivo em época de campanha. Alexandre Kieling, professor do Programa de Pós-Graduação em Inovação em Comunicação e Economia Criativa da Universidade Católica de Brasília (UCB), destaca que o perfil ideal do vice reúne reconhecimento público, identidade política consolidada e capacidade de mobilização. "É essencial que ele tenha contato com o eleitorado que o titular da chapa não tem", ressalta

Além disso, o especialista aponta que experiência política, liderança, carisma, atuação nas redes sociais e bases regionais são características que agregam valor à candidatura. "Ele tem que ter um valor simbólico importante. O poder político diz respeito ao discurso político e ao que esse discurso representa", observa, defendendo que as campanhas apresentem de forma clara ao eleitor qual será o papel do segundo da chapa em um eventual governo. "O vice tem que ser apresentado como aquele que vai compor o projeto político, mas também como a figura que vai substituir o titular", avalia.

Para Kieling, essa transparência contribui para fortalecer a confiança do eleitor. "A credibilidade ainda é uma arma importante na construção simbólica. Se você quer atingir o eleitor com consistência do discurso político, é preciso apresentar a perspectiva de credibilidade do candidato", frisa.  

Relevância institucional

De acordo com o cientista político e professor de direito constitucional do Centro Universitário Estácio Lucas Zandona, a história política brasileira demonstra que a escolha do vice em uma chapa majoritária merece atenção especial, pois o ocupante do cargo pode assumir a chefia do Executivo em diferentes circunstâncias. "Se nós pegarmos o governo federal, podemos verificar que isso aconteceu com Itamar Franco (era vice de Fernando Collor de Mello) e com Michel Temer (era vice de Dilma Rousseff). Então, nós precisamos entender que a escolha de um vice para compor uma chapa majoritária é muito importante", destaca.

Apesar da relevância institucional da função, Zandona ressalta, no entanto, que "poucos estabelecem um vice para um projeto mais longo". O professor observa que esse distanciamento pode dificultar a atuação do segundo caso ele precise assumir o comando do governo. "Se o vice, durante o mandato do titular, teve pouca atuação política, quando ele chega ao cargo, já não consegue governar com facilidade, porque vai ter que construir um apoio político, já que não participou ativamente do governo", pontua.

Na avaliação do professor, a escolha do nome também leva em consideração a capacidade de ampliar a base eleitoral da chapa. "Nós temos o vice sendo escolhido para ampliar o apoio, formar alianças partidárias e angariar apoio onde o titular é fraco", ressalta. Segundo ele, o posto pode ser ocupado por lideranças regionais ou por nomes com perfil técnico e experiência em gestão pública, capazes de agregar credibilidade e complementar o perfil do candidato principal.  

Pretensões 

Com as alianças das chapas majoritárias que concorrem ao Governo do Distrito Federal definidas, o Correio buscou as principais propostas de candidatos e candidatas a vice das seis chapas melhor avaliadas na segunda rodada da pesquisa Correio/Opinião Inteligência Política, divulgada em 5 de agosto.

Nome escolhido por Celina Leão (PP), o ex-secretário da Casa Civil Gustavo Rocha (Republicanos) afirmou que, entre as funções que pretende desempenhar durante a disputa, estão a apresentação das propostas da chapa e o diálogo com diferentes setores da sociedade. "Meu papel será contribuir para apresentar nossas propostas à população, ajudar na construção do plano de governo e dialogar com diferentes setores da sociedade", afirmou.

Vice na chapa de José Roberto Arruda (PSD), o ex-deputado Luiz Pitiman, do mesmo partido, declarou que pretende usar sua experiência na administração pública, no Legislativo e na iniciativa privada para contribuir com a campanha e com um eventual governo. "Levando minha experiência, meu conhecimento de Brasília e minha relação com o setor produtivo e com as cidades. Conheci muito bem o DF, suas potencialidades, suas carências, e principalmente a parte da população que mais precisa de governo", destacou.

Candidata a vice-governadora na chapa de Ricardo Cappelli (PSB), Sofia Carvalho pertence à mesma legenda, e pretende levar para a disputa a defesa de uma maior participação das mulheres nos espaços de poder. "Quero poder disputar esse espaço e estar junto para construir e transformar o poder, abrindo caminhos que precisamos de fato para a mulherada. Construir um país onde ser mulher não seja uma ameaça constante", sustentou a produtora rural.

Experiência nas áreas de segurança, judiciário e combate à corrupção serão os pontos de contribuição do juiz Everardo Ribeiro, vice-governador na chapa de Paula Belmonte, ambos do PSDB. "Paula me convocou para integrar uma estrutura que ela pretende criar no governo, que é o Gabinete de Combate à Corrupção", adiantou ao Correio. O candidato afirmou, ainda, que pretende trabalhar para fortalecer mecanismos de integridade e articulação institucional. 

Anunciada como segundo nome na chapa encabeçada por Leandro Grass (PT), Dora Gomes (PV) pretende contribuir para a campanha a partir da complementaridade entre as trajetórias dos dois candidatos. "Pretendo estar muito presente nas cidades, nos bairros, nas casas, ouvindo a população e dialogando especialmente com mulheres, mulheres negras, empreendedores, setor privado, movimentos sociais, juventude, comunidade cristã", pontuou. 

Vice na chapa de Samara Mineiro (UP), Thaís Oliveira afirmou que pretende concentrar sua atuação na defesa das mulheres e na construção de políticas de proteção e combate à violência. "O atual governo Ibaneis/Celina nada fez contra a epidemia de feminicídio que enfrentamos no Distrito Federal. Minha contribuição na candidatura será construir um governo que defenda as mulheres com toda uma rede de proteção, apoio e combate aos agressores", critica a postulante, também do UP.

Em entrevista ao CB.Poder, o delegado Rafael Sampaio, candidato a vice de Kiko Caputo (Novo), declarou que entendeu o convite como "uma mensagem muito clara" para a população. "Em primeiro lugar, houve uma clara preocupação com a segurança pública, sendo eu um integrante da PCDF. Vejo que a segurança pública do DF não está bem. Isso quem diz é a própria população", afirmou. 

O que pensam os partidos

MDB

Para o presidente do MDB-DF, Wellington Luiz, a escolha do candidato a vice deve levar em conta, sobretudo, a capacidade de contribuir para a gestão pública e o compromisso com a população. Ele também defende que o vice pode complementar o perfil do titular. Como exemplo, ele cita a escolha de Gustavo Rocha para compor a chapa do partido. "Nós escolhemos um vice que é o Gustavo Rocha. Depois de ganhar a eleição, tem que fazer gestão. Precisamos de alguém técnico e com capacidade de articulação", ressalta.  

PT

O presidente do PT-DF, Guilherme Sigmaringa, destaca que a escolha do candidato a vice deve ir além da sucessão eventual do titular e considerar a participação efetiva na administração. Segundo ele, o partido busca um nome que contribua diretamente para a condução de um futuro governo. "A posição de vice é levada a sério não apenas imaginando uma possível vacância do titular. Para além do processo eleitoral, queremos alguém que governe conosco", afirma.

 

Republicanos

O presidente do Republicanos-DF, Joaquim Mauro, destaca que o partido prioriza nomes que compartilhem dos mesmos princípios e estejam preparados para contribuir com a administração pública. "O vice-governador deve ser um parceiro estratégico do chefe do Executivo local, e sua atuação não deve se limitar à substituição eventual do titular, mas envolver participação ativa na formulação de políticas públicas, na articulação institucional e no acompanhamento das prioridades da gestão", destaca.

*Os demais partidos foram procurados pelo Correio, porém não se manifestaram

 

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postado em 20/08/2026 05:00
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